Posted 19/02/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

Da magia negra do Dragão até a um novo Pibito passando pelas lições das nobres escolas do futebol.

Luciano Vietto
Luciano Vietto

1. A pérola africana e o goleador que não (se) cansa… O FC Porto jogou este fim-de-semana num ritmo a que gosto de chamar “descanso activo”. Mandou por completo no desafio frente ao Beira-Mar, não sofreu aflições atrás e foi eficaz na frente. Não precisou de insistir demasiado para conseguir construir uma vitória tranquila. Os golos foram apontados por Christian Atsu e Jackson Martínez, elementos com diferente protagonismo na carreira portista. Atsu é uma pérola que vai sendo trabalhada aos poucos. Leva tempo “construir” um jogador destes. Aperfeiçoá-lo, melhor dizendo. O golo deste último encontro mostra como também já consegue ser decisivo. Pega na bola, ao centro, longe da zona onde desborda com douta facilidade os adversários, e remata-a, de pé esquerdo, encaixada na gaveta de más memórias do guardião Rui Rego. Um momento tão bonito quanto simples. E o que dizer mais de Jackson, além de que estamos perante um colosso, um fenómeno de área? Tem tido um rendimento extraordinário para um estreante no futebol europeu. Absolutamente soberba a execução aos aveirenses: recupera a bola a meio-campo (mostrando que também ajuda atrás), desmarca Moutinho, na direita, que depois o encontra na área, solto, esperando pela bola como um caçador que anseia pela passagem da presa, e este, com subtil finta, tira Hugo do caminho e faz baloiçar as redes. Mais um momento para coleccionar de Jackson “Cha Cha Cha” Martínez. 20 golos em 19 jogos na Liga. O rapaz não se cansa (nem nos cansa)…

2. Lima, Jesus e “autocarros”. O Estádio da Luz assistiu este fim-de-semana a um dos jogos mais aborrecidos da nossa Liga nos últimos tempos. Frente-a-frente um Benfica cansado e lento perante uma Académica muito bem montada atrás, puramente defensiva. O duelo foi mole, até entediante em alguns momentos e foi decidido com um penalti (um jogo daquele jeito só mesmo de bola parada…) aos 95 minutos. Alguns apontamentos há para contar, desde o rendimento apagado de André Almeida a trinco, com o meio-campo encarnado a pedir meças por Matic, o belíssimo jogo dos centrais e guarda-redes academista, mas fico-me por 3 ideias-chave: 1ª, Lima. Muito mérito do brasileiro nesta temporada. Tem sido o abono de família do Benfica em jogos complicados como este. Desde o melhor Saviola que Cardozo não tinha tão bom complemento. 2ª, a maneira como Jorge Jesus pareceu estranhamente apático nalgumas decisões que tomou. Com aquela 1ª parte deveria ter sido mais vigoroso e algumas coisas podiam ter mudado, quando muito, ao intervalo. 3ª e última, “autocarros”. Já confessei aqui que sou um admirador de futebol requintado. Mas também sou capaz de gabar e até admirar sistemas defensivos bem compactos. Quando não dá para mais, aceito a defesa do resultado. O que o Olhanense e a Académica fizeram nestes 2 últimos fins-de-semana, embora anti-espectáculo, é legítimo. Parafraseando Pedro Emanuel, “saber defender também é uma arte…”.

3. O professor e a juventude das noites triunfantes. Victor Hugo dizia que quando somos jovens, temos manhãs triunfantes. No caso dos jovens do Sporting, são mesmo noites triunfantes. Pelo menos a do passado sábado foi. O Professor (Jesualdo Ferreira) não teve medo de lançar às feras os seus mais imberbes alunos e estes corresponderam logo de início: aos 6 minutos, já Bruma e Tiago Ilori, ilustres jovens da nobre Academia leonina, tinham colocado o Leão em vantagem. Um é extremo, o outro central, muito potencial escorrendo nas suas veias (apesar da falha de Ilori que deu golo para o Gil Vicente). Mas não foram só eles que jogaram na equipa titular. Também o defesa Eric Dier e o médio Zezinho (brilhante neste jogo, equilibrou a equipa e deu sentido ao meio-campo) saltaram um patamar na sua evolução (no caso do primeiro já tinha acontecido, com Vercauteren ainda aos comandos). 4 titulares que, até há bem pouco tempo, só em sonhos imaginavam ter a possibilidade de jogar em simultâneo na equipa principal, num jogo de Liga. Agradeçam ao Professor aí da casa. Arriscou em prol de um futuro melhor para o Sporting!

