Posted 29/03/2013 by David Barata in Convidados
 
 

Clarence Seedorf. Um cidadão do Mundo e do Rio de Janeiro.

Clarence Seedorf. Um cidadão do Mundo e do Rio de Janeiro.
Clarence Seedorf. Um cidadão do Mundo e do Rio de Janeiro.

C

larence Clyde Seedorf nasceu a 1 de Abril de 1976, na cidade de Paramaribo, no Suriname. Desenganem-se os que pensam que esta não é uma verdade pura e dura, apesar dos seus pais, Johan e Dulce, estarem à espera de uma menina, até à hora do parto. Seedorf já nasceu especial, tornando fácil a construção de uma carreira a todos os níveis excepcional.

Podia ter sido sociólogo ou fisioterapeuta. “Ele queria era ajudar. Mesmo quando começou a treinar connosco [n.d.r aos 15 anos foi chamado por Louis Van Gaal para dar os primeiros toques com a equipa principal do Ajax], ele não se importava de ficar a ver e ajudar quando alguém se lesionava. Lembro-me dele como apanha-bolas. Mas, algumas vezes, até ia buscar gelo e material para o treino. Sempre foi muito humilde, o que o tornou num jogador ainda mais completo”, disse, em conversa com o Futebol Mundial, Bryan Roy, antigo avançado do Ajax, também ele internacional holandês nascido no Suriname. O autêntico compatriota de Seedorf destaca ainda outras mais-valias daquele que viria a ser um dos expoentes máximos da ‘cantera’ do emblema de Amesterdão. “Tinha um talento inato. Que ainda preserva, nos dias de hoje. Um toque de bola acima da média e uma capacidade para resolver de forma simplificada cada lance”, reiterou, o agora técnico da equipa B do Ajax.

Apaixonado pelas coisas boas da vida, Seedorf viveu, no entanto, uma infância mais contida. Filho de agricultores, que mais tarde viriam a singrar no mundo empresarial, através do negócio do calçado, o antigo companheiro de Rui Costa no AC Milan, é um homem tranquilo também fora dos relvados. Católico praticante, Seedorf sonha com um Mundo repleto de Paz e Harmonia, onde as crianças, mesmo as mais carenciadas, consigam ter oportunidades para dar um novo rumo à sua vida. Fã de Whitney Houston, Michael Jackson e R&B, mas também de música clássica, samba e pagode, cedo descobre a paixão por Terras de Vera Cruz. Com o primeiro ordenado, anuncia em casa que quer conhecer o Rio de Janeiro. Chamam-lhe louco, avisam-no que vai ter de voltar a estudar e fica uma semana, de castigo, sem puder treinar. Van Gaal, preocupado, liga para Johan, pai de Clarence. Duas horas de conversa foram suficientes para o castigo deixar de surtir efeito. Estava dado o passo que faltava para a carreira de Seedorf alcançar outro patamar. Decorria o mês de Março de 1992.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf (Ajax)

Com 16 anos – o mais novo de sempre – estreia-se na equipa principal do Ajax diante do … Vitória de Guimarães, em jogo da 3.ª eliminatória da Taça UEFA. Os holandeses acabariam por vencer por 0-3, com golos de Bergkamp, Davids e Petterson, naquele que é ainda hoje o triunfo mais dilatado do emblema de Amesterdão, fora de casa, na já extinta competição. Seedorf deixou a sua marca. Vinte minutos em campo foram suficientes para convencer Van Gaal. Não mais saiu da equipa principal, ainda que apenas em 1994/95 tenha alcançado o estatuto de titular absoluto, época que culminou com a conquista do título de Campeão Europeu. Foi ao lado de jogadores como Menzo, Van der Sar, Frank de Boer, Edgar Davids, Overmars, Bergkamp ou Kluivert, que Seedorf cresceu e se tornou numa das mais valiosas pérolas do futebol das Tulipas.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf (Sampdoria)

Três temporadas em Amesterdão foram suficientes para captar a atenção de Sven-Göran Eriksson, recém chegado aos italianos da Sampdoria, equipa que vivia uma realidade bem distinta da actual. Apesar do interesse de clubes como o Manchester United – Seedorf chegou a reconhecer que rejeitou os Red Devils devido à presença, em simultâneo, de David Beckham – foi o Luigi Ferraris a receber em apoteose a nova coqueluche do futebol holandês, juntando-se a craques como Zenga, Mihajlovic, Evani, Karembeu, Chiesa e Mancini.

