Posted 13/08/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

De um Dragão incansável até ao grande amor do Papa passando pelos primeiros apontamentos de Alemanha e França

 

 

1.  O mesmo Porto de sempre. Começa mais uma época futebolística em Portugal e a ambição azul-e-branca mantém-se intacta. Como é habitual, o FC Porto venceu mais uma Supertaça Cândido de Oliveira. A 5ª consecutiva, a 20ª da sua história. O jogo em si não foi muito complicado. Deixou, porém, vários bons apontamentos: desde Licá, que deu profundidade na ala, ajudou a fechar e provou a sua polivalência com um golo ” à ponta-de-lança “, a um Lucho muito esclarecido na sua nova função, como “10”, solto atrás de Jackson, passando pelo apoio ofensivo de Fucile, os cruzamentos de Varela, as finalizações do Cha Cha Cha e o trabalho consistente da dupla Fernando-Defour. Muito Porto, isto sem esquecer aqueles que entraram na 2ª parte e que deixaram um bom sabor de boca (Josué e Quintero). Vencer é sempre importante, mas fazê-lo com estilo é sempre melhor. Não foi um Porto brilhante, de luxo, mas foi o suficiente para deixar os seus adeptos entusiasmados nesta altura da época.

2. Leonardo Jardim e um Sporting diferente. Nem tudo está perfeito no mundo do leão. No entanto, o último jogo de pré-temporada, que terminou com uma concludente vitória sobre a Fiorentina (3-0), mostrou um Sporting diferente face ao da última época. Para melhor. Leonardo Jardim tem trabalhado com afinco e nota-se que há ali dedo do treinador. A forma como a equipa parece mais activa em campo, consegue ser agressiva na tentativa de recuperar a bola, a maneira como recorre às faltas estratégicas para travar o adversário, a união dos alas aos laterais para tentar tapar melhor os corredores laterais…isto tudo são indicativos de um Sporting mais vivo. Já não se encontra amarrado aos fantasmas de um passado recente. Até ver, nota-se que existe uma simbiose entre treinador e jogadores e entre todos estes elementos e os adeptos. Vai ser precisa muita paciência porque este é um trabalho de reestruturação que leva o seu tempo. Se Jardim conseguir afinar a máquina, pode ser elevado à condição de herói para os lados de Alvalade.

3. 45 minutos de flamenco num estádio de futebol. Os jogos particulares valem o que valem. Nem toda a gente tem paciência para os ver. Os argumentos são credíveis, em vários casos. No entanto, há curiosidade em observar o que valem certos projectos, certas equipas. Este fim-de-semana deu para espreitar o novo Sevilha de Unai Emery. O cartaz era apelativo: jogo em Old Trafford contra um Manchester United, que mesmo sem boa parte dos craques, iria disputar o jogo com todo o brio e honra, como sempre o faz no mítico Teatro dos Sonhos. E o que se pode dizer acerca do Sevilha é que cumpriu na perfeição com o plano: encantar parte da Europa menos importada com os duelos de Liga do Bayern e PSG. Pelo menos nos primeiros 45 minutos, os andaluzes praticaram flamenco em forma de jogo de futebol. Pegaram na bola, com ela saíam à vontade do seu espaço defensivo e encontravam, invariavelmente, maneira de chegar à frente jogando de pé para pé. A mobilidade e o entendimento do trio Víctor Machín-Marin-Bacca foi absolutamente notável. O 2º golo então é uma masterpiece futebolística. Houve ainda oportunidade para rever um lateral-esquerdo entusiasmante (Alberto Moreno), médios de grande futuro como Kondogbia e Rabello ou um lateral português sem grande experiência, à procura de espaço, mas com alguns cruzamentos interessantes (Diogo Figueiras). No fundo, importa destacar sobretudo a maneira como este Sevilha se impôs, com bola, em pleno Old Trafford. Com todo o descaramento, com uma estratégia bem delineada desde início, se obteve um resultado motivante. Este Sevilha de Emery, versão 2.0, tem muito boa pinta!

