Posted 12/03/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

Da nobre freguesia de Benfica à Bella Firenze passando pelo País Basco, Ruhr ou Merseyside.

Real Sociedad de Champions.
Real Sociedad de Champions.

1. Líder com fome de golos. Depois de uma jornada dupla de baixo rendimento (Beira Mar e Bordéus), o Benfica voltou às exibições de grande qualidade e às goleadas. A vítima foi um tenro Gil Vicente (5-0). O jogo foi simples muito por culpa de uma formação de Barcelos errática a defender, tanto do ponto de vista colectivo como individual. Mas, também é um facto, houve muito mérito de vários jogadores encarnados, que se esmeraram para corresponder neste encontro: para começar, o melhor, Ola John. 2 assistências, numa exibição de grande qualidade. Partindo da ala para dentro, foi um foco de desestabilização para a defesa gilista. Mas houve outros: os laterais, Maxi e Melgarejo, que aproveitaram os corredores desprotegidos para atacar vezes sem conta e até marcar e os argentinos Enzo Pérez e Salvio, que brilharam com boas assistências e golos (no caso de Salvio). Como não poderia deixar de ser, Lima também fez o gosto ao pé, pela 12ª vez neste campeonato. No fundo, uma vitória tranquila, sem precisar de acelerar muito. Atacando por fora, com jogadores fortíssimos e terminando os lances, praticamente todos, em frente à baliza. Individualmente este Benfica é muito forte. Jorge Jesus tornou a equipa muito forte também do ponto de vista colectivo. E atenção, volto a dizer, a Ola John. Entrou mal mas trazia muito potencial dentro dele. Está a confirmá-lo.

2. 15 minutos de dança com Atsu e um longo bocejo. O FC Porto também venceu esta jornada. Foi uma vitória relativamente tranquila frente ao Estoril (2-0). Em 15 minutos tudo ficou resolvido. Os dragões entraram pressionantes, subindo bem as linhas, recuperando bolas em zonas altas e atacando com incisão os pontos débeis do adversário. Neste quarto-de-hora inicial, parece-me indiscutível referir Atsu como uma das figuras. Não marcou mas bailou com os defensores estorilistas e sacou alguns cruzamentos e um par de dribles bastante vistosos. O toque de bola, a destreza no um-para-um, a movimentação com ginga… tudo isto faz de Atsu um jogador interessantíssimo de acompanhar num jogo do FC Porto. Pode não ser tão regular como Varela ou Izmailov mas consegue arrancar essas jogadas mágicas que os companheiros raramente conseguem engrenar. O jogo valeu, basicamente, por ele. Depois disso, longo bocejo, quase a tempo inteiro. O jogo só se agitou um pouquinho mais quando Vítor Pereira lançou Castro e Varela. Trouxeram um pouco mais de intensidade ao jogo, em especial o primeiro. O FC Porto não forçou a máquina, o Estoril quase morreu animicamente com os dois golos iniciais e assim foi o jogo. Um descanso activo para um dragão que tem um dos compromissos mais importantes dos últimos anos já esta semana.

3. Rui Patrício e outros apontamentos do Académica-Sporting. Foi um jogo do qual ninguém saiu satisfeito. Os de Coimbra porque controlaram boa parte da partida e dispuseram de boas oportunidades para resolver o jogo até ao minuto 70. Os de Alvalade porque acabaram por cima e poderiam ter conseguido uma improvável reviravolta. No final, o resultado foi 1-1. Voltámos a ver um Rui Patrício esclarecido, a salvar o Sporting com um punhado de boas defesas. Vimos Marcos Paulo fazer a melhor exibição desde que chegou a Coimbra. Constatámos que John Ogu como falso “9” pode ser uma opção a ter em conta em situações extremas. E conferimos também que este Sporting é uma equipa ainda muito imatura. Táctica e mentalmente. A 1ª parte exasperante é algo que não deveria acontecer num clube grande. Jesualdo mudou na 2ª parte e a equipa melhorou. Labyad, Carrillo e André Martins foram trazendo, a pouco e pouco, mais futebol e mais soluções ofensivas. Numa bela jogada, em que Joãozinho assiste e Van Wolfswinkel conclui, o Sporting chegou ao empate. Depois disso, até esteve mais perto da vitória. Foi um jogo com muitas incidências. Longe de ter sido espectacular, teve, pelo menos, essa incerteza constante.

