Posted 18/02/2008 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Cristián Rodríguez: Cebola voadora

cebola_rodriguez_naval
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A PRIMEIRA VITÓRIA NA FIGUEIRA DA FOZ. Depois de dois empates nas temporadas 2005/06 e 2006/07, o Benfica conseguiu ontem o seu primeiro triunfo, em jogos da Liga portuguesa, no Estádio José Bento Pessoa, na Figueira da Foz. Para fazer face à exibição desinspirada dos encarnados, a ressentirem-se da ausência, por opção, de Rui Costa no “onze” titular, e sem rotinas para praticar um futebol mais british do que nos tempos de Graeme Souness, surgiu um desbloqueador: aos 18 minutos, um lançamento lateral de Gilles Binya esteve na origem do golo inaugural, apontado por Cristián Rodriguez, em novo golpe de cabeça, após saída em falso do intermitente Wilson Júnior. Foi a terceira vez que a força de braços de Binya se revela decisiva para lançar o Benfica para triunfos, sempre em fases delicadas dos jogos. Já o fora, diante da Académica, num lance com algumas similitudes ao de ontem, já que Luisão, num sumptuoso golpe de calcanhar, aproveitou uma saída em falso do guarda-redes Ricardo Nunes, para fazer o 2-1 ; como também na vitória caseira diante do Estrela da Amadora, ao proporcionar a Cebola Rodríguez o 1-0, numa altura em que os assobios subiam de tom na Luz, até porque Camacho, minutos antes, deixara Rui Costa nos balneários, depois de ter sido a única unidade acima da média durante o primeiro tempo. Mas se nesse jogo, o golo de Rodríguez acabou por “despertar” o Benfica, na Figueira da Foz as melhorias foram inexistentes até à entrada de Rui Costa e Sepsi, guardadas para os últimos 5 minutos. Apesar de algum sofrimento, os encarnados chegariam ao 0-2, ao minuto 90, naquele que foi o 15º golo da temporada nos últimos cinco minutos dos jogos. Nuno Assis, que se estreara a marcar, ao minuto 90, da recepção ao Paços de Ferreira, para a Taça de Portugal, há uma semana, repetiu a façanha, desta feita concluindo um cruzamento atrasado do romeno László Sepsi, a confirmar um dos seus melhores predicados.

CEBOLA VOADORA. Foi o 5º golo da temporada de Cristián Rodríguez, com a curiosidade de todos terem sido apontados na Liga, competição onde é o terceiro melhor marcador do Benfica, logo a seguir a Oscar Cardozo e Nuno Gomes. Jogador de estatura mediana – 1.75 – surpreende ao ser o melhor cabeceador dos encarnados em 2007/08: é que quatro dos seus cinco golos surgiram em finalizações aéreas, números que se tornam ainda mais significativos, por representarem mais de um terço dos golos de cabeça do Benfica esta temporada. Nuno Gomes e Cardozo, com dois, seguem-se na lista, onde se juntam ainda Petit, Katsouranis e Luisão, com uma finalização vitoriosa cada. Mas se nos restringirmos apenas aos números da Liga, a preponderância de Rodríguez aumenta, correspondendo a mais de metade dos 7 golos apontados em finalizações aéreas. Nuno Gomes, com dois, ambos na sequência de cruzamentos da esquerda de Cristián Rodríguez, e Petit, com um, na jornada inaugural diante do Leixões, completam a lista.

