Posted 08/01/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

Das perspectivas de um grande clássico a um goleador em saldos passando por lições de contra-ataque.

Jackson: o cafetero voador
Jackson: o cafetero voador

1. Benfica vs FC Porto: o que podemos esperar? Joga-se no próximo domingo um dos clássicos mais importantes dos últimos anos. E digo isto, porque o equilíbrio entre forças me parece enorme neste momento. Seguramente podemos esperar um belo duelo a meio-campo. Um Benfica com um Matic em grande forma, recuperador e primeiro construtor de jogo, e com uma dinâmica e verticalidade assinalável nas alas. Um FC Porto que sem James terá de se adaptar às alterações (Izmailov será já opção?). Previsivelmente jogará Defour como 4º elemento de meio-campo/falso ala, dando a Danilo maior liberdade para subir no terreno. Ou então, Lucho como o tal falso ala, o que até me parece mais plausível. Veremos. Certo é que será sempre um grande duelo táctico, entre dois grandes treinadores, que sabem muito do jogo, e duas equipas capazes de proporcionar grandes momentos de futebol.

2. Nico d´obra. Foi uma das “revelações” da Liga Zon Sagres este fim-de-semana. Falo-vos de Nico Gaitán. Exibição de mão cheia, ziguezagueando defesas contrários, espalhando detalhes de grande classe e contribuindo de forma decisiva para a importante vitória “encarnada” no Estoril. Primeiro, com um golo sublime, detalhe de calcanhar pintado a vermelho vivo, qual Picasso. Isto após impensável cobrança de canto de…Óscar Cardozo (sim, leu bem). Depois assistiu, com grande classe, Lima, para o segundo do Benfica. Em suma, voltámos a ver o melhor de Gaitán. Jesus com razões para sorrir. Ganha mais uma opção válida para a segunda metade da época. Se Gaitán ficar por cá (acredito que sim)…

3. Jackson: o cafetero voador. Se há jogador que é exemplo de uma perfeita adaptação a uma nova realidade, distinta da de onde era proveniente, esse é Jackson Martínez. Muito se duvidou dele no início (claro está, quando ainda ninguém o havia visto jogar…). Eram os 9 milhões, era o facto de chegar de um campeonato considerado (pelo menos em Agosto) exótico e, pasme-se, para alguns até o facto de não ter uma cara bonita. A verdade é que Jackson foi-se impondo. E tudo isto quando ainda está a crescer. Acredito que ainda pode dar mais ao FC Porto e a si mesmo. Uma coisa é certa (e ficou provada, mais uma vez, neste último jogo): a impulsão na área é brutal. Dêem-lhe espaço que ele aproveita. Segundo jogo consecutivo do FC Porto resolvido pela cabeça do goleador colombiano. E ambos na sequência de cantos da esquerda. Verdadeiramente decisivo. 16 golos em meia época para um estreante não são brincadeira nenhuma…

4. 4 golos de cabeça num só jogo! (e eu estive lá…) Guardamos sempre memórias engraçadas de jogos que vemos ao vivo. Para mim ficará uma do passado dia 5 (sábado). Posso dizer que foi o dia em que vi uma equipa marcar 4 golos de cabeça. Autores da proeza? A Académica, no triunfo por 4-2, frente ao Vitória de Setúbal. Vimos um Edinho gigante, o melhor desde que chegou a Coimbra, com um “hat-trick”. Vimos um Cissé a confirmar-se como uma das boas revelações desta época. E vimos Rodrigo Galo regressar aos relvados com 2 grandes assistências. Além de um enorme Makelele a conduzir com mestria o jogo a meio-campo. Boa exibição dos academistas, finalmente com o 4x3x3 de Pedro Emanuel a construir e a ter fio de jogo. Será (bom) indicativo para a segunda metade da época?

5. O tetra de Messi. Tudo o que dissermos sobre Messi poderá parecer soar repetido. Mas não. Os adjectivos por usar para o descrever começam a ser poucos mas a vontade de o gabar nunca desaparece. Estamos perante um prodígio, daqueles que vão surgindo por eras. O futebol, que noutras eras já nos deu Pelés, Maradonas, Cruyffs ou Di Stéfanos, dá-nos agora esta pérola, uma dádiva para ser desfrutada, felizmente, por mais alguns anos. Nesta segunda-feira, em Zurique, fez-se um pouco mais de história. Da história do futebol. Porque este jogo também é uma história. Com vários capítulos, uns mais emocionantes, outros mais intrigantes, outros grandiosos, mas todos providos da presença de génios, esses mesmos que nos fazem sonhar acordados, nos fazem imaginar que estamos perante uma fábula maravilhosa em forma de jogo de futebol.