4. Um dos melhores jogos da Liga nos últimos anos. Pelos primeiros 5 minutos, pude logo perceber que o duelo entre Vitórias (o de Setúbal e o de Guimarães) ia ser muito entretido. Ambas as equipas entraram ao ataque, jogando abertas, sem autocarros e linhas muito recuadas, atirando bolas aos ferros e criando várias situações de perigo em ambas as áreas. O Vitória minhoto foi ligeiramente superior no 1º tempo. Mais sólido a defender (com grande mérito para a excelente dupla Paulo Oliveira-El Adoua), mais forte no meio-campo (com Tiago Rodrigues a construir jogo) e com Baldé a cansar os centrais para Soudani finalizar. No 2º tempo, com Makukula, o Vitória de Setúbal ganhou presença física e pujança. Só que os vimaranenses foram mais eficazes e El Adoua fez o 2-0. Tudo parecia mais difícil, até que chegou o penalti que mudou o jogo. Douglas foi expulso, André Preto teve de entrar e curiosamente até defendeu o penalti. Só que contra 10, os setubalenses galvanizaram-se e Makukula e Pedro Santos empataram o jogo num ápice. Merecido, o Vitória do Sado carregou e teve o seu prémio. Continuou à procura do terceiro mas não conseguiu. Até que no 3º de 5 minutos de compensação, a defesa setubalense descomprimiu, deixou Baldé à vontade e o improvável aconteceu. 3-2. José Mota quis, seguramente, atirar-se para um poço sem fundo. Tinha acabado de perder 1 ponto fantástico ao querer transformá-lo em 3 pontos de sonho. O futebol é, de facto, um desporto belíssimo. Já não me divertia com um jogo da nossa Liga há muito tempo. Obrigado aos Vitórias!

5. Centrais-revelação do fim-de-semana. Foram três, neste caso. Em Braga, brilhou um tal de Aderlan Santos. 23 anos, chegou do Trofense no início da época, para representar a equipa B bracarense. Estreou-se na Liga principal no último sábado. Sempre bem posicionado, o gigante de 1,93 metros raramente concedeu espaço de manobra aos avançados maritimistas. Apertou bem na marcação e conseguiu inúmeros desarmes. Joga com classe e elegância, os seus movimentos são sempre muito certinhos. Uma bela aposta de Peseiro. Na Choupana, o melhor em campo no Nacional-Rio Ave foi um jovem nascido em 1993, de seu nome Miguel Rodrigues. Proveniente da União de Leiria, este jovem defesa-central de 19 anos tem vindo a aparecer de forma mais regular na formação madeirense nos últimos tempos. Junto a um grande Mexer, brilhou de forma intensa frente aos vila-condenses. Geralmente bem posicionado, esteve implacável e fez imensos desarmes decisivos. Já o vi jogar ao vivo pelo menos uma vez e confirmo a impressão. Joga com personalidade, parecendo quase um veterano. Boas impressões de um jogador de futuro. Por último, queria destacar Aníbal Capela. O central bracarense, agora emprestado ao Moreirense, impôs-se na defensiva da equipa treinada por Augusto Inácio. Tem 21 anos e é um central poderoso, que mostra grande acerto nas marcações. Tenta não dar muitas hipóteses de mobilidade aos adversários. Vem crescendo nas últimas épocas, através dos empréstimos. Mais um central de futuro para o futebol português.

