Posted 28/01/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

Da novidade no Minho ao bom futebol na Galiza passando pela nova Guerra Mundial.

Mudar de vida...para melhor.
Mudar de vida...para melhor.

1. Mudar de vida…para melhor. Jorge Jesus entrou para o jogo de Braga com um só pensamento em mente: acabar com a malapata bracarense, algo que se vinha verificando constantemente desde que ele é treinador do Benfica. E para o conseguir, o que fez? Mudou! Primeiro, no onze. Colocou Gaitán atrás de Lima (única referência de ataque), com Salvio e Ola John a ficarem incumbidos da missão de dar profundidade ofensiva nas alas. A estratégia resultou na perfeição, pelo menos nos primeiros 45 minutos. Usando e abusando da mobilidade de Lima para vir buscar jogo atrás e, consequentemente, desposicionar a defesa bracarense, o Benfica conseguiu ser incisivo e deixar o jogo quase resolvido nesse período. Além de Lima, vimos um Gaitán de grande utilidade ao centro, onde penso que ele pode e deve ser mais utilizado (até porque começou a carreira no Boca a jogar no meio), vimos dois alas, em especial Salvio, que variam entre a verticalidade e os movimentos interiores, na procura da jogada de entendimento ou do remate. Em termos defensivos, alguns problemas com os movimentos de Éder e com a criatividade de Mossoró. Apesar de tudo, os encarnados aguentaram bem (com a ajuda de um Matic muito presente no apoio ao quarteto recuado). Só que depois veio a parte sofrida do plano. O Benfica baixou demasiado as linhas e deu a iniciativa de jogo aos bracarenses. Algo contraproducente e certamente muito arriscado. O Braga foi pressionando melhor, com mais elementos, embora com dificuldades de organização. Até que um cada vez mais brilhante Éder sacou um passe longo, primoroso, que isolou João Pedro para o golo bracarense. O Benfica, aparentemente seguro de si nesta nova roupagem, tremia. Mas, até ao fim, lá aguentou. A prova como mudar uma vez pode ser óptimo, mas mudar uma segunda pode tornar as coisas complicadas…

2. Porto de Vítor Pereira ou Porto de Cruyff? Quando em 1984, Johan Cruyff decidiu acabar a carreira de jogador no Feyenoord, já perspectivava seguramente um futuro enquanto treinador de futebol. O seu amor ao jogo e a uma filosofia (“Futebol Total”) certamente teriam continuidade num banco de suplentes qualquer. Teve a sorte de ter a primeira oportunidade, volvidos 2 anos, no clube onde tudo começou, o Ajax. E a verdade é que, de início, Cruyff sentiu imensas dificuldades para (re)implementar a tal ideia que tinha levado esse mesmo Ajax e a selecção holandesa ao domínio do futebol europeu nos anos 70. Acabou por baralhar os jogadores com essa tentativa de colocar o futebol total, de novo, no topo do mundo. Foi um começo duro de carreira, onde sofreu na pele algumas críticas injustas, daqueles que tanto gostam de vaticinar a desgraça ao primeiro (pequeno) passo em falso (depois viria a ter o sucesso que se sabe no FC Barcelona…). Enfim, tudo isto para comparar o início de carreira de Cruyff com o de Vítor Pereira, actual treinador do FC Porto (curiosamente um amante assumido da filosofia que Cruyff implementou em Amesterdão e na Catalunha). Também ele foi muito criticado, após uma fase de resultados negativos muito dura de superar. No entanto, assim como fez Cruyff, reergueu-se: levou de vencida o campeonato (Cruyff ganhou a Taça das Taças logo em 1987…) e preparou a 2ª época da melhor forma, com a consciência de que teria aprendido com os erros cometidos na época anterior. Pensei nesta comparação enquanto via o Porto despedaçar suavemente e com muito charme um pálido galo de Barcelos esta segunda-feira. Olhei para Vítor no banco e pareceu-me ter visto aquela figura rebelde, de traço eternamente jovial, de seu nome Johan. A filosofia do Porto neste jogo foi a mesma do mestre: pressão constante, recuperações rápidas de bola, não dando sequer tempo ao adversário para respirar. Passes curtos, muito toque, intervenções ofensivas permanentes dos laterais (não é à toa que Danilo faz dos melhores jogos de dragão ao peito), meio-campo quase divino na gestão do espaço e da bola e um ataque interventivo, com um falso extremo super-útil (Defour), um extremo puro (Varela), em perfeita sintonia com o lateral e um ponta-de-lança, de movimentos largos e curtos de grande importância (Jackson). Foram 5 os golos marcados, podiam ter sido mais, se a máquina estivesse mais afinada para massacrar sem piedade do que massacrar com estilo. Optaram pela segunda. Foi bonito. O perfume de Cruyff espalhou, por 90 minutos, um suave aroma de classe no relvado do Dragão.

