Posted 06/03/2011 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

A estreia vitoriosa do Al-Ittihad na Liga dos Campeões Asiáticos

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O

Al-Ittihad, clube saudita orientado por Toni e onde actuam Paulo Jorge e Nuno Assis, estreou-se com uma vitória na fase de grupos da Liga dos Campeões Asiáticos, ao bater, no Prince Abdullah Al Faysal Stadium, os iranianos do Persepolis por 3-1. Uma vitória inteiramente justa, já que os «Tigres» de Jeddah conseguiram superiorizar-se ao adversário, conjugando uma boa organização defensiva com inteligência e perspicácia a explorar as debilidades do sector defensivo do Persepolis. Uma entrada forte em jogo valeu a vantagem ao Al-Ittihad, alcançada através de um golo do internacional argelino Ziaya, na conclusão de um ataque rápido lançado por Noor. Pouco depois, o Persepolis conseguiria a igualdade, através de um livre directo de Zareh, desviado pelo central Tukar em direcção à sua própria baliza, resultado com que, apesar do maior ascendente da formação saudita, se chegou ao intervalo. Um excelente arranque de segunda parte, permitiria aos «Tigres» chegar ao 2-1, através de uma grande penalidade convertida por Noor, a castigar uma falta do guardião Ahmadi sobre o internacional português Nuno Assis. Esse golo acabaria por ditar uma mudança nas coordenadas de jogo: o Al-Ittihad consentiu um maior ascendente ao adversário, mas nunca deixou de procurar a baliza adversária através de rápidos e incisivos contra-ataques. Estratégia que surtiu efeito, já que a um quarto de hora do fim, o internacional argelino Ziaya bisou, aproveitando um rápido contra-ataque construído à direita por Paulo Jorge e Al-Raheeb, jogador que Toni lançara dois minutos antes na partida.

 

Como joga o Al-Ittihad (4x4x2)

Al-Ittihad vs. Persepolis

 

Chaves

– Boa organização do ponto de vista defensivo, graças a grande rigor do ponto de vista táctico e posicional. As tentativas do Persepolis em explorar a velocidade e mobilidade dos avançados – principalmente Rezaei e Norouzi – através de passes longos desde a primeira e segunda fase de construção de jogo ofensivo nunca resultaram, como também as saídas em ataque organizado, sobretudo por dificuldades de ligação entre o meio-campo e o ataque. A opção por um bloco médio-baixo em defesa organizada e o trabalho da dupla de médios defensivos, com particular destaque para Khariri, foram determinantes, como também a capacidade dos defesas para se imporem em acções de antecipação aos avançados adversários.

– Percepção rápida da principal debilidade do adversário do ponto de vista defensivo: a lentidão da sua dupla de centrais e a propensão ofensiva dos laterais, a que se juntou uma estratégia de alto risco com a defesa alta e constantes saídas para fora-de-jogo. A exploração dessa situação, tanto em ataques rápidos como em ataque organizado, foi determinante nos 3 golos e em grande parte das oportunidades de perigo criadas pelo Al-Ittihad.

– Em ataque organizado, o Al-Ittihad mostrou-se capaz de explorar a capacidade ofensiva dos seus laterais, principalmente de Al-Saqri, já que usufruiu de maior liberdade para se desdobrar pelo flanco, aproveitando as deslocações para espaços interiores de Nuno Assis. Paulo Jorge, apesar de mais preso a tarefas defensivas, também criou desequilíbrios com as suas subidas, mostrando um bom entendimento com Noor e Al-Rashid, jogadores com quem promoveu várias combinações 2×1. De referir também a apetência de ambos os laterais para efectuar cruzamentos largos em direcção a Ziaya, de forma a explorar a sua capacidade no futebol aéreo. Nota, igualmente, para a boa entrada em jogo do lateral-direito Al-Raheeb, jogador que efectuou a assistência para o 3º golo do Al-Ittihad.

– Boas trocas de bola na 3ª e na 4ª fase de construção de jogo ofensivo, aproveitando a capacidade de passe de Nuno Assis e Noor, como também a boa percepção destes jogadores das movimentações de Al-Rashid, avançado capaz de jogar a toda a largura do ataque e inteligente a jogar de costas para a baliza, e Ziaya, muito astuto a desmarcar-se nos limites do fora-de-jogo e a ganhar posição aos defesas adversários. Boas combinações entre Al-Rashid e Ziaya, muitas vezes a 1-2 toques.

– A defesa em bloco médio-baixo garante a presença de Nuno Assis e Noor na segunda fase de construção de jogo assim que a bola é recuperada. Ambos os jogadores assumem um papel preponderante no lançamento de ataques rápidos em direcção a Ziaya e Al-Rashid, ao explorarem a sua capacidade de passe e boa visão de jogo. Ahmed Hadid, um dos médios defensivos, também revela bons argumentos a nível do passe, mas aparece mais a fazer a ligação entre a 2ª e 3ª fase de construção de jogo ofensivo em ataque organizado, até pela tendência para saídas curtas dos dois centrais e de Khariri.

