Posted 31/01/2013 by Joachim Rodrigues in Convidados
 
 

Copinha 2013: o melhor «onze»

Copinha 2013 / Copa São Paulo 2013
Copinha 2013 / Copa São Paulo 2013

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o Brasil, viveiro de craques egocêntricos, moleques de sorriso maroto e ginga fácil, a temporada inicia-se todos os anos com o maior torneio de futebol jovem do Mundo, a Copa São Paulo Júnior. Numa competição que não pára de crescer, foram cem as equipas que estiveram à partida nesta 44ª edição, divididas, numa primeira fase, por vinte e cinco grupos.

Sem fugir à regra, foram também muitas as histórias a tornarem esta Copinha em mais do que um simples torneio, um verdadeiro Olimpo de sonhos constituído por justiceiros imortais a distribuírem pancada pelo árbitro, passando por verdadeiras piscinas em forma de campos de futebol ou, ainda, meninos da roça que viram pela primeira vez na vida, como se de uma obra dos deuses se tratasse, um centro comercial.

Após 22 dias de competição e 181 jogos disputados no total, o Santos FC foi coroado com o título de campeão, levantando o ceptro, vinte e nove anos depois da sua primeira conquista na prova, e consolidando a sua posição enquanto maior fábrica de talentos do mercado brasileiro na actualidade.

Numa prova em que é necessário fazer distinção entre craques de pé descalço e talentos de relva paga, o Futebol Mundial apresenta as escolhas para melhor «onze» da Copa São Paulo Júnior 2013, tendo em consideração os seguintes requisitos: (1) jogadores com tempo de utilização ao longo da competição igual ou superior a 270 minutos; (2) qualidade dos jogadores e a sua margem de progressão; (3) contribuição, relevância e eficácia das suas acções individuais para um maior nível de aproveitamento dos respectivos clubes na prova.

 

Onze da Competição

 
Copinha 2013: o melhor «onze»

 

Paulo Henrique (19 anos | Guarda-Redes | Goiás)

 
A verdadeira muralha goiana, Paulo Henrique foi o herói esmeraldino desta Copa São Paulo Júnior, contribuindo de sobremaneira para que a sua equipa chegasse, pela primeira vez na sua história, à final da competição. Conseguindo conciliar reflexos e agilidade, o guardião goiano destacou-se por ser um especialista na defesa de grandes penalidades: cometeu a proeza de defender 4 (!) nas meias-finais da competição frente ao Bahia. Personalizado e confiante, deixou boas sensações ao longo de todo o torneio, executando defesas com grau de dificuldade médio-alto em que evidenciou bons argumentos no binómio ponderação/velocidade das suas decisões/acções. Suficientemente carismático e transmitindo segurança ao seu último reduto, Paulo Henrique demonstrou ser capaz de aguentar satisfatoriamente durante os jogos a pressão psicológica inerente à posição que ocupa e que só é comparável àquela que sente qualquer outro jogador de campo quando chega o momento de bater uma grande penalidade decisiva. Um bom projecto alviverde que importa agora ser devidamente gerido e acompanhado.

Lucas Farias (18 anos | Lateral Direito / Médio Direito | São Paulo)

 
Já enquadrado no plantel principal do São Paulo, mas ainda em idade para disputar a Copa São Paulo Júnior, Lucas Farias foi o lateral-direito escolhido por Sérgio Baresi, técnico são-paulino, para integrar o seu habitual 4x4x2. Dinâmico e com disponibilidade física para fazer o vaivém sobre o flanco direito, Lucas Farias conseguiu conferir profundidade, aparecendo variadas vezes no apoio atacante em movimentações um-dois ou através de lances de um para um, demonstrando capacidade no cruzamento, passe curto/médio e condução em progressão rápida. Sem ser extremamente consistente do ponto de vista defensivo e a precisar de trabalhar melhor esse momento, revelou alguns argumentos na antecipação e conseguiu utilizar os seus predicados a nível de agilidade e leitura para não deixar fugir os seus adversários, interceptando ou anulando as iniciativas contrárias. Lateral destro de vocação essencialmente ofensiva, Lucas Farias é ainda executante de bolas paradas: preferencialmente, livres laterais e pontapés de canto. Não assumindo domínio aéreo efectivo, apresenta versatilidade para desempenhar funções de médio-ala direito. Peça importante no delineamento da estratégia e dinamismo táctico do São Paulo de Sérgio Baresi durante toda a Copinha, Lucas Farias é, aos 18 anos, um projecto tricolor para acompanhar durante os próximos tempos.

