Posted 19/01/2013 by Rui Malheiro in Convidados
 
 

CAN 2013. À procura do ouro em terras de Madiba.

CAN 2013: À procura do ouro em terras de Madiba
CAN 2013: À procura do ouro em terras de Madiba

A

rranca este sábado mais uma edição da Taça das Nações Africanas, vulgo CAN. Como sempre, enorme expectativa para ver o melhor futebol de África , os melhores jogadores e as melhores equipas. Apesar das ausências, colectivas (Egipto ou Camarões) e individuais (dentro das selecções apuradas faltam craques como Boateng, Essien ou Obafemi Martins, entre outros), penso que será mais uma edição recheada de boas surpresas, bom futebol, animação e o sal do futebol que são, claro está, os golos.

4 grupos, uns mais equilibrados, outros mais previsíveis (se é que essa palavra pode ser utilizada numa competição destas…), os quais serão analisados de seguida:

 

Grupo A

África do Sul: A selecção da casa, certamente com vontade de triunfar perante o seu público. Os Bafana Bafana, treinados por Gordon Igesund (técnico sul-africano de 55 anos e muita experiência local), procuram a glória num grupo que, pese embora difícil e extremamente equilibrado, não contém nenhum dos candidatos maiores à vitória final (bem, quanto a isso, logo veremos…). Depois de ter sido anfitriã de um Mundial que lhe correu dentro das expectativas (fazer mais era francamente difícil), recebe uma CAN, numa época em que começam a surgir alguns valores interessantes, que se irão juntar a elementos experientes como Parker, Dikcagoi ou o irreverente Tshabalala (figura da equipa em 2010). Destacaria dois, que se podem tornar em grandes revelações do torneio: os médios May Mahlangu (Helsingborgs) e Thulani Serero (Ajax). Realce ainda para os defesas Ngonca (Genk) e Khumalo (PAOK), com experiência europeia que lhes será certamente muito útil nesta competição. O meu veredicto? Aposto numa campanha interessante, em que estarão motivados pelo factor-casa. Podem passar o grupo, se forem consistentes na defesa, se apostarem em Mahlangu como patrão do meio-campo e se contarem com o talento e verticalidade de Tshabalala na busca da melhor finta e do melhor passe para golo. Golo (neste caso no plural, golos) que poderá estar na bota de um Parker, de um Mphela ou até de um Serero vindo de trás…

Cabo Verde: Lia com atenção, nos últimos dias, as previsões de alguns jornalistas africanos para a surpresa da competição. Boa parte deles apontava a selecção cabo-verdiana como sendo a candidata-maior a revelação desta CAN. E não é que concordo com esses jornalistas? Apesar da ausência de referências ao nível da defesa (a maior será, porventura, Fernando Varela, actualmente no Vaslui), Cabo Verde possui uma equipa interessante do ponto de vista técnico, em particular na frente de ataque, onde possui 3 setas, capazes de criar bastante perigo: Heldon (Marítimo), Ryan Mendes (Lille) e o benfiquista (emprestado ao Olhanense) Djaniny. Depois atrás, no meio-campo, apresenta elementos de valor como o feirense Sténio ou o olhanense Babanco. Os tubarões azuis, treinados por Lúcio Antunes, procuram confirmar o estatuto que trazem das eliminatórias, onde se apuraram às custas da forte selecção dos Camarões. Penso que têm condições para disputar o apuramento. Nunca serão uma decepção (dado que se trata da estreia), logo só podem pensar em surpreender o mundo do futebol.

Angola: Outra das selecções “queridas” dos portugueses. Entra para a edição deste ano com expectativas de se intrometer na luta pelo apuramento. Os palancas negras, treinados pelo uruguaio Gustavo Ferín, procuram apurar-se neste grupo super-equilibrado e, sinceramente, acho que têm boas hipóteses. Porventura serão os favoritos teóricos do grupo a par de Marrocos. A destacar no conjunto angolano, sobretudo, o poderoso e versátil trio ofensivo composto por Djalma, Manucho e Mateus. Três setas apontadas à baliza contrária, que prometem velocidade, perigo e golos. De resto, destacaria dois jovens, previsivelmente titulares e que poderão dar que falar: o central Bastos e o lateral-esquerdo Miguel, ambos do Petro de Luanda. Isto para não falar do “brasileiro” Geraldo. Craques para seguir com atenção numa selecção que promete surpreender.