6. O milagre da velha Doria. Itália, pátria-mãe das grandes organizações defensivas e do jogo cínico no último século, começa a mostrar mais do que equipas agarradas ao velho e caído em desuso catenaccio. Nem na Europa as equipas italianas apresentam esse estilo de jogo de aparência tão ruim. Curiosamente, a última a ter sucesso com uma fórmula semelhante foi uma equipa inglesa (Chelsea), cá está, treinada por um jovem italiano (Di Matteo) de velhos modos. Isto tudo para chegar à surpreendente vitória da Sampdoria, ontem à tarde, frente à favorita Juventus (2-1). Vitória essa conquistada fora de portas, depois de estarem a perder 1-0 ao intervalo e a jogar com 10 desde a meia-hora. Como foi possível então à Sampdoria conquistar os 3 pontos? No fundo, a reacção começou logo após o golo de Giovinco. A Samp subiu mais as linhas, procurou apertar a saída de bola dos bianconeri e com isso conseguiu também esticar o seu jogo. A chave esteve na maneira como a equipa se reorganizou após a expulsão de Berardi. Delio Rossi colocou um lateral-direito (De Silvestri), tirando o médio-esquerdo (Estigarribia) que fez de lateral nos últimos minutos da 1ª parte, embora com notórias dificuldades. Tudo fez sentido. Linha de 4 com Silvestri, Gastaldello, Palombo e Volta mais encostado à esquerda. A única solução possível era defender da melhor maneira possível e tentar o contragolpe. Assim foi. A Juve tinha a bola mas, pese a superioridade numérica, não criava grandes ocasiões para matar o jogo. E pior que isso, balanceou-se demais para o ataque, perdendo consistência defensiva e capacidade de recuperação a meio-campo. Os jogadores da Samp passaram a dispor de maior liberdade para sair em velocidade. A partir daí a recuperação de Krsticic, a visão de jogo de Obiang, o dinamismo e condução de bola de Eder e Poli e a eficácia de Icardi (dois belos golos e bons pormenores do jovem ponta-de-lança argentino) fizeram a diferença. Uma lição de contra-ataque e uma reviravolta surpreendente. Um thriller à italiana na matiné dominical de Turim.

7. Por falar em Itália e contra-ataques: Nápoles e Udinese. Outras duas equipas que brilharam em contra-ataque na última jornada da Serie A foram o Nápoles e a Udinese. A equipa napolitana bateu a Roma (4-1), com “hat-trick” de Cavani. O uruguaio tem feito uma época imensa, tendo nesta altura 16 golos em 16 jogos (na Serie A). E mais interessante, está a 22 golos de chegar ao número de tentos de Maradona com a camisola azzurri. Já a Udinese bateu o Inter por volumosos 3-0, com a contribuição da dupla mais forte de avançados: Di Natale e Muriel. E o que tiveram em comum as exibições de Nápoles e Udinese? Simples. Um aproveitamento perfeito das jogadas rápidas de contragolpe, perante equipas tendencialmente mais dominadoras. No entanto, apesar de terem mais posse, tanto Roma como Inter são equipas altamente inseguras na manobra defensiva. Expõem-se muito e desequilibram-se facilmente. A Roma sem a jovem revelação Marquinhos foi um passador. O Inter sem Juan Jesus (expulso após o 1º golo) enervou-se e perdeu o norte. Mazzarri e Guidolin, dois treinadores de excelência em Itália, aproveitaram na perfeição as debilidades adversárias e viram as suas equipas conseguir vitórias bem robustas. E convenhamos que quem tem um killer de área como Cavani ou um super completo avançado como Di Natale (incrível como parece adivinhar onde vão cair todas as bolas) tem o caminho mais facilitado para contra-atacar.