6. Real Sociedad de Champions. Tem sido uma das revelações da época em Espanha. Jogando habitualmente em 4x3x3, a formação orientada pelo francês Phillipe Montanier gosta de ter bola e especular pouco o seu jogo. No entanto, este fim-de-semana, na vitória (1-0) em Madrid, frente ao Atlético, a equipa basca até teve menos bola. A chave esteve na maneira como a equipa fechou os espaços centrais e se soltou nas saídas para o ataque. Com uma dupla forte a meio-campo (Illaramendi-Markel), o Atlético sentiu dificuldades em penetrar no último terço. Além disso, o central Iñigo Martínez assinou outra belíssima exibição, afastando quase todo o perigo e dando boa saída de bola. Pelas laterais, Carlos Martínez (dos melhores laterais-direitos a actuar em Espanha) e De La Bella corresponderam e tentaram não dar muito espaço de manobra aos alas do Atleti. Em termos ofensivos, na 1ª parte, a Real Sociedad fez muito pouco. Apareceu mais coordenada e objectiva no 2º tempo. Griezmann soltou Xabi Prieto e a Real inaugurava o marcador. Griezmann rápido, deu saída de bola e depois colocou um passe em profundidade no “10”, que isolado não desperdiçou. Griezmann, pela esquerda, e Prieto, pela direita, procuraram muitas vezes movimentos interiores e algumas trocas posicionais com o móvel Carlos Vela (em excelente forma, também). Os bascos não atacaram muito, nem tiveram muitas ocasiões. Mas executaram o plano na perfeição. Não deram muitos espaços à dupla Falcao-Diego Costa e foram aguentando o recital de Arda Turan nos primeiros 45 minutos. Compromisso, objectividade e solidariedade. 3 factores que a Real demonstrou neste jogo. Deu a bola ao adversário e tratou de se adequar a outro registo. Teve sucesso, não haja dúvida. Acredito piamente que ainda vão lutar pelo 4º lugar, pois esta foi uma tremenda demonstração de força.

7. Como anda o Athletic de Bilbau… Depois da sensacional temporada transacta, o Athletic tem andado pelas ruas da amargura esta época. Eliminado por uma equipa da 2ªB na Copa e fora da fase a eliminar da Liga Europa, os bascos ficaram só com o campeonato. Que, diga-se, tem corrido também mal à equipa orientada pelo irreverente Marcelo Bielsa. Este fim-de-semana assisti ao encontro frente ao Valência. Venceram por 1-0. 2ª vitória consecutiva, depois do sofrido triunfo frente ao Osasuna. Ambas as vitórias foram sofridas (e por 1-0), diga-se. Olhando para esta equipa vemos muitas diferenças relativamente à equipa entusiasmante da época passada. Na 1ª parte, sobretudo através de um inspirado Ibai Gómez, o Athletic conseguiu ter dinâmica ofensiva e capacidade de cruzamento. É certo que faltava o criativo Ander Herrera mas a equipa fez um esforço por manter a dinâmica. Na 2ª parte, porém, tudo mudou. O Valência mandou por completo, pegou no jogo em definitivo e construiu ocasiões mais do que suficientes para sair de San Mamés com os 3 pontos. Só que, inesperadamente, apareceu Muniain. Depois de Susaeta em Pamplona, mais um herói para um Athletic sortudo. O jovem internacional sub-21 espanhol até nem tem realizado grande época. Mas estava lá, no sítio certo, para dar importante triunfo à sua equipa. Sofrido, diga-se. Este Athletic não tem, como dizem os espanhóis, a chispa de antes. Já não é tão capaz de pegar na bola. Não se sente tão seguro a defender porque falta elemento fundamental (Javi Martínez). Pressionar no campo rival e tocar a bola com segurança é um conceito mais difícil de interpretar. Vão valendo os rasgos de jogadores como Ibai, Muniain, Susaeta ou Herrera para manterem este Athletic ligado à corrente.

8. Schalke 04-Borussia Dortmund. Foi um dos jogos de destaque deste fim-de-semana. Ganhou o Schalke 04, 2-1. Em transição mostrou ser uma equipa fortíssima. Solta os alas Farfán e Bastos, com Draxler a criar por dentro e Huntelaar a segurar bola. Estes dois últimos foram os finalizadores de serviço. Para mim, apesar do recital de Draxler nos primeiros 45 minutos, o maior destaque dos azuis de Gelsenkirchen foi Joël Matip. O jovem central camaronês limpou praticamente todos os lances. Impressionante. Rápido, forte em antecipação, implacável na marcação, no jogo aéreo e com uma boa saída de bola. Projecto de central/trinco muito interessante. Do outro lado, só depois da entrada de Marco Reus ao intervalo é que a coisa animou. Vertical, profundo, tecnicista, um abre-latas que foi muito útil nessa manobra de desespero com 2-0 contra no marcador. Lewandowski ainda reduziu mas foi só isso. O Borussia insistiu mas não conseguiu sequer o empate. Teve mais bola, mas faltou eficácia. Foi um grande jogo de futebol, isso é certo. Grande 1ª parte do Schalke, sem dúvida. Controlou por completo e foi letal lá na frente. O trio Farfán-Draxler-Michel Bastos promete fazer estragos.