Mas como tudo o que é bom acaba depressa, a estadia durou apenas uma época. Cedo se percebeu que a Sampdoria era pequena demais para tamanho talento. Seguiu-se o Real Madrid. A sagacidade e o engenho de Fabio Capello convenceram Seedorf a rumar ao Santiago Bernabéu a troco de 15 milhões de euros. Decorria a época 1995/96. Na Capital espanhola, Seedorf encontra aquele que ainda hoje apelida como “o melhor balneário do Mundo”. Illgner, Hierro, Roberto Carlos, Redondo, Raúl, Suker e Mijatovic eram apenas alguns dos símbolos merengues da altura. Demasiado para um menino com apenas 20 anos e com tanto já para contar. Apesar de não ser um titular indiscutível, fruto também da ascensão de Guti, o contributo de Seedorf é fundamental para a conquista do título de Campeão Espanhol logo na primeira temporada.

Tudo corria de feição mas o melhor ainda estava para vir. Aproveitando alguns dos excessos comportamentais de Guti, e apesar da chegada do mediático Karembeu, seu antigo colega na Sampdoria, Seedorf assegura lugar cativo no onze do alemão Jupp Heynckes, técnico eleito para substituir Capello, que não resistiu ao assédio de um dos seus grandes amores, o AC Milan. Titular absoluto ao lado de Redondo e do brasileiro Sávio, Seedorf coloca em prática toda a magia do seu futebol, ajudando o clube a sagrar-se Campeão Europeu, vencendo a Juventus na final por 1-0 (golo de Mijatovic). Era o segundo título Europeu do holandês em três anos, ele que tinha acabado de completar 21 primaveras.

A chegada ao Real Madrid, em 1998, do seu compatriota Guus Hiddink, técnico conhecido pela enorme competência táctica mas também por alguns ódios de estimação, acaba por ditar o fim de reinado de Seedorf no Bernabéu. O balneário merengue passou a ser demasiado pequeno para ambos e a solução passava pela saída do médio. Ao cabo de mais época e meia no Bernabéu, Seedorf não resiste aos encantos do Calcio, de onde havia saído de forma prematura, então ao serviço da Sampdoria. Desta feita, foi a vez do Inter Milão que, em Janeiro de 2000, consegue chegar a acordo com o Real Madrid para a compra do passe, avaliado em 23 milhões de euros. Uma fortuna, pensou-se, na altura.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf (Inter Milão)

Apesar do entusiasmo e do balão de oxigénio que a carreira de Seedorf necessitava após a conturbada saída de Madrid, as duas épocas e meia ao serviço dos ‘nerazzurri’ não foram brilhantes. Zero títulos e apenas uma presença na final da Taça de Itália, onde acabariam por cair aos pés da poderosa Lázio de Eriksson, repleta de jogadores de classe Mundial como Marchegiani, Nesta, Véron, Marcelo Salas e … Sérgio Conceição. Marcello Lippi, Marco Tardelli e Héctor Cúper foram os técnicos que marcaram a presença de Seedorf no Guiseppe Meazza. Todos eles, porém, foram reféns de um dos períodos mais conturbados da família Moratti.

