Posted 11/06/2013 by Luís Filipe Cristóvão in Convidados
 
 

Diz-me em que baseias a tua confiança…

Lúcio-Antunes
Lúcio-Antunes

… e dir-te-ei o que penso do teu treinador. Um exercício entre o Cabo Verde de Lúcio Antunes e a Angola de Gustavo Ferrín.

É pouco provável que venhamos a encontrar uma seleção lusófona no playoff de acesso ao Mundial 2014 da Confederação Africana. Cabo Verde começou esta qualificação da pior forma possível, perdendo na Serra Leoa e, em casa, com a Tunísia, ainda antes do brilharete na CAN 2013, Angola não consegue encontrar forma de vencer uma partida, contando com quatro empates em outros tantos jogos disputados. No último fim-de-semana, porém, podemos assistir a exibições confiantes de ambos os conjuntos, com os Tubarões Azuis a vencer a Guiné-Equatorial por 2-1 e os Palancas Negras a empatar em casa com o Senegal a uma bola (o que não seria mau, se conseguissem bater outros adversários potencialmente mais frágeis).

Lúcio Antunes continua a gerir da melhor forma possível o talento que tem à sua disposição. Entre a equipa conhecida na CAN 2013 e a apresentada no encontro desta semana, salta à vista a transformação do corredor central da defesa. Sem Nando, que abandonou o futebol internacional, e Fernando Varela, indisponível para esta partida, o técnico cabo-verdiano chamou à titularidade duas caras conhecidas da Segunda Liga portuguesa. Kay, do Belenenses, e Gegé, do Marítimo B. A dupla não apresentou dificuldades para assumir o controlo defensivo de uma equipa em que tudo parece funcionar sem surpresas para os jogadores. O posicionamento de cada atleta está pensado e estruturado em função das necessidades da equipa, sendo por isso que, de cada vez que os Tubarões Azuis entram em campo, se sente de imediato que aquele conjunto de onze atletas tem noção do que precisa de fazer para vencer. Arriscaria a dizer que a CAN fortaleceu, enormemente, a posição de Lúcio Antunes no seio do seu grupo. Sendo um técnico que compreendeu como fazer parte do grupo que liderava, conduzindo-o ao sucesso do apuramento para a maior competição africana, acabou aprovado pela forma como retirou dos seus jogadores capacidades para se enfrentarem num grande palco. É por isso que, seja no Estádio da Várzea, na Praia, ou no Estádio Nélson Mandela, em Porth Elizabeth, os Tubarões mostram, calmamente, os seus dentes afiados. Uma pena o apuramento para o Mundial não ter começado doze meses mais tarde.

Gustavo Ferrín Angola EurosportDurante a primeira parte do Angola – Senegal, um jornalista africano expressava no Twitter a sua admiração pelas transformações visíveis na equipa dos Palancas Negras, se comparadas com a mesma seleção que marcou presença na CAN 2013. Mas se o treinador e a maioria dos jogadores são os mesmos, o que realmente mudou na estrutura angolana? O processo de jogo dos Palancas Negras é um bom caso de estudo sobre o que fazer e não fazer no futebol. Uma seleção que vive, há anos, com um horizonte de objetivos demasiado elevados para a sua realidade, sofre, obviamente, uma constante pressão para se superar. Ora, pelo que podemos entender dos resultados, isso não tem sido positivo. Talvez a equipa angolana tivesse precisado do insucesso da CAN 2013 – onde tudo o que podia correr mal, correu pior – para que o seu técnico ganhasse força no seio da equipa (parece contraditório, mas não é). Gustavo Ferrín chegou em julho de 2012 ao comando dos Palancas e teve pouquíssimo tempo para apreender o que se vivia no Girabola. As suas escolhas iniciais iam transmitindo isso mesmo, levando a que, apesar de algumas boas notas deixadas durante a preparação, na CAN 2013, Angola apresentasse uma já habitual descoordenação defensiva – o que não é, de todo, um sinal habitual do que vamos vendo no seu campeonato nacional. Precisou o técnico de tempo para compreender as melhores opções para o seu onze – longe de outras influências que foram sendo notórias nos Palancas Negras dos últimos anos – , e com poucas alterações nos jogadores utilizados, a equipa ganhou outra face. Mesmo que isso não chegue para que Angola chegue a um Mundial – sendo realista, Angola não tem valor, ainda, para estar entre as dez melhores seleções do continente -, sente-se que há uma semente prestes a nascer no grupo dos Palancas. Mesmo que no Estádio 28 de Setembro, em Conacri, ou no Estádio 11 de Novembro, em Luanda, a equipa que entra em campo ainda tenha alguma desconfiança no olhar.

 

 

Fotos: LA @gbissau.com/ GF @Eurospost.com


Luís Filipe Cristóvão

 
Escreve sobre futebol no Apostas Online e no Futebol Mundial e sobre basquetebol no Planeta Basket. Colaborou com Falamos Futebol, zerozero, Planeta do Futebol, In Bed with Maradona, PortuGoal, Planeta Basket, Solobasket, European Prospects e Swish Appeal. Trabalhou para a FIBA Europa no Campeonato Europeu de Sub-16 Feminino (2012). Tem seis livros publicados (poesia e literatura infantil) e é diretor da Revista Literária Sítio.