Posted 13/02/2008 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Benfica – Nuremberga: o reencontro 46 anos depois

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REENCONTRO. Benfica e Nuremberga disputam amanhã a primeira mão dos 16 avos de final da Taça UEFA, num jogo que marcará o reencontro dos dois clubes, quarenta e seis anos depois de terem disputado uma histórica eliminatória da Taça dos Campeões Europeus. Foi em 1961/62, nos quartos de final da competição, que o sorteio ditou que o Benfica, campeão europeu em título, se cruzasse com o Nuremberga, campeão alemão e a realizar uma excelente campanha na prova europeia, onde somava por vitórias todos os jogos disputados. O conjunto germânico começou por eliminar o Drumcondra Dublin sem grande dificuldade: 5-0 em Nuremberga e 4-1 na Irlanda, numa partida em que se destacou o avançado Heinz Strehl, antigo internacional alemão, já falecido, ao apontar um “poker”, dando sequência aos dois golos que já marcara no desafio da primeira mão. Seguiu-se um embate difícil diante dos turcos do Fenerbahçe, mas a vitória 2-1 em Istambul, com Strehl a marcar mais um golo, abria excelentes perspectivas para a segunda mão, que se confirmaram, com nova vitória, desta feita por 1-0, graças a um golo de Tasso Wild. O Benfica, por sua vez, ficou isento da primeira eliminatória da competição, beneficiando do estatuto de Campeão Europeu. A estreia dos “encarnados” ocorreu em Viena, diante do Austria, onde obtiveram um empate a um, graças a um golo de José Águas. A passagem em frente foi obtida, de forma tranquila, na Luz, com uma vitória por 5-1 – Águas e Santana bisaram, cabendo o outro golo a um jovem chamado Eusébio da Silva Ferreira.

A NOITE DE FLACHENECKER. Ao contrário do que acontecerá amanhã, a primeira mão da eliminatória foi disputada em Nuremberga, a 1 de Fevereiro de 1962. O conjunto alemão estava fortemente motivado com uma série de 7 triunfos consecutivos – 1 na Taça dos Campeões e 6 na Oberliga – e mais de 40.000 pessoas compareceram no Städtisches Stadium, criando um ambiente de forte apoio à equipa. Contudo, seria o Benfica, através de Cavém, a adiantar-se no marcador aos 10 minutos, só que o Nuremberga reagiu e ainda antes do intervalo deu a volta ao marcador, com golos de Flachenecker e do inevitável Strehl. Na segunda parte, os alemães procuraram dilatar a vantagem e conseguiram, já perto do fim, novamente por Flachenecker, a figura do jogo, a confirmar o excelente momento de forma que atravessava, pois já marcara golos nas duas partidas da Oberliga que antecederam o confronto com o Benfica – diante do FC Schweinfurt 05 (vitória 3-1 fora) e do SpVgg Fürth (vitória 2-0 em casa). Costa Pereira, guarda-redes do Benfica, foi mal batido em dois dos golos da formação germânica, confirmando o mau momento que atravessava e que o fizera protagonista pela negativa do empate caseiro diante do Sporting (3-3), duas semanas e meia antes. Criticado pela imprensa, pediu para sair da equipa, mas a má exibição de Barroca, o seu suplente, diante do Sp. Covilhã (derrota 1-2), precipitou o seu regresso para o jogo da 2ª mão.

O PESADELO DE STRICK. Três semanas depois disputou-se a 2ª mão da eliminatória e nem mesmo o resultado negativo do jogo na Alemanha desanimou os adeptos “encarnados”, que compareceram em força: 55.000 espectadores deram um enorme “colorido” à Luz, procurando empurrar o Benfica para uma jornada gloriosa. Béla Guttman, o “velho feiticeiro” que treinava, na altura, o Benfica, promoveu alterações em relação ao primeiro jogo. Mudou a dupla de defesas, fazendo entrar Mário João e Ângelo Martins para os lugares de Manuel Serra e Fernando Cruz, sendo que o último avançou para o sector intermediário, juntando-se a Germano e Cavém, ocupando o lugar de Neto, que havia sido utilizado em Nuremberga. Na frente, Guttman chamou Eusébio, que falhara o primeiro jogo por estar a recuperar de uma lesão, à titularidade, abdicando de Santana, juntando-o aos inevitáveis José Augusto, Águas, Coluna e Simões. Do lado alemão, Herbert Widmayer, treinador do Nuremberga, via-se a contas com uma baixa de vulto. O guardião titular Roland Wabra, uma das grandes figuras do clube durante a década de 60 – disputou cerca de 250 jogos, entre 1960 e 1969 -, lesionou-se, abrindo as portas da titularidade ao inexperiente Gerhard Strick (na foto acima), que protagonizara uma má exibição na partida que antecedeu o jogo da Luz e que quebrou uma série de 10 triunfos consecutivos do Nuremberga: derrota 0-3 diante do Karlsruher SC. E pior entrada no jogo da Luz não podia ter: aos 4 minutos, o Benfica já igualava a eliminatória, com golos de José Águas, num belíssimo golpe de cabeça, e Eusébio, num remate cruzado de pé direito. Ainda antes do intervalo, Coluna, aproveitando uma má saída de Strick, colocou o Benfica a vencer por 3-0, passando para a frente da eliminatória. Na segunda parte, a noite de pesadelo de Strick prosseguiu, com Eusébio e José Augusto, que bisou – o último golo foi na sequência de uma brilhante iniciativa individual -, a conduzirem os “encarnados” a um histórico 6-0 rumo às meias-finais da Taça dos Campeões Europeus.

FINAL FELIZ. O Tottenham Hotspur foi o adversário seguinte do Benfica. Uma vitória por 3-1 na Luz, com novo “bis” de José Augusto, abriu boas perspectivas para a segunda mão, onde o Benfica se adiantou com um golo de José Águas, parecendo resolver a eliminatória. Contudo, o Tottenham reagiu, deu a volta ao marcador e fez sofrer os “encarnados”, que acabaram por “segurar” o 1-2, chegando, pelo segundo ano consecutivo, à final da Taça dos Campeões Europeus. Na final de Amsterdão, diante do poderoso Real Madrid, de Di Stéfano, Puskas e Gento, o Benfica chegou a estar a perder por 2-0 e 3-2 – Puskas marcou os três golos do Real -, mas acabou por vencer por 5-3, com golos de Águas, Cavém, Coluna e Eusébio, que bisou, garantindo o bi-campeonato europeu de clubes. O Nuremberga, por sua vez, falhou a reconquista do título alemão, perdendo a final da prova, diante do Colónia (0-4), mas sagrar-se-ia vencedor da Taça da Alemanha, ao vencer por 2-1 o Fortuna Düsseldorf, numa final que foi decidida no prolongamento com um golo de Tasso Wild.

 

AS FICHAS DOS JOGOS:

Nuremberga - Benfica

Benfica - Nuremberga

 

[accordion title=”MULTIMÉDIA: BENFICA 6-0 NUREMBERGA”]

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Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.