O futebol de Seedorf voltava a reclamar um novo desafio. Para quem aos 21 anos já tinha levantado por duas vezes o troféu de Campeão Europeu, duas épocas e meia de jejum de títulos soavam a escândalo. O Verão de 2002 foi próspero para o holandês. Envolvido num daqueles negócios da China, Inter e AC Milan chegam a acordo para a troca de Seedorf por Francesco Coco. Sorriram os ‘rossoneri’, que acabariam por iniciar um dos melhores ciclos da história do clube. Sob o comando de Carlo Ancelloti, Seedorf pega de estaca na equipa, ao lado de Gattuso, Andrea Pirlo e … Rui Costa.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf (AC Milan)

Logo na primeira época, vence a Taça de Itália e a terceira Champions da carreira, tornando-se no primeiro jogador a conseguir erguer o troféu por três equipas diferentes. Um recorde que perdura até aos dias de hoje. Dez anos depois de ter chegado a San Siro, Seedorf é apanhado na teia de Massimiliano Allegri, juntamente com Gattuso, Zambrotta, Nesta e Inzaghi. O núcleo duro tinha os dias contados, numa política apoiada pelo presidente Berlusconi e que tinha como base o rejuvenescimento de um plantel claramente envelhecido. O que muitos interpretaram como uma afronta à classe e historial de muitos destes símbolos do AC Milan, eles, os próprios, encararam o desafio como uma nova e derradeira oportunidade para as carreiras. Zambrotta e Inzaghi optaram pelo abandono dos relvados, castigados também por lesões sem fim que reduziram, em muito, o seu rendimento nos últimos dois anos. Nesta viajou para o Canadá, onde continua a dar cartas no Impact Monreal, enquanto Gattuso seguiu para o Sion. Sobrava Seedorf e o eterno sonho de conhecer o Rio de Janeiro.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf: chegada ao Rio de Janeiro.

A especulação em torno do futuro do internacional holandês era mais que muita. LA Galaxy, Al-Itthiad e Anzhi foram alguns dos clubes colocados na rota de Seedorf que decidiu abdicar de alguns milhões de euros para correr atrás de um desejo antigo. Viver no Rio de Janeiro. O convite do Botafogo, em Maio de 2012, acabou por fazer todo o sentido, para gáudio da sua esposa, Luviana, natural do Bairro de São Miguel, na zona Oeste do Rio de Janeiro. A 30 de Junho de 2012, Seedorf anuncia que chegou a acordo com os ‘alvinegros’ para as duas temporadas seguintes, a troco de 10 milhões de euros. Aos 36 anos, o holandês, ex-AC Milan, fez tremer o aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, onde o esperavam centenas de adeptos ávidos de magia e triunfos.

Com Seedorf, ou diria antes, com a sede de vitórias dos adeptos, choveram novos cânticos, muitos deles com provocações para os eternos rivais Vasco da Gama, Fluminense e Flamengo. “Não é mole não, eu tenho o Seedorf e você tem o Tufão”, entoavam em referência a um dos personagens principais da novela ‘Avenida Brasil’, que dá vida a uma antiga lenda do Flamengo. Depois de recuperar alguns dos índices físicos, Seedorf estreia-se como jogador do Botafogo a 22 de julho de 2012, diante do Grêmio, em jogo da 11.ª Jornada do Brasileirão. O Engenhão, que tinha virado Teatro Municipal, encheu-se para ver a estreia da mais cara transferência de sempre de um jogador estrangeiro para um clube brasileiro que, no entanto, não correu como previsto. Uma primeira ‘rodada’ agridoce para Seedorf, que culminou com a vitória do emblema de Porto Alegre por 1-0, como um golo de Marcelo Moreno.

Clarence Seedorf

Clarence Seedorf festeja a vitória na Taça Guanabara 2013.

Sucederam-se os primeiros golos, as vitórias mais saborosas e as exibições de levantar qualquer adepto mais céptico. Mas foi a última aquela que mais marcou o holandês. A 10 de Março, o Botafogo derrotou o eterno rival Vasco da Gama por 1-0. Seedorf levantou o seu primeiro título com a camisola alvinegra, a Taça Guanabara. Após o triunfo, e com o Engenhão a abarrotar pelas costuras, Seedorf era o nome mais ouvido. A torcida não esconde o orgulho por contar, nas suas fileiras, com o talento do veterano holandês. Ele retribui com classe, assistências e alguns golos.