4. Ribéry rei de Munique (e do mundo?). Na estreia de Guardiola para o campeonato perante a exigente tribuna bávara, o Bayern não defraudou. Apesar da 2ª parte ter sido pouco mais que razoável, o campeão europeu mereceu a vitória sobre o Borussia Moenchengladbach (3-1). Para mim voltou a sobressair um jogador, tremendo neste ano de 2013. Falo de Franck Ribéry. A maneira como teleguia os seus passes, como conduz a bola com grande inteligência e se safa dos adversários em espaço curto, usando a sua técnica, é notável. É um jogador de qualidade com bola no pé, inteligente nas movimentações ofensivas e cada vez mais sensível ao momento de transição defensiva. Apesar de Messi e Cristiano Ronaldo, Ribéry merece, indubitavelmente, os prémios de melhor da Europa e do Mundo em 2013. Pode ser uma opinião discutível (bem sei que Messi e CR7 são superiores em termos individuais), mas este ano do francês merecia mais do que um prémio. Ele ganhou três títulos, incluindo o mais importante de todos. Messi ganhou um campeonato, onde foi genial, sim senhor, mas falhou redondamente na prova-rainha (a Champions, claro está). Ronaldo foi o ganha-pão do Madrid, mas não conquistou um único título. Qual a importância deles para as suas equipas? Imensa. São o factor que desequilibra. Ribéry pode não marcar tantos golos, mas experimentem olhar para os seus números e digam que ele não foi parte decisiva deste ano de sonho do Bayern. Parece-me impossível…

5.  Dortmund regressa em força e com um reforço letal. Também o Borussia Dortmund entrou em grande na Bundesliga 2013/14. Na deslocação ao terreno do Augsburgo, houve algo de pragmatismo na maneira como os borussers chegaram à vantagem, com assistência de Schmelzer, para a entrada de Aubameyang no espaço central. A equipa controlava, é certo, mas chegou a ceder a posse em alguns momentos aos homens da casa. Na 2ª parte, porém, o Borussia foi letal e “matou” o jogo. Mais uma vez graças ao reforço proveniente do Saint-Étienne: Pierre-Emerick Aubameyang fez mais dois golos, provando o seu instinto matador. Jogando de fora para dentro, o gabonês consegue ser um jogador letal, pela maneira como foge às marcações e finaliza. Foi ele a grande figura de um Dortmund autoritário e eficaz, seguramente a equipa mais capaz de pôr um travão ao teórico domínio bávaro.

6. Schalke-Hamburgo, pura Bundesliga. Foi o jogo mais emocionante da 1ª jornada do campeonato alemão. Schalke 04 e Hamburgo empataram a 3, numa partida onde os ataques se superiorizaram a duas defesas a necessitar de várias afinações. Do lado dos de Gelsenkirchen, notórias dificuldades para construir jogo no 1º tempo, evidentes sobretudo a partir do momento em que o talentoso Draxler saiu lesionado. A equipa chegou cedo ao 1ª golo (Huntelaar) mas depressa sofreu a reviravolta. Van der Vaart e Beister apontaram os golos, depois de dois excelentes trabalhos nas alas. Aliás, o Hamburgo desequilibrou bastante por fora, com especial evidência para os laterais Diekmeier e Jansen. No 2º tempo, Sobiech fez, após canto, o 3-2 para o Hamburgo. A equipa nortenha estava mais forte, no entanto, a entrada de Szálai para perto de Huntelaar fez crescer o Schalke, que chegaria ao empate precisamente através do reforço húngaro. Foi um jogo muito interessante, de resultado justo e onde vimos jogadores em excelente momento (por exemplo, Huntelaar ou Van der Vaart) e outros que tiveram uma tarde para esquecer (Matip, Neustädter ou Badelj).

7. Mónaco e Marselha: 2 maneiras diferentes de atacar um título. Subasic; Fabinho, Ricardo Carvalho, Abidal, Kurzawa; Toulalan, Obbadi; Ocampos, James, Ferreira-Carrasco; Falcao. Sem Moutinho, aparentemente a contas com um problema físico, Claudio Ranieri decidiu apostar neste “onze” na estreia na Ligue 1, em Bordéus. Venceu por 2-0, com golos do suplente Rivière e de Falcao, ambos nos últimos 10 minutos. Curiosamente, o único período em que se viu um Mónaco aceitável foi na 1ª parte. A equipa de Ranieri pegou na bola e perante um adversário agressivo na pressão conseguiu criar alguns lances de perigo, sobretudo graças à capacidade de desequilíbrio de elementos como James, Ferreira-Carrasco ou o interessantíssimo lateral-esquerdo Kurzawa (muito boa projecção ofensiva). Nos últimos 45 minutos, porém, o Bordéus teve mais iniciativa e foi mais insistente, sobretudo através de Obraniak e do móvel Saivet. Faltam no entanto a esta equipa jogadores capazes de decidir com maior eficácia no último terço. Naturalmente que um Mónaco mais pragmático, mais à imagem de Ranieri, não desaproveitou a oportunidade e foi letal nas poucas situações que teve. Um James discreto no 2º tempo deu lugar a Rivière e a equipa ganhou maior poder ofensivo. E 3 pontos importantíssimos (no entanto conta como 1, porque o Mónaco começou com 2 negativos) a abrir o campeonato. Já em Guingamp, o histórico Marselha, sem os milhões dos rivais parisienses e monegascos, brilhou sobretudo nos primeiros 20 minutos, altura em que resolveu o jogo. Tremendo o reforço Gianelli Imbula no centro do campo, recuperando bolas e iniciando as jogadas dos dois primeiros golos. Outros reforços em destaque foram o talentoso extremo Dimitri Payet (2 golos) e o jovem lateral-esquerdo Benjamin Mendy (19 anos), muito forte no apoio ofensivo. De resto, fica a impressão de que este OM é mesmo candidato aos primeiros lugares. Em termos ofensivos, com jogadores Ayew, Payet, Valbuena ou Gignac, consegue desequilibrar facilmente. No meio-campo, ganhou força e saída de bola com a incorporação de Imbula. Atrás, pese embora uma ou outra falha, estão 4 titulares fortes e um guarda-redes que salva pontos. Este Marselha promete…