 

Análise

Mabrouk Zayed, experiente guardião internacional saudita, não foi obrigado a grande trabalho ao longo do jogo. Sem hipóteses no golo sofrido, ao ser traído por um desvio em Tukar que alterou a trajectória da bola, correspondeu, a grande altura, nos últimos 10 minutos de jogo, a fase de maior assédio do Persepolis à baliza do Al-Ittihad. Apesar de algo espalhafatoso nas saídas aéreas, Zayed destaca-se pela elasticidade, agilidade e bons reflexos, para além de evidenciar à vontade a jogar com os pés. No centro da defesa, Redha Tukar e o canhoto Hamad Al-Montashari formam uma dupla muito compacta, tirando partido do facto de jogarem há várias épocas juntos, tanto no clube como na Selecção. Ambos muito fortes e disponíveis do ponto de vista físico, revelam um bom domínio do espaço aéreo e capacidade para se imporem na antecipação. Apesar de Tukar ser mais espectacular nas suas intervenções, até pela agressividade com que aborda os lances e ataca a bola, foi Al-Montasharia a estar perto de alcançar, aos 90 minutos, o 4-1, na conclusão de um ataque rápido por si iniciado, numa das poucas vezes que incorporou uma iniciativa ofensiva. Nas laterais, Paulo Jorge e Saleh Al-Saqri, dois jogadores de forte propensão ofensiva. Paulo Jorge, pela presença de Norouzi e Rezaei no seu corredor, foi obrigado a um trabalho mais aturado do ponto de vista defensivo, mostrando sempre grande rigor do ponto de vista táctico e posicional, o que lhe permitiu ganhar a maior parte dos duelos. Menos expansivo do que Al-Saqri na exploração do flanco, não se inibiu, contudo, de produzir alguns desequilíbrios do ponto de vista ofensivo, tirando partido da sua velocidade, capacidade de condução e poder de desmarcação. Al-Saqri, por sua vez, teve grande participação nos desdobramentos ofensivos da equipa, aproveitando as deslocações para espaços interiores de Nuno Assis para subir pelo flanco. Lateral esquerdo muito experiente e ainda com grande disponibilidade física, mostra bons argumentos a nível do passe lateral e dos cruzamentos. Do ponto de vista defensivo, impôs-se, sem grande dificuldade, a Badamaki, mas sentiu maiores dificuldades, na fase final da partida, quando teve pela frente o veloz Feshangchi.

– Saud Khariri e Ahmed Hadid formam a dupla de médios defensivos, jogadores determinantes para conferir equilíbrio à equipa, até porque evidenciam um muito interessante sentido táctico e grande disponibilidade física, mostrando-se sempre muito solícitos a compensar os desdobramentos ofensivos dos laterais. Khariri, experiente internacional saudita, é um exímio recuperador de bolas: forte do ponto de vista físico e eficaz em acções de desarme e de antecipação, tanto pelo chão como pelo ar, corta inúmeras de linhas de passe. É, no entanto, algo limitado do ponto de vista técnico e sente algumas dificuldades nas saídas, o que o leva a optar, na maior parte das ocasiões, por passes curtos. Hadid, internacional AA pelo Omã, para além de muito participativo do ponto de vista defensivo, patenteia bons argumentos a nível do passe e a assumir acções de condução, o que lhe garante um papel importante nas saídas para ataque, principalmente a partir da 2ª fase de construção de jogo ofensivo. Nas alas, o capitão Mohammed Noor actuou sobre a direita, enquanto que Nuno Assis, apesar de partir habitualmente da ala esquerda, usufruiu de maior liberdade de acção para aparecer em espaços centrais. Muito móvel e extremamente astuto a desmarcar-se, o internacional AA português revelou-se determinante no 2-1, ao conquistar a grande penalidade que colocou o Al-Ittihad, no início da segunda parte, em vantagem no marcador, para além de ter mostrado, ao longo do jogo, as suas principais virtudes: extremamente forte a assumir acções de condução e a produzir desequilíbrios pela sua capacidade técnica, soube também explorar a sua excelente leitura de jogo, grande qualidade no passe e facilidade de execução a um-dois toques. Já Noor, símbolo do Al-Ittihad e grande estrela do futebol saudita, confirmou os seus fortes argumentos para assumir acções de condução, aliando a sua boa capacidade técnica e de drible, fundamental na produção de desequilíbrios no um para um, a uma boa leitura das movimentações e desmarcações dos seus colegas de equipa, servindo-os através de passes ou cruzamentos. Determinante no 1º golo, ao realizar a fantástica abertura que desmarcou Ziaya, foi o autor do 2º, na transformação de uma grande penalidade.

