Posted 15/02/2008 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Aberdeen: Tempo dos mais novos

langfield
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EMPATE A DOIS. Numa das partidas dos dezasseis avos de final da Taça UEFA, o Aberdeen arrancou um surpreendente empate caseiro a dois diante do poderoso FC Bayern München, um dos principais favoritos à conquista da prova. Sem cinco habituais titulares, a equipa de Pittodrie Street, que está a realizar uma época medíocre a nível interno e vinha de dois resultados desastrosos em casa – derrotas por 1-4 com Dundee United, para a League Cup, e 1-5 com o Celtic, para a Premier League -, esteve por duas vezes em vantagem no marcador e pode queixar-se de uma arbitragem desastrosa do espanhol Iturralde González, que fez vista grossa a dois lances polémicos na grande área do Bayern, para além de ter apontado uma grande penalidade muito duvidosa a favor da formação alemã, que esteve na génese do 2-2, com Hamit Altintop a marcar na recarga ao castigo máximo por si desperdiçado, levando às lágrimas Jamie Langfield, o guardião do Aberdeen, protagonista de uma excelente exibição.

A NOITE TEEN. Na equipa do Aberdeen destacaram-se dois jovens ingleses de 18 anos, curiosamente colegas de equipa também na selecção sub-19: o extremo Sone Aluko, cujo passe pertence ao Birmingham City, e que se encontra no Aberdeen desde Outubro, e o médio-centro Josh Walker, em noite de estreia, já que chegou ao clube, no final do mês de Janeiro, oriundo do Middlesbrough, depois de um excelente percurso nas selecções jovens inglesas, capitaneando os sub-16 e sub-17. Aluko, de origem nigeriana, foi mesmo o melhor em campo: assistiu Walker para o golo inaugural do Aberdeen, num excelente remate em arco, e já depois de Klose fazer o empate, apontou o segundo tento da formação escocesa, num remate colocado, após deixar Lell para trás.