O PERCURSO DE CEBOLA. Depois de dar os primeiros passos futebolísticos nas escolas do Juan Lacaze, o principal clube da sua cidade natal, Nelson Di Cono, olheiro do Peñarol, não hesitou em indicar a sua aquisição, após algumas observações. A adaptação ao grande clube de Montevideo não foi fácil e as saudades da família e da sua cidade – situada a mais de cem quilómetros da capital uruguaia – eram muitas. Contudo, tornar-se-ia numa das referências dos escalões de base do Peñarol, jogando sempre em escalões etários superiores ao seu, e aos 15 anos já efectuava alguns treinos com a equipa principal. Em 2002, com apenas 16 anos, estreou-se pela primeira equipa, mas a sua explosão ocorreu em 2003: depois de ter sido a principal estrela da selecção uruguaia sub-20 no Sul-Americano de 2003, prova que não completou devido a uma lesão, foi reintegrado na primeira equipa e assim que recuperou impôs-se como titular – 2 golos em 21 jogos -, ajudando o seu clube a chegar ao título uruguaio, onde coincidiu com Pablo Bengoechea, um dos seus ídolos, cortando o domínio do rival Nacional. Em 2004, apontaria 3 golos em 28 jogos e conquistaria espaço na selecção principal, pela qual jogou a Copa América. No início de 2005 foi o capitão da selecção uruguaia no Sul-Americano disputado na Colômbia, onde voltou a brilhar, chamando a atenção de vários clubes europeus. Iniciou-se então uma batalha com o Peñarol, ao não aceitar uma proposta de renovação, que fez com que fosse afastado da equipa. Transferiu-se, no Verão de 2005, juntamente com o colega de equipa Carlos Bueno, para o Paris Saint-Germain, à revelia do clube, o que o tornou num “traidor” para os adeptos do Peñarol e o obrigou a uma paragem até final de Novembro do mesmo ano, por decisão da FIFA. Em Paris, durante dois anos, nunca se conseguiu impor como titular, apesar de algumas boas indicações a espaços. Ajudou o clube a vencer a Taça de França em 2005/06, mas não foi opção para os jogos decisivos. No último Verão, uma boa participação na Copa América, abriu-lhe perspectivas de uma eventual – e desejada – transferência. Demorou a concretizar-se, mas chegaria ao Benfica nos últimos dias de Agosto, juntamente com o seu compatriota Maxi Pereira, numa “operação” que coincidiu com o regresso de José António Camacho ao clube da Luz. Muito se falou sobre a passagem fracassada por Paris e sobre a sua (in)capacidade para suprir a saída de Simão Sabrosa, como também a história da sua alcunha – o Cebola, porque as suas fintas faziam chorar os defesas adversários – tornou-se até numa peça do anedotário futebolístico luso. A estreia ocorreu, poucas semanas depois, na deslocação à Choupana, para defrontar o Nacional, onde apesar de algum excesso de peso, deixou boas indicação nos 26 minutos em que esteve em campo – período em que o Benfica apontou dois golos -, depois de render Nuno Gomes. Seguiu-se a titularidade diante da Naval, jogo em que se cotou como um dos melhores em campo, ao apontar um golo e a realizar uma assistência para um tento de Nuno Gomes. Sempre a crescer do ponto de vista físico, tornou-se num dos melhores jogadores do Benfica ao longo da primeira volta, granjeando prestigio junto dos adeptos e de alguns históricos do clube, como António Simões, que lhe teceu rasgados elogios, considerando-o um jogador “à Benfica”. Uma lesão, no início do ano, diante do Vitória de Setúbal, afastou-o cerca de um mês da competição, estando agora a reaparecer gradualmente, ainda que a paragem lhe tenha retirado o fulgor mostrado na primeira fase da época. Com contrato até ao final da época vão começando a surgir notícias que apontam a renovação como difícil, fruto do interesse de vários clubes europeus no seu concurso. Se são verdadeiras ou meras manobras de diversão do grupo de empresários que detêm o seu passe para valorizá-lo o futuro o dirá.

 

OS 5 GOLOS DE CRISTIÁN RODRÍGUEZ PELO BENFICA AO DETALHE

Cebola Rodríguez: 5 golos pelo Benfica

(carregar na imagem para ver com maior detalhe)

– 5 golos apontados pelo Benfica em 23 partidas entre todas as competições. Foi titular em 21 jogos – 12 completos – e suplente utilizado em 2 ocasiões. Soma 12 vitórias, 5 empates e 6 derrotas.

– Totaliza 1825 minutos de utilização, que correspondem a uma média de 79 minutos por jogo.

– Liga: 14 jogos – 5 golos ; Taça de Portugal: 1 jogo – 0 golos ; Liga dos Campeões: 5 jogos – 0 golos ; Taça da Liga: 2 jogos – 0 golos (apontou 1 golo no desempate por grandes penalidades, diante do Estrela da Amadora).

– Golos ao detalhe: 3 em casa ; 2 fora de casa. 3 nas primeiras partes ; 2 nas segundas partes.

– Dos seus 5 golos, 4 foram apontados de cabeça. O outro foi apontado de pé esquerdo. Três dos seus cinco golos surgiram na sequência de lances de bola parada: dois de lançamentos laterais à direita – uma assistência directa de Binya, o outro após um corte incompleto de um defesa, após lançamento lateral do camaronês – e outro de livre lateral, à esquerda, apontado por Rui Costa. Os outros dois golos surgiram em lances de ataque organizado: frente à Naval, em casa, a concluir, de pé esquerdo, uma assistência de Di María; frente ao Boavista, em casa, numa recarga de cabeça, após defesa incompleta de Peter Jehle, a remate de Rui Costa.