3. Como desencantar caçadores em época baixa? A pergunta pode parecer estranha, à primeira vista. O caçador chama-se Amido Baldé e com época baixa quero dizer época de crise. Ficam já esclarecidos. Esta parece-me uma pergunta pertinente, à qual Rui Vitória soube responder na perfeição. Perante a debandada de jogadores em Janeiro (CAN e mercado complicam a vida de muitos treinadores…), o técnico vimaranense teve de desencantar um ponta-de-lança, de aparência tosca, até aí pouco utilizado. O seu nome, já referido anteriormente, é Amido Baldé. Um jovem internacional português, de origem guineense, alto, muito forte fisicamente, estrutura física tipo tanque. E não é que tem resultado? Utilizando o seu físico poderoso, impõe-se bem sobre os centrais adversários, aguentando muito bem a bola, esperando os apoios laterais. Além disso, vem mostrando sentido de baliza interessante e um apetite voraz pelo golo. Um promissor ponta-de-lança, uma prova de que nas horas adversas, em que escasseiam opções, ainda se conseguem desencantar jogadores de alto rendimento.

4. Descobrindo jovens laterais-esquerdos por essa Europa fora… Neste caso, reporto-me a três, que vi este fim-de-semana e que já venho seguindo há algum tempo. Primeiro, Holanda. Dois laterais muito interessantes vão despontando, no Vitesse e no PSV. No Vitesse, Patrick Van Aanholt, 22 anos, emprestado pelo Chelsea. Faz todo o corredor com enorme descaramento, em apoio ou aparecendo até em zona de finalização (como se viu este fim-de-semana, na vitória frente ao Ajax). Não tem muitas assistências mas é muito útil em apoio. E vem defendendo cada vez melhor, com mais critério. O outro holandês chama-se Jetro Willems. Produto da geração 1994, Willems vai mostrando qualidades, tentando justificar o estatuto de lateral-esquerdo mais promissor da Holanda. Defensivamente tem ainda bastante por onde progredir, embora esteja melhor. Quando perde nas costas, tem velocidade para recuperar posição. Velocidade essa que usa nas subidas pelo corredor, com a bola colada ao pé esquerdo e procurando apoios interiores ou indo à linha cruzar. Não é fácil achar laterais muito seguros na Holanda, mas estes dois têm muito potencial. Por último, Lucas Digne. O jovem de 19 anos do Lille tem sido o titular esta época. Já vinha, aliás, rotulado de promessa desde as camadas jovens. Forte no jogo aéreo, é um lateral aplicado nas marcações e que sobe bem, jogando em apoio. Tem enorme disponibilidade física, fazendo todo o corredor com grande à vontade. Este fim-de-semana mostrou-se a no estádio de um clube (PSG) que pode muito bem vir a ser o seu próximo destino…

5. A aura de Khedira e o mago turco de Bremen. Uma dupla alemã, de origem turca, fascinou-me este fim-de-semana. Falo-vos de Khedira e Ozil, médios internacionais da Mannschaft e figuras de proa do Real Madrid de José Mourinho. As suas exibições frente ao Getafe deixaram-me deliciado. O primeiro, entrou ao intervalo, e logo mexeu com o jogo madridista, até aí pouco objectivo. De facto, temos assistido a uma metamorfose técnico-táctica muito interessante em Khedira. Passou a ser o Khedira da selecção (mais ofensivo, dinâmico, capaz de perfurar na 2ª linha) a tempo inteiro. O Real ganhou claramente uma nova aura com ele em campo e também por isso foi mais fácil chegar aos 4-0. No entanto, Khedira teve no compatriota Mesut Ozil um fiável companheiro de construção. O “10” do Chamartín brilhou intensamente nos 70 minutos em que esteve sobre o bem tratado césped madrileno. Pelo centro ou derivando para a direita, mostrou sempre grande clarividência e capacidade criativa nas suas acções. Poucos têm a sua qualidade técnica, de recorte fino. Quando está em forma, é um jogador que enche o campo. O Madrid precisa dele sempre assim…