O 4x5x1 DO ABERDEEN. Jimmy Calderwood, técnico do Aberdeen, antiga glória do Birmingham City e há quase quatro anos em Pittodrie, apresentou a sua equipa num 4x5x1, desdobrável ofensivamente em 4x2x3x1. Na baliza esteve o experiente Jamie Langfield, de 28 anos, antigo internacional escocês sub-21, titular indiscutível, que caminha para os 150 jogos na Liga escocesa, onde também representou Dundee e Partick Thistle. Terá realizado uma das melhores exibições da sua carreira, mostrando colocação e agilidade entre postes, como também agressividade nas saídas por alto, tirando partido da sua elevada estatura (1.94) e pujança física nos confrontos com Luca Toni e Miroslav Klose. Comunicativo e com perfil de líder, soube comandar a dupla de centrais que esteve à sua frente, que não prima pela consistência, formado por Lee Mair, de 27 anos, contratado este ano ao Dundee United, e pelo jovem Alexander Diamond, de 22 anos, produto das escolas do clube e a cumprir a sua sexta época como profissional. Diamond, antigo internacional sub-21, ainda assim, mostra mais qualidade e potencial que o seu colega de sector: muito alto (1.88), domina o espaço aéreo, mostrando também qualidades no desarme, atacando a bola com agressividade e contundência, não se mostrando nada peco quando é preciso jogar feio. Mair, que apareceu no lugar do recém-contratado holandês Dave Bus, titular diante do Celtic, apesar de talhado para acções de marcação, mostrou-se frágil no jogo aéreo e excessivamente duro de rins. Nas laterais, dois jogadores que tiveram uma noite complicada: Alan Maybury, internacional irlandês, de 29 anos, antigo jogador do Leeds United e recém-contratado ao Leicester City, nunca se entendeu com a velocidade de Schweinsteiger, apesar da noite desinspirada do internacional alemão, mas bem pior esteve o jovem Andrew Considine, de 20 anos, um central de origem, que foi adaptado à esquerda, nunca se entendendo com as dinâmicas de Altintop, um dos melhores dos alemães – esteve na origem do primeiro golo e apontou o segundo. No meio campo, uma dupla de médios-defensivos: o experiente Scott Severin, antigo jogador do Hearts, a caminho dos 300 jogos na Premier League escocesa, 14 vezes internacional pela Escócia, muito eficaz a nível posicional, ocupando bem os espaços e forte no choque, para além de importante no lançamento de algumas iniciativas ofensivas, pois tem capacidade de passe ; e o jovem estreante Josh Walker, internacional inglês nos escalões de formação, protagonista de uma exibição de encher o olho, pois alia uma excelente capacidade defensiva, já que é muito forte em acções de pressão e no desarme, tirando partido também do facto de ser um central de origem, mas importante nos desdobramentos ofensivos, pela boa condição física evidenciada, que lhe permite aparecer em zonas próximas da área adversária, mas também pela capacidade de passe e no remate, que lhe valeu um golo na estreia, numa finalização em arco, plena de efeito. Ainda na zona intermediária, uma segunda linha composta por três jogadores: Barry Nicholson, 3 vezes internacional A escocês, de 29 anos, um médio centro que foi adaptado à direita, onde se revelou mais importante do ponto de vista táctico – fechar as subidas de Marcel Jansen e apoiar defensivamente, quer Alan Maybury, quer a dupla de médios defensivos -, do que pela capacidade ofensiva, pois o jogo raramente passou pelos seus pés ; Darren Mackie, uma das “estrelas” do clube, jogador de 26 anos, produto das escolas do Aberdeen, com 43 golos em 215 jogos na Premier League escocesa, ao centro, onde permitia, quando a equipa defendia, criar uma superioridade numérica 3×2 na zona central do meio-campo, mas importante no desdobramentos ofensivos, onde aparecia como segundo avançado, procurando tirar partido da velocidade e agressividade ofensiva, os pontos mais fortes do seu jogo ; e Sone Aluko, o melhor em campo, sobre a esquerda – jovem internacional inglês nos escalões de formação, de 18 anos, algo franzino do ponto de vista físico – 1.73 / 62 -, mas extremamente rápido e incisivo, quer na exploração de diagonais, quer a procurar a linha de fundo, que se revelou uma permanente dor de cabeça a Lell, mostrando também potencial técnico, qualidade nos passes e cruzamentos – onde se poderá tornar mais constante – e um bom remate de pé esquerdo. Na frente do ataque, Lee Miller teve uma missão de sacrifício, mas bateu-se muito bem frente a Lúcio e DeMichelis, apesar de algumas limitações de ordem técnica, que não o impediram de assistir Aluko para o 2-1. Apesar dos seus 24 anos, tem um currículo goleador pelos vários clubes por onde passou – Falkirk, Bristol City, Hearts e Dundee United, cumprindo a sua segunda temporada ao serviço do Aberdeen, pelo qual soma 12 golos na Premier League escocesa, mas permanece a “seco” na Taça UEFA. Um dos pontos fortes do seu jogo – o poder aéreo, acabou por ser pouco explorado, o que o deixou em dificuldades, pois acabou por não ter grandes oportunidades para finalizar. Já com o resultado em 2-2, Calderwood lançou o inglês Steve Lovell no ataque, para os últimos 20 minutos, abdicando de Mackie, em dificuldades físicas. Lovell, outro jogador de área, juntou-se a Miller, mas nada acrescentou, até porque atravessa uma fase negativa, que levou a que perdesse a titularidade. A outra opção, já na fase terminal do jogo, passou pela entrada do holandês Karim Touzani, que rendeu o “esgotado” Walker. Touzani, que nunca se impôs como titular absoluto de Utrecht e Twente, está a ter uma passagem sem chama pelo futebol escocês e já não jogava desde Dezembro.

VINGANÇA ALEMÃ. Apesar do resultado ser lisonjeiro para o FC Bayern München, a passagem aos oitavos de final está escancarada para o histórico emblema alemão, que já parte para a segunda mão com vantagem. Será a oportunidade para o ajuste de contas, pois o FC Bayern foi eliminado da Taça das Taças pelo Aberdeen, de Alex Ferguson, nos quartos de final da Taça das Taças 1982/83. O Bayern, orientado, na altura, pelo húngaro Pál Csernai, que passaria depois pelo Benfica, não foi além de um 0-0 caseiro no Olympiastadion, numa noite de pouca inspiração de Paul Breitner, Dieter Houness e Karl-Heinz Rummenigge, que não conseguiram bater um inspiradíssimo Jim Leighton. Na segunda mão, no Pittodrie Stadium, o Bayern adiantou-se logo aos 10 minutos por Klaus Augenthaler, o que obrigava o Aberdeen a marcar dois golos. O sonho escocês manteve-se vivo, quando, aos 39 minutos, Neil Simpson empatou, mas Hans Pfügler, já na segunda parte, voltava a colocar o Bayern na frente do marcador e parecia resolver a eliminatória. Contudo, o minuto 76 revelar-se-ia decisivo: Alex Ferguson lançou o avançado John Hewitt em campo, e em dois minutos o Aberdeen deu a volta à eliminatória, com golos de McLeish e do inevitável Hewitt, que, dois meses depois, voltaria a sair do banco para oferecer ao Aberdeen a conquista da Taça das Taças, no prolongamento da final diante do Real Madrid, disputada em Gotemburgo.

 

foto de abertura © JAM’D


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.