Posted 07/02/2013 by Gilmar Siqueira in Convidados
 
 

Em busca de um novo Mkhitaryan. Uma viagem às profundezas do futebol arménio.

Em busca de um novo Mkhitaryan. Uma viagem às profundezas do futebol arménio.
Em busca de um novo Mkhitaryan. Uma viagem às profundezas do futebol arménio.

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enrikh Mkhitaryan é a sensação do Leste Europeu. O arménio é o artilheiro da Liga ucraniana (UPL) com 18 golos em 17 jogos pelo impecável líder Shakhtar Donetsk e vive a melhor fase da sua carreira. Apesar do interesse de outros clubes, principalmente da Europa Ocidental, ele deve permanecer sob o comando de Mircea Lucescu em Donetsk. O seu sucesso foi tão grande que inspirou outros clubes a seguirem o mesmo caminho do Shakhtar e a procurarem reforços no futebol arménio.

 

Os candidatos a «novo Mkhitaryan»

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e 2011 para cá houve um «boom» na demanda por jogadores da liga nacional arménia. Isso tem relação não só com Mkhitaryan, mas também com o desempenho da Selecção da Arménia nas eliminatórias para o Euro 2012. Faltou pouco para os comandados de Vardar Minasyan obterem a qualificação e as suas actuações foram encantadoras. Para abordar este tema, contei com o apoio de Rui Malheiro:

A procura de um novo Mkhitaryan, um dos melhores jogadores fora das ligas «top5», parece-me ser a razão principal para o despertar de alguns clubes em relação ao futebol arménio. É um jogador nuclear do Shakhtar Donetsk e, na minha opinião, o jogador com mais qualidade e mais completo da liga ucraniana. Mkhitaryan é, igualmente, o símbolo de uma nova geração do futebol arménio e o seu crescimento promoveu uma renovação profunda na Selecção, extremamente rejuvenescida. E da fuga do último lugar das qualificações europeias para o Europeu e o Mundial, a Arménia mostrou, em 2010 e 2011, capacidade para lutar, praticamente até o fim, pela qualificação para o Play-off de acesso ao Europeu. A luta por uma vaga no Mundial 2014 ainda está em aberto, ainda que se revele extremamente difícil, mas o alargamento das Selecções qualificadas para o Euro 2016 poderá ser a coroa de glória desta geração. Henrikh Mkhitaryan, nessa altura, terá 27 anos e, muito provavelmente, estará a jogar num clube europeu de topo.
Jogadores a serem destacados: Henrikh Mkhitaryan é, de longe, a principal figura do futebol arménio. Yura Movsisyan, 25 anos, avançado com um percurso no futebol americano e dinamarquês, destacou-se na Rússia no FK Krasnodar e dará o salto para o Spartak Moscovo. O médio defensivo Karlen Mkrtchyan, 24 anos, e, principalmente, o ala esquerdo Gevorg Ghazaryan, 24 anos, são jogadores determinantes na Selecção e no Metalurg Donetsk, o clube pioneiro na prospecção em território arménio e que descobriu Mkhitaryan.
Aras Özbiliz, extremo/avançado, de 22 anos, jogador de origem turca e que despontou no Ajax, tem estado em foco nos russos do Kuban. Edgar Malakyan, ala de 22 anos, que vinha a destacar-se no Pyunik, já deu o «salto» para o Viktoria Plzen, enquanto que Levon Hayrapetyan, 23 anos, jogador capaz de fazer todo o corredor esquerdo, destacou-se no Lechia Gdansk, mas uma lesão grave deve afastá-lo dos relvados até ao fim da temporada.

Só para terem uma noção, vamos recapitular as transferências mais recentes de jogadores do campeonato arménio para o Leste. Há de se notar duas coisas que ficam muito claras: o Pyunik é a grande fonte de jogadores e a Ucrânia é o mercado consumidor (ao menos, o inicial). Mas por que isso acontece? Bom, a respeito do Pyunik, trataremos na segunda parte da análise. Portanto, falarei agora da razão para as equipas da UPL procurarem estes atletas.