8. Grenier & Gourcuff: sociedade de talento. Grenier cresceu muito na última época onde, a par de Lacazette, foi o jogador mais destacado. Neste início de época, porém, ainda apareceu melhor: sai a jogar com uma facilidade tremenda, distribui jogo e chega às zonas de finalização com grande perigo. Aos 22 anos, este destro atingiu um patamar de excelência notável. Junto a ele houve, no entanto, uma novidade enorme neste primeiro jogo do campeonato (triunfo por 4-0 sobre o Nice): Yohann Gourcuff. A eterna promessa do futebol francês, quase eclipsado desde a brilhante passagem por Bordéus, renasceu momentaneamente este fim-de-semana, com uma exibição de classe, conjugando-se na perfeição com o talento anteriormente referido. Gourcuff jogou colado à ala esquerda e foi a partir daí, muitas vezes de fora para dentro, que foi desequilibrando. Apontou um golo extraordinário na cobrança de um livre directo e fez duas assistências numa noite que ele pretende repetir por mais vezes nos próximos tempos. Agora fica a questão: será possível isso acontecer? Sinceramente, não sei. Mas para bem dos nossos olhos, seria desejável que esta sociedade continuasse a espalhar magia pelos relvados franceses…

9. Zakaria Bakkali e uns detalhes de génio. Está a ser uma das boas novidades deste início de época na Europa. Zakaria Bakkali, nascido em 1996, promete ser um dos próximos craques da nova geração de futebolistas belgas que mais parecem feitos em laboratório. Bakkali tornou-se este fim-de-semana no jogador mais jovem de sempre a facturar três golos num jogo da Eredivisie. É um facto assinalável, mais ainda quando se tratou de um hat-trick de golos bonitos. Fortíssimo no um-para-um, com uma técnica apurada e uma coragem para assumir acções de risco, o extremo belga tenta muitas vezes a diagonal, de forma a poder utilizar o seu remate colocado, seja de pé esquerdo ou de pé direito, para decidir jogos. Joga preferencialmente na ala direita, se bem que também possa aparecer do lado esquerdo (foi, aliás, nesta ala onde surgiram 2 dos 3 golos da goleada frente ao NEC este fim-de-semana). Está convocado para o jogo da selecção A belga, amanhã, frente à congénere francesa (embora, segundo últimas informações, lesionado). Uma prova de confiança inabalável no futuro deste miúdo. Sigam-no quando puderem, vai valer a pena!

10. Um Ciclón abençoado por um Deus-maior. Talvez por ser o clube do Papa, eu diria que este San Lorenzo versão Apertura-2013 parece abençoado por um Deus-maior. Quanto mais não seja pelo Deus do futebol (vá lá, vamos supor que esta entidade existe mesmo…). Na verdade, a impressão que ficou da equipa orientada por Juan Antonio Pizzi nas duas primeiras jornadas do Torneio Apertura foi bastante positiva. Este fim-de-semana, triunfaram no sempre difícil Cilindro de Avellaneda perante o Racing, por 3-0. De facto, a exibição do San Lorenzo mostrou uma consistência e uma qualidade futebolística impressionantes. Tremendo início de campeonato do ponta-de-lança Cauteruccio (3 golos), dos médios Mercier e Ortigoza, em especial deste último, do desequilibrador Ignacio Piatti e dos miúdos Correa (médio-ofensivo/avançado de muito talento) e Villalba (grande golo esta jornada). Isto num grupo que ainda possui jogadores experientes como Romagnoli, Cristian Álvarez, Cetto ou Gentiletti e outros prontos a saltar para o futebol europeu como Buffarini, Más ou Alan Ruiz. Um grupo equilibrado, talentoso, que joga com muito critério e que é, no fundo, um exemplo perfeito de equilíbrio entre a experiência dos veteranos e a irreverência da juventude. Para mim, são, neste momento, o maior candidato à conquista do título. Veremos se confirmam este estatuto nas próximas jornadas…

 

 


Francisco Pinho Sousa