Jubal (19 anos | Defesa Central | Santos)

 
Melhor defesa central desta Copa São Paulo Júnior, Jubal assumiu-se como o patrão do sector defensivo santista na competição. Esguio, sem grande robustez muscular mas fisicamente disponível, Jubal revelou inteligência posicional e velocidade de reacção, abordando os lances em antecipação para executar intercepções orientadas ou desarmes simples. Presente em disputas aéreas – tem como altura de referência um metro e noventa centímetros –, conferiu solidez nesse capítulo, não só no plano defensivo como se constituiu, por diversas ocasiões, como mais uma unidade ofensiva, subindo até à área contrária para dar sequência de cabeça a lances de bola parada. Destro, apresentou argumentos no primeiro momento de construção, utilizando passes curtos e médios que proporcionassem algum critério na saída organizada da sua equipa. Demonstrando personalidade e carisma, Jubal ainda teve tempo de jogar pela equipa profissional do «Peixe» durante esta Copinha, retornando posteriormente à base para levar o Santos até ao título de campeão. Um «Menino da Vila» para acompanhar de perto nos tempos que se seguem.

Fernando Teixeira (19 anos | Defesa Central | Palmeiras)

 
Titular indiscutível na chegada do Palmeiras até às meias-finais, totalizando 630 minutos de jogo, Fernando Teixeira, defesa central palmeirense, foi um dos elementos mais utilizados nesta Copinha. Não apresentando uma estampa física impressionante – 1.82 como altura de referência -, Fernando destacou-se sobretudo pela sua capacidade de antecipação e velocidade de reacção, conseguindo várias intercepções orientadas e desarmes simples. Ainda que, por vezes, tenha revelado excesso de impetuosidade na abordagem, com influência no tempo correcto de entrada aos lances e posterior perda de posição, afirmou-se como uma das unidades defensivas de maior eficácia e consistência ao longo da competição. Evidenciando capacidade relativa – não efectiva – no jogo aéreo e aptidão para colocação de passes médios e longos em saída organizada da sua equipa, Fernando Teixeira é um projecto alviverde com margem para evoluir, numa posição onde, por vezes, a altura é documento.

Henrique Miranda (19 anos | Lateral Esquerdo | São Paulo)

 
Pertencente aos quadros profissionais do São Paulo, contando já com algumas aparições pela equipa principal, mas ainda em idade para disputar a Copinha, Henrique Miranda é um lateral esquerdo de vocação essencialmente ofensiva. Depois de uma jornada inaugural na fase de grupos em que se exibiu a grande nível, confirmando desde logo o potencial que havia evidenciado em edições anteriores da competição, uma lesão, no decorrer do segundo jogo, acabou por afastá-lo dos relvados durante os encontros seguintes, regressando apenas nos oitavos-de-final da prova às escolhas de Sérgio Baresi. Fisicamente disponível – sem ser forte –, Henrique Miranda confere dinamismo ao flanco esquerdo. Rápido e ágil, procura apoiar constantemente o momento ofensivo da equipa, seja em movimentações um-dois ou apostando em lances de um para um. Utilizando passes curtos e médios, apresenta bons índices de eficácia no cruzamento, exibindo ainda alguns argumentos no remate de média-distância. Canhoto por natureza, consegue utilizar o pé direito em situações recurso. No plano defensivo, deve continuar a trabalhar a sua eficiência no desarme – ainda que denote agilidade e capacidade de reacção satisfatórias -, e precisa de adquirir uma maior consciência e temporização posicional, evitando algumas distracções típicas de «menino de base» ainda à procura da rodagem profissional ideal. Razoavelmente presente em lances aéreos, embora nem sempre eficaz, Henrique Miranda é um projecto em desenvolvimento no laboratório de talentos do Morumbi com passaporte para a equipa principal.

