Posted 17/12/2012 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Antena 1 | Jornal de Desporto | 17-12-2012 | As grandes recuperações no campeonato português até à zona europeia.

Vítor Damas
Vítor Damas

Hoje, tive o privilégio de participar no Jornal de Desporto da Antena 1 com o Fernando Eurico. As grandes recuperações no campeonato português, após a 11ª jornada, até à zona europeia, centrado em dois exemplos da história do Sporting.

 

 

As grandes recuperações no campeonato português, após a 11ª jornada, até à zona europeia

1959/60. FC Porto.

Com 14 clubes e 2 pontos por vitória, o FC Porto era 7º classificado, com 11 pontos, à 11ª jornada. Acabou a temporada em 4º lugar. Héctor Puricelli, ítalo-uruguaio que se sagrara campeão italiano, em 1955/56, pelo AC Milan, rendeu o campeão Béla Guttmann no comando técnico dos «dragões». 4 derrotas, 3 delas em casa (Sporting, Belenenses e Sporting de Braga), nas primeiras 7 jornadas da Liga, a que se juntou a eliminação, com dupla derrota, da Taça dos Campeões Europeus, frente ao Ruda Hvezda Bratislava, conduziram à destituição do técnico, que até desmaiou no seu último jogo como treinador do FC Porto (derrota caseira, 1-2, frente ao Braga). O checoslovaco Ferdinand Daučík, com três títulos de campeão espanhol e cinco triunfos na Copa pelo Barcelona e Athletic Bilbao, foi o escolhido para assumir a sucessão. O triunfo na estreia em Évora – 3-0 ao Lusitano – levou a imprensa a falar «em dedo psicológico e mágico» de Daučík, que encetou a recuperação na classificação com base dos excelentes resultados em casa: 7 vitórias e 1 empate em 8 jogos. A duas jornadas do fim do Campeonato, já sem hipótese de alcançar o Belenenses no 3º lugar da classificação, o técnico checoslovaco foi despedido e recebeu uma indemnização de 30 contos. Com ele partiu o filho Yanko Daučík, autor de 6 golos em 12 jogos na Liga, que nunca convenceu o exigente «tribunal» das Antas. O argentino Francisco Reboredo, antigo jogador do FC Porto e habitual técnico adjunto, assumiu o comando interino da equipa até ao final da prova, confirmando, com 1 vitória e 1 derrota, o 4º lugar final.

1964/65. FC Porto.

Com 14 clubes e 2 pontos por vitória, o FC Porto era 7º classificado, com 12 pontos, à 11ª jornada. Acabou a temporada em 2º lugar. Impulsionado pela excelente recuperação sob o comando de Otto Glória em 1963/64, o FC Porto, após o seu terceiro vice-campeonato consecutivo, procurava assumir-se como candidato ao título. Eliminados da Taça de Portugal, no início de outubro de 1963, pelo Benfica, os «dragões» também não entraram bem no Campeonato – 2 empates e 4 derrotas nas primeiras 8 jornadas – e foram eliminados da Taça das Taças, na 2ª eliminatória da prova, pelo Munique 1860. A confiança no trabalho de Otto Glória manteve-se e o triunfo caseiro diante do Torreense (2-0), à 10ª jornada, marcou o arranque de uma recuperação espectacular até a mais um vice-campeonato. Em 34 pontos possíveis, o FC Porto somou 29. Pelo caminho, um importante triunfo caseiro sobre o campeão Benfica (1-0), graças a um golo soberbo de Naftal, numa exibição definida como «a mais harmoniosa, convincente e persuasiva» da temporada.

1964/65. Sporting.

Com 14 clubes e 2 pontos por vitória, o Sporting era 9º classificado, com 11 pontos, à 11ª jornada. Acabou a temporada em 5º lugar. Vencedores da Taça das Taças em 1963/64, os «leões» arrancavam para a nova temporada carregados de ambição. Jean Luciano, campeão francês, em 1958/59, pelo Nice, foi o escolhido para substituir o arquitecto Anselmo Fernandez no comando técnico do clube, mas rapidamente se percebeu que a época do Sporting estaria longe de ser gloriosa. Protagonista de um arranque de Campeonato decepcionante, Luciano não resistiu a 3 empates e 4 derrotas nas primeiras 9 jornadas. A derrota na deslocação ao Torreense (0-3), em jogo a contar para a 9ª jornada, foi considerada dramática. Falava-se em desmoralização e tristeza dos adeptos, como também de um apelo a medidas drásticas para «debelar os males que afectam a equipa de futebol». Os ex-jogadores mostravam-se também muito críticos. Jesus Correia dizia que «a crise não pode persistir e é inadmissível na história do Sporting», enquanto que Carlos Canário afirmava: «Os acontecimentos estão a justificar uma vassourada na secção de futebol». Manuel Passos era mais contundente: «A linha avançada não tem categoria e o treinador é macio no trato com os jogadores. A situação tem que ser resolvida. E já!…». Várias demissões na Direcção leonina acompanharam a demissão de Jean Luciano. Juca, técnico adjunto, assumiria, de forma interina, o comando técnico do clube, que seria eliminado da Taça das Taças pelo Cardiff City. Acabava o sonho de revalidar a conquista europeia. O arquitecto Anselmo Fernandez foi a solução encontrada para encetar a recuperação, ficando Joseph Szabo como treinador de campo. Com o orientador técnico, o Sporting saltou de um inédito 11º lugar à 7ª jornada para o 6º lugar à 19ª jornada, apenas a 3 pontos do 2º classificado. Tendo achado que a sua missão estava cumprida, Fernandez apresentou demissão, assumindo Armando Ferreira, antigo jogador leonino na década de 40, a sua sucessão. Em sete jornadas, Ferreira somou 3 vitórias, 3 empates e 1 derrota, concluindo a temporada no 5º lugar.