A busca tem muito a ver com Mkhitaryan. Em 2009, o jovem meio-campista deixou o Pyunik para defender as cores do Metalurg Donetsk, após marcar 11 golos em 10 jogos. Mas não foi só isso. Desde que estreou, em 2006, pela equipa de Yerevan, então com 17 anos, o garoto já se revelou um dos principais nomes do campeonato nacional. No Metalurg não foi diferente. Marcou logo que debutou na vitória por 3-0 sobre o FK Partizan Minsk (equipa da capital bielorrussa que actualmente se encontra na terceira divisão) na Liga Europa.

Na temporada 2010-2011, com 21 anos, foi nomeado capitão do Metalurg – jogador mais jovem a atingir tal status dentro do MetaDon. Só que nem essa estratégia bastou para mantê-lo com o uniforme azul. Em agosto de 2010, Mkhitaryan não mudou de cidade, mas de equipa, e passou a representar o Shakhtar Donetsk. De lá para cá foi evoluindo sob o comando de Lucescu até atingir o seu ápice. Muitos acreditam que isso começou na actual campanha, algo que discordo. Para mim, foi na temporada passada, quando o técnico romeno passou a utilizá-lo mais centralizado na linha de 3 médios ofensivos, como «10» ou segundo avançado. O Shakhtar não estava a jogar bem e Mkhitaryan carregou o piano praticamente sozinho.

O Metalurg, por sua vez, desde que vendeu o «armenian star» tenta encontrar um substituto exactamente no mesmo local. Primeiro, em 2011, foram Gevorg Ghazaryan, Marcos Pizzelli e Karlem Mkrtchyan. Dos três, Pizzelli, brasileiro naturalizado arménio, ficou poucos meses e logo rumou ao Kuban. Ghazaryan, mesmo não sendo titular absoluto, tem muita qualidade e só precisa de mais tempo para brilhar. O único que rendeu prontamente foi Mkrtchyan, jogando tanto no centro de campo quanto no sector defensivo. É um marcador impecável.

Nesta temporada, o novato foi Artak Yedigaryan, de 22 anos. O extremo não convenceu e retornou ao Pyunik, emprestado até o fim da temporada. Davit Manoyan foi outro jogador que voltou a Yerevan após uma curta experiência internacional. Ele estava na Rússia. Foi contratado pelo Kuban, mas nem sequer se estreou pela equipa principal e acabou por ser emprestado.

 

Pyunik, o celeiro de craques arménios

Como foi dito anteriormente, o Pyunik é o principal berço das mais recentes promessas do futebol arménio. A equipa azul de Yerevan tem nada menos do que 12 títulos nacionais, sendo 10 consecutivos conquistados de 2001 a 2010. Entretanto, nas duas últimas ligas, os comandados de Vardar Minasyan – o mesmo treinador da Selecção – ficaram para trás.

Assim sendo, perguntei a Rui Malheiro se tal queda de produção foi propiciada pela venda de jogadores e se o desempenho recente pode acabar por prejudicar a revelação de novas «pérolas». E ele disse-me o seguinte:

A queda de produção do Pyunik passou não só pela perda de seus melhores jogadores, como também pela aposta clara na formação, o que torna num «clube montra». Grande parte de sua equipa é formada por jogadores sub-21, o que faz com que acuse alguma inexperiência nos momentos decisivos, como também tem vindo a jogar apenas com jogadores arménios, numa altura em que a maior parte das equipas têm vindo a reforçar-se com estrangeiros. Se alguns destes têm revelado falta de qualidade, os africanos Fofana e Yoro Lamine Lamine Ly foram determinantes para o título do Shirak.
Não acredito que a revelação de jogadores esteja comprometida. Aliás, os pontos anteriores mostram que o Pyunik continua a ser o maior viveiro de talentos do futebol arménio. E a sua estrutura não hesita em apostar em jovens, de 18 ou 19 anos, como titulares indiscutíveis. Ganham em termos competitivos por adquirir ritmo no campeonato principal, como também estão na «montra» para os prospectores que se deslocam a Yerevan. Para além disso, a maior parte destes jogadores tem percurso nas Selecções jovens e, em alguns casos, já chegaram à Selecção A.
Há muitos nomes interessantes no Pyunik: Grigor Hovhannisyan e Arman Hovhannisyan, 19 anos (defesas); Kamo Hovhannisyan, 20 anos, e Vardan Bakalyan, 18 anos (médios); Hovhannes Hovhannisyan, 19 anos, e Viulen Ayvazyan, 18 anos (avançados).