Tulio (20 anos | Médio Defensivo / Defesa Central | Goiás)

 
Dentro de uma dimensão menos técnica, claramente mais física ou anímica, destaque para Tulio, capitão goiano a liderar as suas tropas, nesta Copinha 2013, rumo a uma final histórica. Com personalidade sóbria mas presença marcante – 1.84/76 -, o líder da armada goiana distinguiu-se pela combatividade que forneceu ao seu último reduto. Actuando na posição «6», Tulio demonstrou recursos no jogo aéreo e sentido posicional para efectuar intercepções orientadas ou desarmes simples, devendo, contudo, continuar a trabalhar na definição dos seus tempos de abordagem e a melhorar os seus índices de agressividade na aproximação, de forma a evitar faltas desnecessárias. Já no momento de construção, pese embora tenha dado algum critério através da colocação de passes médios-longos às saídas organizadas da sua equipa, Tulio denotou maiores dificuldades, revelando-se, essencialmente, um «volante» de cariz defensivo com tendência para impedir grande fluxo interior de jogo adversário, ocupando a zona central sem assumir grandes responsabilidades na condução em progressão. Destro, mas sabendo usar o pé esquerdo, torna-se perigoso em subida até à área contrária para dar sequência de cabeça a lances de bola parada. Importante na manutenção e gestão dos níveis de ansiedade dos seus companheiros, Tulio manifestou ainda capacidade de liderança e espírito de equipa.

Bruno Dybal (18 anos | Médio Centro-Interior / Médio Ofensivo | Palmeiras)

 
Aos 18 anos, Bruno Dybal é uma das maiores esperanças da base palmeirense e pertence já aos quadros profissionais do clube, aguardando apenas a sua vez para materializar todo o potencial que lhe é reconhecido desde tenra idade. Com o número oito nas costas e magia nos pés, Dybal é um organizador que se disfarça facilmente de criativo, destacando-se pela sua capacidade de condução, em que alia técnica e velocidade com visão e qualidade no capítulo do passe – curto, médio ou longo. Inteligente nas suas movimentações com e sem bola, aparece com relativa frequência nas imediações das zonas de decisão para fazer o último passe ou tentar aplicar o seu bom remate de média-longa distância – nem sempre consegue colocar potência suficiente. Destro por natureza, canhoto em recurso, Bruno Dybal tem na sua fragilidade e pouca robustez física um dos seus «handicaps», procurando compensar essa lacuna com a sua agilidade e boa capacidade de antecipação por forma a evitar grandes duelos corpo a corpo com adversários fisicamente mais dotados. Especialista na execução de bolas paradas, frontais e laterais, revelou grande facilidade na colocação de cruzamentos para a área. Tendo vindo a trabalhar, nos últimos tempos, o seu futebol no capítulo da intercepção orientada, mas precisa de encontrar um melhor balanceamento a nível de agressividade e concentração. Ficou a sensação, ao longo desta Copinha, de que Bruno Dybal é um projecto alviverde de futuro, que espera apenas o momento certo para consolidar no plano profissional tudo aquilo que fez de positivo na sua fase de formação, obrigando, inclusivamente, alguns clubes europeus de topo a ligarem os seus radares.

João Schimidt (19 anos | Médio Centro / Médio Ofensivo | São Paulo)

 
Um dos destaques do São Paulo nesta Copinha, João Schimidt (também referenciado como João Felipe ou João Schmidt) é, em bom brasileiro, um volante de armação, desempenhando, em linguagem mais europeia, o papel de «8» com capacidade para desdobrar e aparecer como «10». Canhoto por natureza, Schimidt alia competência na condução em progressão com velocidade de leitura e qualidade no passe – curto, médio ou longo. Resistente do ponto de vista físico – 1.83 cm -, revelou inteligência nos seus movimentos com e sem bola, aparecendo no espaço para oferecer linhas aos seus companheiros e conferir dinâmica ao sector intermediário. Chegando às zonas de decisão com frequência e eficácia para colocar o último passe ou atacar o golo – remate calibrado de curta-média distância –, João Felipe Schimidt é ainda especialista na execução de bolas paradas, frontais e laterais. Manifestando argumentos técnicos a nível do cabeceamento e da intercepção orientada, deve procurar, nos próximos tempos, um melhor índice de agressividade em algumas das suas acções, com e sem bola, por forma a que num plano superior consiga materializar todo o potencial que o seu futebol transpira na ponta da chuteira. Membro do elenco tricolor que conquistou a Copinha em 2010, onde constavam nomes como Lucas, Casemiro ou Bruno Uvini, João Schmidt anseia por uma oportunidade que lhe permita provar perante o Morumbi, de forma consistente, o seu valor.

