Posted 01/05/2013 by Tiago Romeu in Especiais
 
 

Quem são aqueles, Álvaro? A música, como a bola, continua no mesmo sítio de sempre. Connosco.

Álvaro Costa no «Carregador de Piano».
Álvaro Costa no «Carregador de Piano».

A

ntes do futebol indoor e dos Blizzards dos fabulosos irmãos Pikuzinski, antes da deriva do futebol americano. Antes de abandonar e regressar vezes sem conta às batalhas desportivas mas nunca a bateria dos Mushmouth, antes dos biscates teatrais ítalo-americanos na sombra da Broadway, Meola, Tony Meola. E o amigo, antes daquela Copa América de 1995, a dos 3-0 zero à Argentina, da morte digna contra o campeão do Mundo, do nome gravado na glória ao lado de El Príncipe Francescoli. Antes do Captain for life e do palmo de cara o arrastar para fora da Selecção e para o amor clandestino da mulher de Wynalda. John Harkes e Meola, antes de serem letras douradas no Hall of Fame do imberbe futebol yankee, foram dignos figurantes a tentar levar para prolongamento jogo contra a invisibilidade na Velha Albion.

Por outro lado, a invisibilidade tinha as suas vantagens, algumas de escassa roupa mas alto ritmo e glamour etílico. No Browns, por exemplo. Holborn, coração de Londres, a ressaca dos anos 80 a dar o seu último estertor numa festa exclusiva. Uma jam session de luxo entre os anfitriões, a família de George Michael, e convidados como Liza Stansfield, Elton John, Boy George, Curiosity Killed the Cat, Yazz, quem sabe Prince ou mesmo o rei Jackson camuflado entre tanta exclusividade aveludada. E este olheiro, eternamente dividido entre o rock e a bola, dos poucos credenciados para fazer a ponte entre as duas castas, a da elite do pop cockney e a de uma Premiership cuja classe era ainda operária e para quem o centro de Londres era pouco mais que aquele sítio a sul de Highbury e a oeste de Upton Park.

 

Tony Meola e John Harkes (1989).

Tony Meola e John Harkes (1989).

 

Invisíveis, portanto, mas não para todos. Para dois miúdos de New Jersey, amigos de infância a viver Europa algures entre Watford, Brighton e Sheffield, Londres era a Manhattan sonhada do liceu. Em Watford, Meola partilhava as redes com David James, quando ao talento ainda não se lhe tinha juntado o carisma e a calamidade e em Brighton treinou entre outros com o enigmático avançado Gurinovitch, quem sabe o único soviético a assistir ao fim da perestroika junto às marés do Canal da Mancha. Já Harkes era proeminente em Sheffield, num plantel de interessante teor cloughiano, com Viv Anderson nas suas costas e Trevor Francis a acampar na frente.

Uma noite de espantos. Em território de guerrilha estética, dois futebolistas como eles eram carne para canhão, um mind the gap entre o prestígio da fauna presente e a sua pouca sofisticação. E sabiam-no perfeitamente. O que não esperavam era ver alguém aproximar-se decidido e a tratá-los como o verdadeiro troféu, o elo perdido entre o estrelato da cultura pop e o universo futebolístico, uma simbiose que, fora algumas excepções, só veria o seu apogeu global quase uma década mais tarde. Interpelados por um surpreendido infiltrado para quem uma Peel Session ou um Top of the Tops não estremeciam menos que um Italia 90, os dois pioneiros do futebol yankee foram também eles dois astros naquela noite do Browns e, quem diria, uma memória para a posteridade.

Uma memória ou mesmo uma relíquia arqueológica. Afinal, hoje o Browns já nao é em Holborn mas sim em Shoreditch, expulsado para a East London depois de tiroteios, trespasses, decadência. Meola longe da bateria, Harkes longe dos relvados, ambos a uma era de distância de Inglaterra. Lisa Stansfield, Elton John, George Michael, Boy George, o ADN de uma geração fossilizado à espera do redescobrimento num futuro distante. Já a Premiership fez o caminho inverso até ao centro do mundo e a música, como a bola, continua no mesmo sítio de sempre. Connosco.

 
foto de abertura © Renato Cruz Santos

fotografia © the football of days past


Tiago Romeu