Posted 17/04/2013 by João Gonçalves in Convidados
 
 

Doutor Sócrates. O Ídolo Ausente.

Doutor Sócrates. O Ídolo Ausente.
Doutor Sócrates. O Ídolo Ausente.

É

complicado imaginar como eram as semanas em que os jogos da UEFA decorriam todos na mesma noite e divididos em três Taças. Hoje, o mais difícil é não termos um jogo de futebol para ver em directo durante a época. Quem descobriu a paixão pela bola nos anos 80, como eu, sabe que mais depressa nos lembramos de um golo, de um jogo, de uma equipa, de um jogador dessa época do que de tempos mais recentes. O futebol era consumido de forma feroz porque não havia muita oferta e quando surgiam os directos em um dos dois canais de televisão pública tudo era absorvido ao pormenor.

Tudo isto não se deve a um louvor à saudade, nem é mais uma declaração do estilo naqueles tempos é que era bom. Esta introdução serve apenas para contextualizar a idolatria e admiração por um jogador de futebol. Há mais de 30 anos não tínhamos muitas opções para escolhermos os nossos jogadores favoritos em equipas de meio da tabela ou equipas menos mediáticas. Só nos chegavam à vista os melhores dos melhores. Foi assim que, no verão de 1982, com meia dúzia de jogos, conheci um dos jogadores mais completos, carismáticos e elegantes de sempre!

A figura em campo de um atleta alto a transpirar classe até a andar, um líder nato a comandar a melhor equipa de futebol que tinha visto até ali, deixou-me logo fixado. A camisola amarela e o calção azul pareciam ficar melhor nele, a braçadeira branca fazia ali todo o sentido. O ar rebelde de cabelo comprido, a barba crescida e o encanto do número 8 nas costas e no calção. Tão especial que os comentadores o tratavam pela alcunha: o Doutor. Falo de Sócrates. Nos anos 80 falar de Sócrates era falar do melhor que havia no futebol. Hoje, o nome próprio transformado em apelido traz memórias tristes. É o tempo a passar.

Viver aquele Mundial de Espanha marcou a vida de qualquer adepto de futebol. A informação extra sobre jogadores e selecções não era muita e Sócrates jogava no Corinthians. Das competições brasileiras pouco ou nada se sabia, imagens de lá nem vê-las. Neste contexto, é fácil adivinhar que um dos meus melhores amigos naquela altura se chamava jornal A Bola, onde aprendi que o capitão daquela bela equipa era uma figura de destaque no seu País. Idolatrado no Corinthians, respeitado por colegas e dirigentes graças à sua luta pela Democracia Corinthiana, o movimento que ficou célebre por se preocupar com a liberdade dos jogadores e o aumento da sua influência no clube.

Sócrates era Doutor de verdade. Tirou o curso de Medicina antes de chegar à Selecção mais famosa de todos os Mundiais. Doutor Sócrates conquistou o respeito na base do esforço e trabalho, sem exageros nem favores. No auge da sua carreira nunca virou costas a outras artes. Participou em discos, entrou em novelas, fez teatro, teve uma vida ligada à cultura.

O mais curioso é que, à partida, não seria nada fácil explicar quando é que se deu o clique que transformou o “8” do Brasil no meu ídolo. Mas, na verdade, é muito fácil! O Brasil defrontava a União Soviética, uma Selecção sempre forte, e perdia por 0-1 graças a um frango épico de Waldir Peres, um figurão daquele Mundial de Espanha. De prato na mão, a olhar para a televisão à hora de jantar, vejo Sócrates pegar na bola longe da baliza do lado esquerdo do Ramón Sánchez Pizjuán em Sevilha. Sócrates finta um, finta o segundo soviético, sempre a descair para a direita, até que remata forte cruzado, de fora da área, e bate o monstro Dasaev! Um golão inesquecível. Depois, Éder completou a remontada.

A Tragédia do Sarriá: Brasil Arte 2 X 3 Itália Pragmática

A “Tragédia” do Sarriá:
Brasil Arte 2-3 Itália Pragmática

Seguiram-se as goleadas à Escócia e à Nova Zelândia. O Brasil exibiu em Sevilha um futebol magnifico, Sócrates a jogar era um regalo para os olhos. O modelo competitivo do Mundial era muito diferente do actual. Havia uma 2ª fase com grupos de 3 equipas para apurar os semifinalistas. O Brasil teve que enfrentar os rivais argentinos e resolveu o duelo com um claro 3-1. Parecia que estava feito o mais complicado. Só que a seguir veio aquele jogo com a Itália. Sócrates marcou mas, como se sabe, aquela era a tarde em que (re)nascia outra lenda: Paolo Rossi.

Nessa tarde, percebi que o futebol não tem lógica. Não tem justiça. O facto de uma equipa ser liderada por uma das figuras mais carismáticas da história do futebol não chega para se sagrar campeã. Foi um choque! Acho que cheguei a verter uma lágrima de desespero à medida que ia percebendo que aquele Brasil não ia ser campeão. Mas há uma imagem que ainda hoje pesa no meu subconsciente: Sócrates, no fim do jogo, a aparecer, só por uns segundos, de camisola na mão e com a mesma classe de sempre a caminhar para fora do Mundial. Era a imagem de um homem de consciência tranquila, de bem consigo, ciente que fez tudo para ser feliz e dar felicidade a um País inteiro. O futebol não o escolheu para chegar ao paraíso. Aliás, um ano depois, também não conseguiu ser campeão no torneio sul-americano. E, em 1986, já não estava no auge e até falhou um penalti no desempate diante da França.

É fácil e natural adorar Maradona com a Taça de campeão Mundial na mão. Difícil é ser-se idolatrado sem nenhuma consagração ao nível de um Mundial. Sócrates foi o meu ídolo de infância que menos vi em acção. Isto, só por si, já diz muito da aura de campeão com que passou por esta vida. Partiu em 2011. Vale bem a pena investigar e descobrir a sua biografia.

 

«Não sou um atleta. Sou um artista do Futebol», Sócrates.

Sócrates: Brasil 2-3 Itália

 

Sócrates: Brasil 3-1 Argentina

 

Sócrates: Brasil 4-0 Nova Zelândia

 

Sócrates: Brasil 4-1 Escócia

 

Sócrates: Brasil 2-1 U.R.S.S.

 

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira

 

 
foto de abertura © twb22.blogspot.com
 


João Gonçalves