Chico (19 anos | Avançado / Extremo Direito | Palmeiras)

 
Contratado pelo Palmeiras, há menos de um ano, ao Desportivo Brasil, Francisco Clavero, mais conhecido por Chico, foi um dos destaques alviverdes nesta Copinha 2013, depois de já ter dado nas vistas na edição anterior da competição, ainda ao serviço do emblema de Porto Feliz, ao se consagrar como um dos melhores artilheiros. Actuando, predominantemente, sobre a direita do ataque, embora com versatilidade para ocupar zonas mais centrais, como 2º avançado, ou no flanco oposto, Chico – apenas 1.68 de altura – destaca-se pela facilidade na colocação de acelerações curtas com a bola colada ao pé. Móvel e destemido, arrisca, constantemente, a iniciativa individual em lances de um para um com o objectivo de criar desequilíbrios e baralhar as marcações das defensivas contrárias. Alternando movimentações em profundidade exterior para efectuar o cruzamento com diagonais fora-dentro em que procurou as zonas de finalização, foi o dinamizador de serviço do ataque palmeirense ao longo da competição, alcançado o golo por três ocasiões e estando presente em muitas das jogadas ofensivas da sua equipa. Oportunista e de ginga fácil, exagera, por vezes, no adorno dos seus lances individuais, originando perdas de posse desnecessárias e prejudicando a objectividade das suas acções. Destro de preferência, sabe usar o pé esquerdo com relativa eficácia, Francisco Clavero evidenciou ainda qualidade técnica ao nível do cabeceamento. Constituindo-se como alternativa para a execução de bolas paradas – laterais ou frontais –, Chico é um projecto tipicamente brasileiro para lançar o pânico em forma de samba pelos gramados canarinhos.

Erik (19 anos | Avançado | Goiás)

 
Artilheiro-mor desta Copa São Paulo Júnior, a par de Diego (Mogi Mirim) e Caio (Audax), ao alcançar 8 golos na competição, Erik Nascimento Lima foi um dos grandes destaques do Goiás na chegada até à final histórica do Pacaembu. Ofensivamente versátil, confere grande mobilidade e dinamismo à frente de ataque da sua equipa, sem perder demasiada verticalidade. Rápido e ágil, sabe colocar acelerações com facilidade, o que lhe permite escapar das marcações em lances individuais: por isso mesmo, deu muito que fazer aos seus adversários ao longo da prova. Destro, mas capaz de recorrer ao pé esquerdo, o avançado esmeraldino destacou-se pela sua perspicácia e oportunismo na hora de se fazer ao golo. Fisicamente frágil e sem grandes argumentos na luta corpo a corpo, procurou a antecipação para evitar o choque com oponentes mais vigorosos. Pode e deve trabalhar melhor a potência e eficácia do seu remate de média-distância em progressão, bem como a eficiência de algumas das suas iniciativas individuais, evitando exageros no adorno. Erik Lima mostrou bons apontamentos técnicos que importa agora continuarem a ser trabalhados e devidamente geridos na expectativa de que venha a materializar no plano profissional aquilo que de bom conseguiu demonstrar ao longo da Copinha 2013.

Giva (20 anos | Avançado | Santos)

 
Com o mesmo primeiro nome de craques de banda desenhada, Givanildo Pulgas da Silva, o «Givagol», foi o grande destaque do sector ofensivo do Santos ao longo da Copinha 2013, apresentando bons índices de aproveitamento e eficácia acompanhados de vários apontamentos com relevância técnica. Artilheiro santista, a par de Neilton – outro dos destaques da base alvinegra na prova –, Giva foi adquirido pelo «Peixe», há menos de um ano, ao Vitória da Bahia. Aliando potência física – 1.86/74 – com velocidade e mobilidade, «Givagol» é um avançado de variados recursos com versatilidade para actuar mais descaído sobre uma das faixas ou em zonas mais centrais do ataque, alternando movimentações fora-dentro com outras dentro-fora, sem perder demasiada profundidade e verticalidade, lateral ou central. Dotado de forte remate de média-longa distância, astuto e oportuno na hora de aparecer no golo, revelou também capacidade para criar desequilíbrios em lances de um para um, bem como eficiência quando assistiu companheiros através de cruzamentos ou passes simples. Tendo como pé dominante o direito, estando o esquerdo longe de ser cego, a nova «coqueluche» santista demonstrou ainda alguma técnica de cabeceamento, com boa capacidade de impulsão e colocação de potência na bola. Podendo constituir-se como uma alternativa na execução de livres – preferencialmente centrais, por forma a fazer uso do seu jogo aéreo e estatura nas bolas paradas laterais – Giva da Silva é um «Menino da Vila» que já é visto por alguns responsáveis alvinegros como uma possível alternativa para fazer face à eventual saída de outro da Silva: Neymar.

 
foto de abertura © Leandro Moraes/UOL


Joachim Rodrigues