– Uma dupla muito interessante, formada por Mohammad Al-Rashid e o internacional argelino Abdelmalek Ziaya, a figura do encontro, ao marcar 2 dos 3 golos do Al-Ittihad. Al-Rashid, avançado móvel, astuto a desmarcar-se e muito agressivo, jogou a toda a largura da frente do ataque, explorando, várias vezes, a sua capacidade para jogar de costas para a baliza, combinando com os médios ofensivos e laterais, mas também mostrou bons argumentos em acções de rotação sobre os defesas adversários e, de frente para a baliza, um bom entendimento com Ziaya e facilidade de remate, ainda que nem sempre com o melhor enquadramento, aspecto que necessita rever. Ziaya, avançado que se destacou ao serviço dos argelinos do Entente Sportive de Sétif, ao vencer duas Ligas dos Campeões Árabes, uma Liga dos Campeões do Norte de África e por ter sido, em 2009, o melhor marcador da Taça das Confederações de Clubes da CAF, trata-se de um avançado muito forte do ponto de vista físico, extremamente oportuno e com boa capacidade de antecipação sobre os defesas adversários, principalmente em finalizações ao segundo poste, onde procura tirar partido do seu bom jogo aéreo e remate de pé direito. Apesar de actuar como avançado mais fixo, sabe partir de posições exteriores em direcção à área, conjugando velocidade e força em progressão com astúcia a jogar nos limites do fora-de-jogo.

– Toni soube mexer na equipa no tempo certo e foi feliz nas substituições. Aos 67 minutos, a vencer por 2-1, abdicou do avançado Mohammad Al-Rashid e lançou o promissor Sultan Alnumare, jogador que se posicionou na ala esquerda, o que levou Nuno Assis a fixar-se numa posição central, o que aproximou o Al-Ittihad de um 4x2x3x1. A entrada de Alnumare acabou por dar grande consistência defensiva ao flanco esquerdo, numa altura em que Ali Asgali – lateral-direito do Persepolis – estava a projectar-se bastante do ponto de vista ofensivo. Cinco minutos mais tarde, em virtude de uma lesão de Noor, Toni viu-se obrigado a mexer pela segunda vez na equipa e deu-se muito bem: Rashed Al-Raheeb entrou para a lateral direita e de uma excelente combinação com Paulo Jorge, que se adiantara para médio ala, surgiu o 3º golo. A vencer por 3-1, foi a vez de fazer descansar Abdelmalek Ziaya e lançar o internacional saudita Naif Hazazi, avançado com grande sentido de baliza.

 

Como joga o Persepolis (4x2x3x1)

Persepolis

 
Orientado tecnicamente por Ali Daei, melhor jogador iraniano de todos os tempos, o Persepolis manteve-se fiel ao seu esquema tradicional: o 4x2x3x1. No entanto, Daei abdicou do veterano Hashemian, habitualmente utilizado como avançado centro, e apostou num trio de ataque móvel, colocando o internacional iraniano Rezaei, um extremo de origem e maior figura da equipa, como unidade mais adiantada. As tentativas de explorar a velocidade e mobilidade dos avançados – principalmente Rezaei e Norouzi – através de passes longos desde a primeira e segunda fase de construção de jogo ofensivo nunca surtiram efeito, como também as saídas para ataque organizado, apesar dos bons argumentos do trio de médios para uma estratégia que privilegie a posse e a circulação de bola, ao esbarrarem na boa organização defensiva do adversário, onde a dupla de médios defensivos constituiu uma importante barreira na ligação entre o sector intermediário e ofensivo. Do ponto de vista defensivo, a opção do técnico Persepolis por uma defesa alta e a sair para fora-de-jogo revelou-se suicida, já que a falta de velocidade dos dois defesas-centrais e a propensão ofensiva dos laterais foi altamente explorada pelo Al-Ittihad, acabando por estar na origem dos três golos. A perder por 1-2, Ali Daei lançou Hashemian no jogo, mas não abdicou do 4x2x3x1: a saída do pouco inspirado Norouzi conduziu Razaei para o flanco esquerdo. Já a perder por 1-3, Daei lançou o canhoto Feshangchi, extremo que se posicionou à direita do ataque, no lugar até aí ocupado por Badakami, o jogador que substituiu, não abdicando do 4x2x3x1. As alterações acabaram por não produzir grandes efeitos, já que as grandes oportunidades da formação iraniana surgiram nos últimos 10 minutos, na sequência de lances de bola parada.

 

MULTIMÉDIA: AL-ITTIHAD 3-1 PERSOPOLIS

 

 

foto de abertura © http://www.ittihadnet.net/


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.