4. Sangue novo no Berço. Para além do Sporting, há outro exemplo de aproveitamento perfeito de jogadores da equipa B na equipa principal. Falo-vos do Vitória de Guimarães. Fustigado pelas dívidas, o clube minhoto decidiu virar-se para a cantera. Para já, o resultado tem sido francamente positivo. Ontem, durante o encontro contra o Moreirense, cheguei à conclusão de que esses jovens, já utilizados com regularidade, têm ganho maturidade e vão crescendo em termos de preponderância dentro da equipa. Ricardo será, porventura, o mais destacado. Dono de uma técnica entusiasmante, baila com os adversários, levando-os numa dança inebriante até à linha, de onde geralmente tira bons cruzamentos. Está a crescer no um-para-um, está mais maduro, perde menos bolas. A evolução com a permanente titularidade tem sido notória. Depois temos outros dois jovens, que ganharam a titularidade nos últimos meses, e que têm rubricado, geralmente, partidas muito conseguidas: o central Paulo Oliveira e o médio Tiago Rodrigues. O primeiro esteve emprestado ao Penafiel (onde se destacou) e o segundo revelou-se na 1ª volta ao serviço da equipa B. Tal como Ricardo, vêm da cantera vitoriana. Oliveira joga sempre muito concentrado, projecto de central elegante, por norma bem posicionado. Tiago Rodrigues é um médio-centro com boa visão de jogo, capacidade criativa e bom remate. Têm pormenores a melhorar, é claro, mas o progresso que têm feito é indiscutível. Que bom é para o futebol português olhar para estes casos de sucesso em tempos difíceis. Como diz o povo, as crises também trazem coisas positivas.

5. Espanha noutro prisma: observando as equipas mais pequenas. Este fim-de-semana, confesso, além de resumos, não vi os jogos de Real Madrid, Barcelona ou Atlético de Madrid. Preferi ir ver como anda a Espanha dos pequenos. Aliás já vinha assistindo a vários jogos nos últimos tempos. Bom futebol, jogadores muito interessantes e, sobretudo, equipas sem medo de atacar. No fundo, há entretenimento. Afinal não é só em Inglaterra que os jogos são estimulantes.

6. Barrada-Castro-Colunga: um trio diabólico. No Getafe-Celta, brilharam estes 3 rapazes. Barrada, nº10 do Geta, fez uma exibição estrondosa, a provar que rapidamente pode dar o salto para um escalão superior. Rematador, bem a construir jogo, a distribuir para Colunga, esteve muito activo. Regressou da CAN muito motivado. Depois temos Diego Castro, experiente médio-ala espanhol, jogador tecnicista, rápido, capaz de aparecer também em zona de finalização. Marcou um golo e encheu o campo com o seu dinamismo. Por último, Adrián Colunga. Caindo na esquerda e fazendo movimentos para o centro, desconcertou a defesa do Celta de Vigo. Apontou um golo e criou mais 5 ocasiões, só na 1ª parte. Dinâmico, móvel, repentino e eficaz. O ataque do Getafe, em 45 minutos, mostrou que em Espanha não são só os Messis, Ronaldos ou Falcões que brilham.