Marrocos: Do Norte de África chega uma das selecções mais interessantes do ponto de vista técnico desta CAN. Falo de Marrocos, histórico do futebol africano e que procura nesta edição 2013 repetir o feito único de 1976, quando conseguiram arrecadar o troféu mais ambicionado do futebol africano. Treinados por Rachid Taoussi, os marroquinos apresentam valores emergentes em bons clubes do futebol europeu, prontos igualmente para explodir ao serviço da sua selecção. Belhanda, Barrada, Benatia, Amrabat, El Ahmadi ou El Hamdaoui são os nomes mais sonantes de uma equipa que do ponto de vista táctico ainda terá de progredir. Qualidade técnica e individual não falta. Apesar dos muitos jogadores de classe, creio que será difícil para Marrocos conquistar esta CAN. E não falo só porque existe uma Costa do Marfim neste torneio…

 

Grupo B

Gana: Uma das crónicas candidatas ao título. Porém apresenta algumas ausências que podem pesar (Kevin Prince Boateng, Essien ou os irmãos Ayew), especialmente se formos a comparar com outras selecções mais bem apetrechadas em termos de opções. Naturalmente, não terão tarefa fácil, embora sejam a equipa mais forte deste grupo. A principal estrela da selecção treinada por James Appiah continua a ser Asamoah Gyan, agora jogador do Al-Ain (Emirados Árabes Unidos). No entanto, outros nomes poderão sobressair neste torneio, nomeadamente o portista Christian Atsu, o jogador do Espanyol Wakaso ou ainda o talentoso ponta-de-lança Richmond Boakye, jovem emprestado pela Juventus ao Sassuolo e que promete muito.

Mali: Outra boa selecção neste Grupo B. O Mali, treinado pelo francês Patrice Carteron, quer chegar longe nesta CAN, contando para isso com um conjunto bastante interessante de jogadores, que mistura experiência e alguma juventude com bastante qualidade. A grande referência do conjunto maliano no pós-Kanouté passa a ser o médio do PSG, Mohammed Sissoko, que irá fazer dupla com o “veterano” Seydou Keita no miolo do terreno. Em termos defensivos, para lá do vimaranense N´Diaye, não há muito a destacar. Já no ataque há nomes de sobra para causar dores de cabeça aos adversários: Maiba, Diabaté ou Samassa. Atenção ainda a um jogador que pode ser uma das boas revelações da CAN: Samba Diakité, 23 anos, trinco do QPR, peça fundamental no conjunto de Harry Redknapp (13 jogos na Premier League esta época). Uma equipa que promete dar luta!

RD Congo: Uma selecção que pode vir a surpreender! Treinada pelo mítico Claude Le Roy, a equipa congolesa apresenta-se nesta CAN como uma potencial candidata a revelação do torneio. Vejo-os com capacidade para poderem deixar o mundo boquiaberto, tal qual o Zâmbia fez há cerca de 1 ano. Para lá do craque local Trésor Mputu, há ainda uma lista de jogadores com experiência a nível europeu e que prometem, em conjunto, criar dificuldades aos restantes oponentes do grupo. Desde o médio Mulumbu (West Bromwich) até ao goleador Mbokani (Anderlecht) passando pelo promissor central Mongongu (Évian), está aqui uma equipa com boa cadência de jogo. Uma interessante mistura entre a experiência europeia e a irreverência de um dos grandes clubes africanos dos últimos anos (o TP Mazembe, precisamente da RD Congo). Atenção aos Leopardos (alcunha dos congoleses)!