Esta clara aposta do Pyunik única e exclusivamente voltada para jovens atletas arménios pode ser considerada o verdadeiro estopim para a evolução do futebol no País. É difícil acompanhar a Premier League da Arménia – excepto para o Rui Malheiro, que vê praticamente todas as ligas do mundo -, portanto nos guiamos pelas transferências e pela adaptação dos jogadores às outras Ligas. E, recentemente, isso tem dado certo.

O mais incrível da «filosofia Pyunik» é que não há argumentos para contestá-la. Realmente o clube perdeu as duas edições mais recentes do campeonato, mas ganhou as 10 anteriores. É importante destacar que, até então, os jogadores cresciam e amadureciam na equipa, como foi o caso de Mkrtchyan, Pizzelli e Ghazaryan, que só depois de um frutuoso ciclo é que foram vendidos. Actualmente, as coisas mudaram um pouco. A busca é maior e os jogadores que são revelados partem cada vez mais jovens, obrigando Vardar Minasyan a trabalhar quase que exclusivamente com os mais inexperientes.

 

O que podemos esperar daqui para frente?

Pese o facto de ter mencionado, anteriormente, uma evolução no futebol do País, sabemos que esta abrange mais a Selecção do que o campeonato nacional. Com base nisso, e na saturação do mercado arménio, perguntei a Rui Malheiro se a demanda por jogadores do país pode diminuir ou se ainda é muito cedo para estipular quaisquer prazos:

Não creio que a tendência desaparecerá nos próximos tempos. É um mercado agradável, onde se pode contratar a preços baixos e onde existem vários talentos a despontar. Para além disso, a proximidade com a Rússia e a Ucrânia, por exemplo, torna-o num mercado apetecível, até em termos de adaptação do jogador. Agora, será normal a Liga perder qualidade – e já não é muita -, pois os clubes não têm capacidade para segurar os seus melhores jogadores. Para além disso, faltam argumentos financeiros para seduzir jogadores estrangeiros de maior qualidade, como também, do ponto de vista táctico e de treino, existem ainda bastantes lacunas, bem visíveis nas curtas experiências dos clubes arménios nas competições europeias.

Em suma, a constante busca por jogadores arménios deve seguir nos próximos tempos pelos motivos já elucidados anteriormente. E este é o ponto-chave ao qual queria chegar. O trabalho a longo prazo feito no País – sobretudo pelo Pyunik – demorou vários anos para surtir efeito. Praticamente não existiam clubes interessados (ou mesmo curiosos) para ver o que o ex-membro da União Soviética tinha a oferecer.

Tardaram basicamente dez anos (e dez títulos) para ver o Pyunik com bons olhos. O campeonato era tão inexpressivo que apenas isso cativou a atenção. Mas não foi a única coisa. O sucesso de Mkhitaryan no Metalurg e no Shakhtar, somado ao desempenho, em 2010 e 2011, da Selecção nacional, despertou um pouco mais de curiosidade e espírito inovador nos clubes do Leste. Mas por que apenas eles? Como disse Rui Malheiro, a proximidade com a Rússia e a Ucrânia torna a adaptação mais fácil e isso faz a diferença.

Ao cabo de tudo, fica a lição de que os jogadores arménios devem ser observados com mais atenção não só por olheiros como também pelos espectadores interessados em futebol internacional, porque, mais dia menos dia, eles podem vestir a camisa do seu clube e, como Mkhitaryan, despontar num campeonato de maior visibilidade e, ainda por cima, serem desejados por clubes de topo.

 
foto de abertura © 8productions


Gilmar Siqueira