7. Real Sociedad-Levante. Um belo despertar dominical assistir a este duelo de candidatos à Europa. Empataram 1-1, num jogo em que, mais uma vez, a Real Sociedad jogou praticamente toda a 2ª parte contra menos um. É uma equipa interessante, capaz de dominar o adversário e pressionar com as linhas subidas mas às vezes parecem faltar ideias e, sobretudo, eficácia. Tem uma excelente dupla no meio-campo (Markel Bergara-Illarramendi) e um lateral-direito forte, Carlos Martínez, dos melhores em Espanha. Apoia e dá profundidade e defende com muito critério. Lá na frente soltam-se os criativos: Chori Castro, Griezmann e Vela. Neste jogo, a Real terminou com 3 pontas-de-lança mas só isso. Oportunidades para marcar foram escassas. E tudo graças a um esquema defensivo do Levante que resultou na perfeição, em especial no 2º tempo. A equipa de Juan Ignacio Martinez (conhecido em Espanha como JIM) costuma jogar muito organizada, com uma dupla de meio-campo brilhante, que mistura trabalho “pica-pedra” e classe na saída (Diop-Iborra). Na frente, não deu muito nas vistas. Martins esteve sempre muito escondido e até o playmaker Michel quase só apareceu para converter o penalti do empate. Defensivamente a equipa esteve bem, com destaque para os centrais (Ballesteros-Vyntra) e para o lateral, entrado na 2ª parte, Juanfran (limpou tudo). Apesar de ter mais posse e remates, o resultado é um castigo justo para a Real Sociedad. E um prémio para o conjunto de Valência, que continua a mostrar boas performances tácticas.

8. A melhor escola francesa. Voltando ao tema das escolas, mas agora em França. Para vos falar de um case-study chamado Olympique Lyonnais. Pode não ter a força da equipa hepta-campeã mas continua a mostrar ao Mundo que há muita qualidade e talento a despontar nas escolas do clube. Este fim-de-semana venceram o Bordéus, fora de casa, por 4-0. Um jogo muito sólido, dominado na totalidade pela equipa de Remi Garde, que se sentiu muito confortável com a bola nos pés (acertaram 80% dos passes). Com Gonalons e Fofana a trabalhar no meio-campo (o primeiro mais defensivo, o segundo a sair com bola e a tentar o remate) e Grenier mais próximo de Gomis, na 2ª linha, o Lyon funcionou na perfeição. Um trio de jovens jogadores que trazem uma nova vida ao “onze” do Olympique. Fofana foi contratado esta época, mas Gonalons e Grenier pertencem à casa. Assim como, por exemplo, Lacazette, que tem feito uma época sensacional. E no banco vão-se sentando Ghezzal ou Benzia. Provas de como o trabalho de formação continua a ser bem feito para os lados dos Alpes.

9. O 3º golo do Liverpool e um cheirinho a Coutinho… Foi uma dos momentos mais vistosos do fim-de-semana. Uma jogada colectiva a fazer lembrar o Barcelona. Entre José Enrique, Suárez e Sturridge, com finalização do primeiro, e ao primeiro toque, se construiu estupenda jogada. Aquilo foi o Liverpool de Rodgers no seu melhor. Diria mesmo noutro registo, para lá do melhor que já tínhamos visto esta época. Isto num jogo totalmente dominado pelo Liverpool. Ganharam 5-0 ao Swansea mas podiam ter sido mais, tal o número de oportunidades. Futebol de posse, asfixiante e com momentos técnicos brilhantes. Será que a titularidade de Coutinho teve algo que ver? Um bocadinho, sim…

10. Luciano Vietto. Para terminar a longa corrida de fim-de-semana, vamos até ao início deste mesmo. Mais concretamente ao começo de madrugada de sexta-feira para sábado. Racing de Avellaneda-Argentinos Juniors. Vi novamente magia a acontecer no Cilindro de Avellaneda (nome pelo qual é carinhosamente tratado o Estádio Juan Domingo Perón). Magia que transbordou dos pés de um dos jovens craques que vão aparecendo nas canchas argentinas. Falo de Luciano Vietto. O craque do Racing pegou na bola na esquerda, acelerou pelo meio de vários adversários e à entrada da área, como é seu timbre, atirou forte disparo, sem hipóteses para o portero contrário. Um movimento tão simples quanto belo, isto na sequência de uma bela exibição. É um avançado com boa mobilidade, forte disparo e aceleração em espaços curtos e médios. Uma pérola a nascer no “jardim” cilíndrico de Avellaneda. Para seguir com atenção nos próximos tempos!

 
foto de abertura © clarin.com


Francisco Pinho Sousa