9. Liverpool-Tottenham. Vitória red por 3-2. Não foi grande jogo. Início forte do Liverpool, com belo golo, mas logo o Tottenham tomou o jogo de assalto. Dembélé pegou na bola e o jogo nunca mais foi o mesmo. Vertonghen deu a volta ao encontro (está em grande forma, imponente por alto, é muito forte nos duelos individuais e ainda finaliza na área contrária), antes duma sucessão de erros da defesa do Tottenham ter deitado tudo a perder. Downing e Gerrard completariam mais uma reviravolta no encontro. Um encontro em que o Liverpool não foi brilhante (nem teve grandes destaques individuais) mas onde fez um aproveitamento perfeito dos erros alheios. Teve menos bola em várias partes do desafio (nada que ver com a ideia de Rodgers) mas houve momentos de lucidez em que soube o que fazer com ela. E tem Coutinho. Quem tem um jogador da destreza e técnica do brasileiro tem muito. Um reforço, na verdadeira acepção da palavra!

10. A Fiorentina de Montella. Uma das boas-novas do fim-de-semana a fechar: a exibição da Fiorentina de Vincenzo Montella no Olímpico de Roma, frente à Lazio (vitória por 2-0). A equipa foi montada num 4x3x3, com Viviano na baliza, Tomovic a lateral-direito, Gonzalo Rodriguez-Savic no centro da defesa, Pasqual do lado esquerdo; meio-campo com Pizarro a cobrir Migliaccio e Valero; e depois Cuadrado e Ljajic no apoio a um Jovetic mais colado ao centro do ataque. Desde cedo se percebeu que a formação de Florença ia adoptar um esquema de coragem, tentando ter bola o maior tempo possível, procurando depois concretizar de forma simples e objectiva. Apesar de ter acabado o jogo com menos posse, a Fiorentina teve maior qualidade nessa posse de bola. A jogada do primeiro golo, com uma sucessão de passes, é exemplo perfeito disso mesmo. Se há coisa que raramente vemos os jogadores dos sectores recuados da Fiorentina fazer são pontapés para a frente. Há uma tendência para construir jogo desde trás. Por norma, os centrais entregam a bola ao cofre de banco Pizarro, que depois a distribui, curto ou longo, mas preferencialmente curto. Tem uma condução de bola, uma visão de jogo e uma qualidade de passe notáveis este médio chileno. É o Pirlo da Fiorentina. Perto de si, jogam o mais criativo Borja Valero (entra nas dinâmicas ofensivas) e o mais defensivo Migliaccio. Dois carecas que me parecem os melhores acompanhantes de Pizarro, neste momento. Depois entramos na dimensão ofensiva: sem Toni, foi Jovetic a referência. Referência móvel, diga-se. Marcou um excelente golo, após assistência de Ljajic, outra das figuras do jogo. O jovem sérvio, caiu na esquerda (onde geralmente aparece Jovetic) e deu muita vida ao ataque viola, sobretudo através de movimentos interiores de ruptura. Do lado direito, o mais vertical Cuadrado, velocista em forma de jogador de futebol, jogador muito interessante pela sua velocidade no espaço. Defensivamente, a Fiorentina foi mais sólida com uma linha de 4. Tomovic mais defensivo, Pasqual apoiando constantemente Ljajic. Ao meio, o experiente Gonzalo Rodriguez e o gigante Savic limparam com relativa tranquilidade (embora deixem alguns espaços indesejáveis). No fundo, com esta qualidade de plantel, seria interessante vermos esta Fiorentina na Europa no próximo ano. Gosta de ter bola, de a tratar com respeito e, ao mesmo tempo, ser objectivo com ela. Construir de pé para pé sim, mas dando capacidade de desequilíbrio no último terço. Pizarro é o cérebro, Valero é uma espécie de sub-secção desse cérebro, Ljajic e Jovetic os magos tecnicistas e Cuadrado o velocista. Belíssimo projecto, pena alguma irregularidade. Ainda assim, atenção ao 4º lugar actual. Podem lutar pela Champions, sem margem para dúvidas.

 
foto de abertura © as.com


Francisco Pinho Sousa