– 4 dos seus 5 golos aconteceram em finalizações na área – sempre de cabeça. Um deles, diante do Paços de Ferreira, foi apontado dentro da pequena área, numa finalização, em antecipação, ao primeiro poste. Também diante do Estrela Amadora marcou um golo em movimento semelhante, mas a uma distância maior da baliza.

– Nunca marcou golos em jogos consecutivos ou jornadas consecutivas.

– 9 jogos consecutivos sem marcar é o seu pior registo ao serviço do Benfica: depois de se estrear a marcar diante da Naval, a 15 de Setembro de 2007, só voltou a marcar a 3 de Novembro de 2007, diante do Paços de Ferreira. Se nos restringirmos apenas a jogos da Liga, o seu pior registo são 4 jogos consecutivos sem marcar, entre os mesmos jogos.

– Realizou 3 assistências para finalizações, sempre a partir de cruzamentos, com a curiosidade de ter sido sempre Nuno Gomes a conclui-los. Dois deles surgiram de cruzamentos da esquerda – Naval e União de Leiria – e outro de um cruzamento do centro-direita, diante do Boavista.

– Viu 4 cartões amarelos: 3 na Liga e 1 na Liga dos Campeões.

 

OUTROS NÚMEROS DO “CEBOLA”

Cristián Rodríguez pelo Paris Saint-Germain

– 36 jogos pelo Paris Saint-Germain, na divisão maior do futebol francês, nas duas épocas que representou o clube (2005/06 e 2006/07). Nesses 36 jogos, Rodríguez venceu 11 vezes, empatou 15 e perdeu 10.

– Dos 36 jogos que efectuou foi apenas titular em 9 ocasiões, tendo sido utilizado em 27 jogos a partir do banco. Completou apenas 3 jogos.

– Apenas apontou 1 golo pelo Paris Saint-Germain na Ligue 1. Foi a 10 de Fevereiro de 2007, aos 86 minutos, em casa, diante do AS Mónaco (vitória 4-2). Rodríguez entrara 3 minutos antes em campo.

– Esteve 27 jogos sem marcar golos: entre a sua estreia, a 3 de Dezembro de 2005, diante do Olympique Lyon, e o seu primeiro golo, diante do AS Mónaco, em 10 de Fevereiro de 2007.

– Viu 5 cartões amarelos.

 
– No mesmo período, efectuou ainda 5 jogos na Taça de França – 4 vezes titular –, 3 na Taça da Liga – sempre titular e 6 na Taça UEFA – 3 como titular, 2 completos.
– Apontou 2 golos na Taça de França: ao Vermelles, fora, em 2005/06 ; e ao Valenciennes, casa, em 2006/07, que valeu uma vitória por 1-0 e o apuramento para os quartos-de-final da competição.

 
– Fez ainda 7 partidas pela equipa de reservas do Paris Saint-Germain, que disputa a CFA, 4º escalão do futebol francês. Marcou um golo.

 
 Cristián Rodríguez pelo Peñarol

– 5 golos pelo Peñarol em 55 jogos, na divisão maior do futebol uruguaio, onde actuou entre 2002 e 2005.

– Dos 5 golos que apontou 3 foram apontados em casa; 2 fora de casa. 4 com os pés e 1 de cabeça. Todos os golos foram apontados nas segundas partes, com a curiosidade de três terem sido apontados no último minuto do jogo.

– Em 2004 apontou um golo na Taça Libertadores – diante do Strongest, em casa – e um na Copa Sul-Americana – diante do Cerro Porteño, fora. Ambos os golos foram apontados com os pés e nas segundas partes dos jogos.

 
Cristián Rodríguez pelo Uruguai

– 2 golos em 20 jogos pela Selecção principal do Uruguai. Nesses 20 jogos, Rodríguez soma 7 vitórias, 7 empates, 6 derrotas.

– Os seus 2 golos aconteceram nas segundas partes dos jogos: marcou diante da Argentina (derrota 2-4), a 9 de Junho de 2004, aos 63 minutos, em jogo da fase de qualificação para o Mundial 2006; e apontou, aos 87 minutos, um dos golos da vitória do Uruguai sobre a Venezuela (4-1), a 7 de Julho de 2007, na Copa América.

– A sua estreia pela Selecção ocorreu na Copa América de 2004, diante do México, a 7 de Julho de 2004. Jogou os 90 minutos no empate a dois golos.

– O seu último jogo pelo Uruguai foi no passado dia 6 de Fevereiro, num particular diante da Colômbia. Entrou ao intervalo e viu um cartão amarelo, num empate a dois golos.

 

fotos © Record / AFP – Getty Images


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.