1966/67. Sporting.

Com 14 clubes e 2 pontos por vitória, o Sporting era 8º classificado, com 10 pontos, à 11ª jornada. Acabou a temporada em 4º lugar. Depois da temporada negra em 1964/65, o Sporting apostou em Otto Glória e o treinador brasileiro conduziu o clube, em 1965/66, ao título nacional. Depois de ter participado, como treinador de campo, na magnífica campanha dos «Magriços» no Mundial 1966, rumou ao Atlético Madrid, clube que lhe ofereceu 800 contos para assinar e 24 contos por mês. O espanhol Fernando Argila foi o escolhido para liderar tecnicamente os «leões» em 1966/67. Eliminado da Taça de Portugal e da Taça dos Campeões Europeus na 1ª ronda, Argila também esteve longe de alcançar resultados satisfatórios no Campeonato, o que motivou enorme contestação. Afastado após o empate na deslocação ao Sanjoanense (1-1), último classificado, o técnico espanhol apenas somou 4 triunfos em 20 jogos oficiais pelo Sporting. Com a equipa no 9º lugar à 16ª jornada, Armando Ferreira, membro da equipa técnica, foi promovido a treinador principal. 7 vitórias, 2 empates e 1 derrota garantiram a escalada até ao 4º lugar, acompanhado pelo lançamento definitivo daquele que viria a ser o melhor guarda-redes da história do Sporting: Vítor Damas.

1972/73. FC Porto.

Com 16 clubes e 2 pontos por vitória, o FC Porto era 9º classificado, com 11 pontos, à 11ª jornada. Acabou a temporada em 4º lugar. Sem conquistar o título nacional desde 1958/59 e após uma temporada anterior penosa, concluída em 5º e com uma eliminação humilhante da Taça de Portugal diante do Benfica (0-6), o FC Porto procurava apostar forte em 1972/73. Américo de Sá, novo presidente do clube, terá investido 1000 contos na aquisição do técnico chileno Fernando Riera, bicampeão nacional pelo Benfica na década de 60. Disciplinador feroz e conhecido por ser adepto de um futebol apoiado e técnico, Riera viu a equipa começar muito mal o Campeonato – 2 vitórias, 3 empates e 4 derrotas nos primeiros 9 jogos – mas conseguiu conduzir os «dragões» a uma dupla vitória sobre o Barcelona na Taça UEFA. Do 11º lugar à 9ª jornada, guiou o FC Porto a um 4º lugar final, abrilhantado pelos triunfos em Alvalade (3-0) e em Tomar (7-1), com o brasileiro Flávio – 21 golos na Liga – e Abel – 18 golos na Liga – como protagonistas, a que se juntou um empate caseiro (2-2), à 24ª jornada, diante do campeão Benfica, que, até aí, somara por vitórias todos os jogos efectuados.

«Era Moderna»: 3 pontos

Após 1995/96, são vários os exemplos de equipas que começaram mal a temporada e acabaram-na em zona europeia. Todas têm em comum um aspecto: as recuperações foram efectuadas pelos treinadores que iniciaram a época. O primeiro exemplo, em 1996/97, é o Vitória de Guimarães, orientado por Jaime Pacheco. 14º classificado, com 11 pontos, à 11ª jornada, termina a prova, com 34 jornadas, no 5º lugar, com 53 pontos, a apenas dois do 4º (Sporting de Braga). Em 1997/98, o Marítimo, treinado por Augusto Inácio, era 13º, com 12 pontos, à 11ª jornada, concluindo a prova com 56 pontos. A equipa madeirense foi 5ª classificada, mas terminou a competição com os mesmos pontos do 4º (Sporting) e a 3 pontos do 3º (Vitória de Guimarães). Em 2000/01, Manuel José, como treinador da União de Leiria, era 11º, com 14 pontos, à 11ª jornada. Uma recuperação espectacular permitiu-lhe acabar a temporada em 5º lugar, com 56 pontos, à frente do Benfica (6º) e a apenas 1 ponto do Sporting de Braga (4º). Em 2002/03, a União de Leiria foi protagonista de mais uma magnífica recuperação. 15ª classificada, com 11 pontos, à 11ª jornada, a formação então orientada por Manuel Cajuda terminou a Liga no 5º lugar, com 49 pontos, apenas a um do 4º classificado (Vitória de Guimarães). Em 2004/05, o Vitória de Guimarães voltou a ser protagonista, desta feita orientado por Manuel Machado. 15º classificado, à 11ª jornada, com apenas 10 pontos e o pior ataque do Campeonato, os vimaranenses escalaram até ao 5º lugar, concluindo a prova com 54 pontos. Em 2006/07, foi Jorge Jesus a realizar uma grande recuperação no Belenenses: numa prova já com 16 clubes, a formação do Restelo era 12ª classificada, à 11ª jornada, com 11 pontos, finalizando a prova no 5º lugar, com 49 pontos, a apenas 1 do 4º (Sporting de Braga), com quem trocou de posição na última jornada. Jesus conduziria também o Belenenses, nesse exercício, à final da Taça de Portugal. Por fim, a última grande recuperação: Sporting de Braga, orientado por Domingos Paciência, em 2010/11. Desgastados pela primeira participação da história do clube na Liga dos Campeões, os bracarenses ocupavam o 10º lugar, com 14 pontos, à 11ª jornada. Terminaram a época em 4º lugar, com 46 pontos, a 2 do Sporting, 4º classificado, com quem trocaram de posição na última jornada. Domingos conduziu, nessa época, o Sporting de Braga à final da Liga Europa.

 
foto de abertura © leaodaestrela.blogspot.com


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.