6. Passagem breve pela 3ª Guerra Mundial. E com 3ª Guerra Mundial falo da eterna discussão (eu prefiro assim, embora haja quem goste mais da designação bélica, daí o título do parágrafo…) sobre quem é o melhor do mundo. Messi ou Ronaldo? Ronaldo ou Messi? (confesso que às vezes me apetece soltar um grito pelo Iniesta para não tornar a luta bipolar…). Pela manhã, Ronaldo marca 3 (em 13 minutos…), Messi responde ao fim da tarde com poker. Um é uma máquina, outro um extraterrestre, dizem muitos. Eu gosto de olhar para eles como seres humanos. Daqueles que me fazem acreditar em impossíveis e milagres. Abençoados sejamos nós que vivemos nesta era de colossos . Bem se pode dizer, abençoada Guerra Mundial esta…

7. Por falar em Guerra Mundial… Vem aí confronto entre os dois batalhões mais poderosos deste planeta. Quarta-feira, 20h00, Real Madrid-Barcelona. 1ª mão das meias-finais da Taça do Rei. O mundo vai parar, mais uma vez. Uma guerra no bom sentido. Ou se preferirem, no sentido táctico. Cristiano vs Messi, Ozil vs Iniesta, Khedira vs Busquets, etc., etc.. Futebol em estado puro.

8. Mauro Icardi, de bluff ao poker. No início da época apareceu na Sampdoria como sendo um jovem avançado, promissor, contratado por pouco mais de 300 mil euros ao Barcelona. Já mostrava qualidades mas não foi sendo opção nos primeiros jogos. Até que chegou o derby de Génova e logo se revelou, com golo na estreia a titular. Depois disso, tem vindo a registar ascensão brilhante : bis na vitória forasteira frente à Juventus e agora um poker na recepção ao Pescara. Golos marcados com ambos os pés, em movimentos muito sólidos, típicos de grande ponta-de-lança. Mais um jogador para nos enamorarmos no que resta de época. Fica a dica…

9. Piszczek. Um dos excelentes laterais-direitos europeus neste momento. Arrisco-me a dizer que é um dos melhores do Mundo, neste momento, junto ao juventino Lichtsteiner. Sobe, sobe (como se fosse o balão de Manuela Bravo…), sem parar, sendo um dos jogadores mais úteis na manobra ofensiva do lado direito no Borussia Dortmund. E defende com muito critério, recuperando geralmente bem quando perde alguma posição. Um dos melhores apontamentos dos últimos tempos na Bundesliga. É lateral para equipa grande (embora já esteja numa mesmo muito grande…).

10. Celta-Real Sociedad. Há equipas de toque apaixonante a jogar na Liga espanhola neste momento. Este fim-de-semana tivemos confronto belíssimo (Rayo-Betis, o qual não pude, infelizmente, assistir), mas não foi só esse. Na tarde de sábado passei um bom bocado a ver o Celta de Vigo-Real Sociedad. Duas das mais interessantes propostas futebolísticas no país vizinho. Empataram 1-1. Foi justo. Adorei a primeira parte, muito bem disputada, com domínio inicial da Real, logo desfeito num movimento de fora para dentro, sublime, de Krohn-Dehli (com a assistência de calcanhar de um enorme Iago Aspas). No segundo tempo, a Real voltou ao comando do encontro, empatou, mas perante cerrada defesa não conseguiu encontrar muitas soluções. Daí a justiça do resultado. E quanto a jogadores? Na equipa da casa, adorei o labor da dupla de centrais (Cabral-Demidov) e o jogo esforçado de Krohn-Dehli (além, claro está, de Iago Aspas, que saiu ao intervalo). Nos forasteiros, grande primeira parte do ala esquerdo Chory Castro, certeiro nas movimentações, na condução de bola e passe e partidas enormes dos centrais Elustondo e Iñigo Martínez (dos melhores centrais jovens da Europa, na minha opinião), do lateral-direito Carlos Martínez (muita profundo, sobretudo no 2º tempo) e do médio Asier Illarramendi, impecável a cobrir o meio-campo e a descobrir linhas de passe. 90 minutos bem passados na companhia de bom futebol e de bons intérpretes!

 
foto de abertura © LUSA


Francisco Pinho Sousa