Níger: Depois da estreia na edição do ano passado, a selecção do Níger pretende fazer melhor e conquistar um dos 2 primeiros lugares. Difícil, mesmo muito difícil, para não dizer quase impossível. Um conjunto sem experiência de onde sobressai o craque Moussa Maazou, promessa perdida para a Europa, agora a pairar sobre os campos tunisinos (Étoile du Sahel). O treinador nesta edição é o mesmo que em 2012 orientou os anfitriões do Gabão: Gernot Rohr, alemão de 59 anos, referência da história do Girondins Bordeaux, enquanto jogador e treinador e que procura agora o concretizar do sonho deste pequeno e pobre país da África Ocidental.

 

Grupo C

Zâmbia: O inesperado campeão de 2012 entra para a edição sul-africana debaixo de um foco de expectativas muito intenso. Duvido que este ano consigam repetir o feito, mas também é certo que nada de igual lhes é exigido. O ano passado viveram uma situação fantástica mas possivelmente esporádica. Ainda assim, um bom feeling para os jogos desta selecção. Mantém o treinador (o francês Hervé Renard, autêntico herói nacional após a vitória do último ano) e também a base da equipa. A figura e referência continuará a ser Chris Katongo, líder das operações a meio-campo, sendo que Emmanuel Mayuka pode aproveitar a CAN para ganhar oportunidades no Southampton. Destaque também para o quarteto defensivo dos congoleses do TP Mazembe (Stophira Sunzu, Francis Kasonde, Hichani Himoonde e o trinco Nathan Sinkala), que prometem valorizar-se nesta prova.

Nigéria: Uma das grandes selecções do futebol africano. Em termos históricos, recordamos sempre a mítica equipa do fim dos 90´s/início de 2000 com Kanu, Okocha, entre outros craques. Essa será porventura a última recordação que temos de uma grande equipa nigeriana. Desde essa altura temos tido equipas com bons jogadores mas resultados relativamente fracos. Ora então o que podemos esperar das Super Águias nesta CAN? Eu diria que há potencial para fazer mais e melhor do que nos últimos anos, claramente. Ofensivamente poderosos (Musa, Ideye Brown, Emenike, Moses e Uche), têm, no entanto, no seu meio-campo a grande figura e referência internacional: John Obi Mikel. O médio do Chelsea será o líder de um meio-campo que conta ainda com os promissores Nosa Igiebor (Bétis) e Ogenyi Onazi (Lazio). Atrás, Joseph Yobo continua a ser a referência, destacando-se ainda o suplente do Braga, Elderson. Um bom conjunto, quiçá desequilibrado, mas que não deixa de ter hipóteses de chegar longe. Veremos.

Burkina-Faso: Uma selecção sem historial de grandes resultados (o melhor na CAN foi mesmo a chegada à semi-final em 1998) mas com ambição de poder seguir em frente para os quartos-de-final. Orientados pelo experiente Paul Put, os rapazes do antigo Alto Volta pretendem chegar longe, com uma proposta de jogo interessante e que assenta sobretudo no trabalho de um meio-campo com excelentes elementos: os trincos Koné e Kaboré (ambos jogam em França) e, sobretudo, o médio-ofensivo Alain Traoré, outro “francês” do plantel, craque maior do Lorient. Muita qualidade claramente neste grupo, aos quais ainda podemos juntar os perigosos avançados Pitroipa, Bancé e Abdou Traoré além do central do Lyon, Bakary Koné. Uma base interessante do futebol francês que procura dar a surpresa nesta edição de 2013.