No entanto, tem sido no balneário e longe dos relvados que Seedorf tem surpreendido os que lhes estão mais próximos. Colegas, dirigentes e até comunicação social mostram-se rendidos … à voz do holandês. Depois da vitória diante do Vasco da Gama, a reportagem da ‘Globoesporte’ foi ao baú recuperar uma gravação de Seedorf, em 2007. Aí, num projeto musical com o nome “Percorsi di Vita”, o holandês cantou ”Sitting on the Dock of the Bay”, de Ottis Redding.

“Bacana a voz, bonita. Timbre bonito, bom mesmo, gostei para caramba. Danado o garoto. Nota dez. Mas eu não faço a menor ideia de quem seja.” As palavras de Ivan Lins, estão isentas de qualquer suspeita, mas não foi o único. No mesmo CD, Seedorf cantou “Redemption Song”, de Bob Marley, do qual é fã. Liminha é produtor musical e foi baixista de “Os Mutantes”. “Ele tem uma voz assim de jamaicano. Se quiser fazer uma banda comigo, reúno uma galera aí e a gente faz”, brincou.

Tudo isto para justificar nova aparição de Seedorf de microfone em riste, para interpretar Bob Marley. Desta feita, o tema escolhido foi “One Love”, após a vitória no Guanabara. “Um amor, um coração. Vamos ficar juntos para ficarmos bem”, diz a canção. Assim esperam os adeptos do Botafogo. Certo é que a presença de Seedorf no emblema Carioca provoca ainda hoje, e nove meses após a sua chegada, uma certa estranheza. E nem a paixão do holandês pelo Rio de Janeiro ajuda a explicar tudo. O clube não é o maior ou o mais rico do Brasil. Longe disso. Para além de que desde 1996 que não atinge a Libertadores, naquela que é a maior ausência entre os grandes clubes brasileiros.

No próximo dia 1 de Abril, Seedorf completa 37 anos. A par de Zé Roberto (38), agora o patrão do miolo do Grêmio, são os mais velhos do Brasileirão e também dos mais experientes. Continuam a dar cartas provando que o talento não tem idade. A motivação existe e o corpo ainda responde, mesmo que mais em esforço. Segredos? Alguns, segundo Gilmar Veloz, o jornalista do ‘Correio do Brasil’ com nome de empresário. “Seedorf é um exemplo também para os mais novos. Quando chegou, brincaram dizendo que só bebia água e Cola. Mas parece que é mesmo verdade. Não fuma, gosta de sambar, pedala de bicicleta na praia e já foi de ônibus ao treino do Botafogo. Até fama de bem dotado ganhou. Sua temporada na cidade recebe um ar mítico, o que costuma ser dispensado aos globais e hollywoodianos. Pau pra toda obra, sua ética profissional é modelo para o clube, onde, dizem, palpita no trabalho do roupeiro ao ponta-esquerda, passando pelo presidente”, frisou Gilmar ao Futebol Mundial.

À velocidade dos aplausos da ‘Torcida’, Seedorf e o clube parecem ter encontrado a sintonia perfeita. Ao ritmo do Samba, ou mais pausado, como é o timbre do seu futebol, resta saber se a união é, de facto, sinónimo de títulos futuros – e não só a Taça Guanabara – ou apenas um incentivo para uma geração que vive entre o passado Maravilha de Túlio e a inspiração do craque holandês.

Vinte e um anos após a estreia e seis clubes depois, Seedorf continua a dar que falar. E nem aquele jeito robusto e quase quadrado o incomoda.

Clarence é assim. Um cidadão do Mundo e, claro, do Rio de Janeiro.

 
foto de abertura © i got cider in my ear

fotografias © globo.com; i got cider in my ear; i got cider in my ear; i got cider in my ear; AGIF; Celso Pupo.


David Barata