8. A dimensão de Sergio. Parecia ser um mal amado. Para os rivais, era um teatrero. Para os próprios adeptos (alguns…), um jogador sem a dimensão dos companheiros de meio-campo. Para os analistas, um médio-centro recuado com um potencial tremendo. Estou a falar de Sergio Busquets. 2012 foi o ano da afirmação definitiva do jovem internacional espanhol. Como escreveu, e bem, o jornalista hispânico-escocês John Carlín, aqui há uns tempos, Busquets “é o melhor jogador desconhecido do mundo”. Com isto, quis frisar a importância invisível do médio, tanto na equipa do Barcelona como na selecção espanhola. Isto foi escrito, se a memória não me falha, por alturas do Barcelona-Atlético de Madrid. No último domingo, voltou a brilhar, desta feita no dérbi contra o Espanyol. Os números são manifestamente impressionantes: 132 passes certos. No Barça parece algo vulgar. Mas mostra bem a importância actual de Busquets no esquema de Tito Vilanova. Parece ser quase omnipresente. Recupera, distribui curto, protege as costas dos médios mais adiantados e dá passes de ruptura maravilhosos para golo. O melhor jogador desconhecido do mundo, dizem eles. Também deveria haver Bola de Ouro para esta categoria…

9. O incrível Épinal. A Taça de França é pródiga em momentos brilhantes. Começa no facto de até as equipas de bairro se poderem inscrever. Há uns três anos, recordo uma reportagem que vi sobre uma equipa que jogava num campo sintético de um bairro, com redes à volta, situado nos arredores de uma grande cidade francesa (não quero arriscar qual era, sob pena de vos estar a enganar). Assim mesmo, um campo como aqueles em que, muitas vezes, jogamos peladinhas com os nossos amigos. Eu diria que se trata de um cenário fascinante, no qual podemos ver os multimilionários “árabes” do PSG passar por dificuldades contra uma equipa da 5ª divisão (o que aconteceu mesmo…) ou uma equipa da 7ª divisão eliminar uma da 6ª e continuar com o sonho de poder chegar à final de Saint Denis. Mas quem queria destacar neste ponto era uma equipa em especial. Nem era das equipas mais fracas ou de um escalão assim tão inferior. Trata-se do Épinal, actual 19º classificado do National, equivalente à nossa 2ª Divisão (ou antiga 2ªB, para não criar confusões). 3º escalão, portanto. Ora, o Épinal recebeu nesta eliminatória (é já a oitava da Taça este ano!) o todo-poderoso campeão da competição e um dos actuais líderes do campeonato, Olympique Lyonnais. E o que sucedeu? Depois de um entusiasmante 3-3 nos 120 minutos (sendo que o Épinal aos 15 minutos vencia 2-0!), o jogo foi para a lotaria de grandes penalidades. Aí, pensei eu, poderemos de facto ter tomba-gigantes. E o incrível aconteceu mesmo! O campeão da Taça foi abatido, sem dó nem piedade, pelos rapazes do Nordeste de França. Uma alegria imensa tomou, então, conta dos jogadores, equipa técnica, dirigentes e sobretudo pelos adeptos deste pequeno clube. Na bancada presidencial, o histórico presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas, assistia a tudo pálido e quase sem reacção. O futebol e os seus imprevistos, sem tirar nem pôr.

10. Demba Ba. Profissão: Goleador. Não interessa o estádio. Upton Park, St.James´s Park ou, agora, Stamford Bridge. Uma coisa é certa: o senegalês Demba Ba está destinado a ser referência de golos, seja qual for a equipa que representa. Acaba de se transferir para o campeão europeu Chelsea por uma quantia incrivelmente baixa (7 milhões de libras), nestes dias em que é tão difícil arranjar referência de golos a baixo custo. E é caso para dizer que chegou, viu e…marcou. Logo à primeira possibilidade, Benitez não desdenhou a sua utilização. Resultado: 2 golos e a confirmação de que será muito difícil, a partir de agora, Torres regressar ao “onze”. O espanhol nem estava mal e havia recuperado confiança desde que o compatriota Rafa Benitez chegou ao banco. Mas não tem a constância e a regularidade goleadora de Ba, um ponta-de-lança de mão cheia: excelentes movimentos, posiciona-se bem para o remate, não foge ao choque, usando muitas vezes o impetuoso físico e é super-eficaz, seja de cabeça ou de pé direito. Um negócio da China em tempos difíceis. De pensar que há 2 anos o Chelsea despendeu 50 milhões de libras (aproximadamente 60 milhões de euros) em Torres. Há quem aprenda com os erros…

 
foto de abertura © LUSA


Francisco Pinho Sousa