Etiópia: Só o facto de estarem presentes nesta CAN já surpreende. A Etiópia, além de ser uma das nações mais desfavorecidas do planeta, é também uma nação desfavorecida no que toca a recursos futebolísticos, tanto materiais como, sobretudo, humanos. O seleccionador é etíope (Sewnet Bishaw), logo não haverá problemas de adaptação à realidade futebolística. Que é complexa e um pouco distante do profissionalismo e competitividade das rivais do grupo. A grande figura, na ausência do líder da equipa Fikru Tefera, será, porventura, o médio-esquerdo Yussuf Saleh, dos suecos do Syrianska FC. Muitas dificuldades em perspectiva para os etíopes. No entanto, quem sabe se não teremos uma fábula daquelas que tanto gostamos…

 

Grupo D

Costa do Marfim: A grande favorita. E, olhando para os convocados, entende-se o porquê. Drogba, Yaya Touré, Kolo Touré, Cheick Tioté, Eboué, Arouna Koné, Kalou ou Gervinho, aos quais devemos juntar ainda os promissores avançados Wilfried Bony e Lacina Traoré. Um conjunto de estrelas que se quer redimir da final perdida nos penaltis para o Zâmbia na última edição. E como superar a frustração? Jogando bom futebol, coerente com a qualidade do plantel e onde não há individualismos mas sim um conjuntos de grandes craques prontos para conquistar África, jogando em equipa. O seleccionador é ainda jovem (41 anos), francês e foi um jogador de qualidade: Sabri Lamouchi. Se enquanto jogador passou por grandes equipas, como Mónaco, Parma, Inter ou Marselha, procura agora iniciar a sua carreira de treinador em grande. E haverá melhor oportunidade do que esta? Talvez não, por isso é hora de a aproveitar!

Tunísia: Orientados pelo ex-jogador Sami Trabelsi, os tunisinos tentarão discutir, previsivelmente, o 2º lugar com a vizinha e rival Argélia e talvez com o Togo de Adebayor. Isto pensando que o 1º lugar será para a super-favorita Costa do Marfim. Para esta CAN, surgem algumas personagens novas, entre muitas que já vêm do grupo dos últimos anos. Em termos de talento puro, destacaria Youssef Msakni, virtuoso médio ofensivo, recentemente transferido para os milhões do Qatar mas com potencial para crescer e chegar rapidamente à Europa. Há ainda outros bons nomes a ter em conta: o central Abdennour do Toulouse, muito forte e ainda jovem, o playmaker Wahbi Khazri, promissor médio-ofensivo/ala do Bastia, e os avançados Jemâa, Khelifa (goleador no Évian, em França) e Harbaoui. Uma selecção que pode revelar algumas das pérolas mais interessantes desta CAN. E certamente com esperanças de chegar bem longe este ano…

Argélia: Outra séria candidata aos “quartos”. Com o valencianista Sofiane Feghouli como principal estrela, a Argélia procura um regresso em grande ao palco maior do futebol africano, depois da ausência em 2012. Orientados por um mito-vivo chamado Vahid Halilhodzic, os argelinos irão certamente dar água pela barba aos seus rivais de grupo. Voltando aos jogadores, para além do referido Feghouli, Halilhodzic leva ainda craques como Boudebouz, Kadir ou Lacen. E ainda a jovem promessa do Saint-Étienne, Fariz Ghoulam. Previsão? Não garanto que se apurem mas parece-me que têm capacidade, pelo menos, para discutir o 2º lugar do grupo. Há condições, treinador e talento. Falta jogar!

Togo: Adebayor + 10. Podíamos quase descrever assim a selecção togolesa, que teve em 2006 o seu grande ano (participações na CAN e Mundial da Alemanha). Sem dúvida que o avançado orientado por André Villas Boas no Tottenham é a grande referência desta equipa. No entanto, jamais poderá resolver todos os problemas sozinho. Isto numa CAN que marca o regresso dos togoleses depois do susto em Angola há 3 anos (sequestro ao autocarro da equipa). Com o ex-internacional francês Didier Six como seleccionador, o Togo tem em França a sua principal base de recrutamento para esta CAN. Destaque para o experiente guarda-redes Kossi Agassa, o médio Alaixys Romao ou os avançados Ayité e Gakpé. Isto para além, claro está, da superstar togolesa referida no início do parágrafo. Adebayor pode não jogar sozinho mas também dele depende uma grande CAN dos Gaviões.

 
foto de abertura © maillotfoot


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.