Posted 09/04/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

De um Benfica quase campeão num “cemitério” a um “elefante” goleador passando por leões ressuscitados, ministros ou máquinas trituradoras.

De um Benfica quase campeão num "cemitério" a um "elefante" goleador passando por leões ressuscitados, ministros ou máquinas trituradoras.
De um Benfica quase campeão num "cemitério" a um "elefante" goleador passando por leões ressuscitados, ministros ou máquinas trituradoras.

1. Benfica “enorme” e o “cemitério” de Cajuda. Segue imparável, provavelmente rumo ao título, a trajectória encarnada nesta Liga Zon Sagres. Este fim-de-semana, a vítima foi o Olhanense de Manuel Cajuda, ele que no final do jogo teve uma tirada curiosa (um clássico deste veterano treinador). Disse Cajuda que não esperava ser o “herói ou o mais inteligente do cemitério” perante um Benfica “enorme”. Com isto quis dizer que, dentro das equipas do fundo da tabela, não seria o cemitério de dívidas, problemas financeiros e desportivos olhanense que iria conseguir contrariar a força deste Benfica. E força, precisamente, é algo que não tem faltado à equipa de Jorge Jesus. Atravessa momento físico e psicológico soberbo. Ontem, faltou o golo numa 1ª parte de várias ocasiões desperdiçadas. Apareceu (por duas vezes) no início de um 2º tempo no qual vimos um Benfica a circular mais rápido a bola e a encontrar espaços mais facilmente. Salvio e Matic decidiram o jogo. O argentino foi o melhor encarnado: veloz, dinâmico, oportuno, decisivo com remate colocado, sem hipóteses para Bracalli. Matic voltou a ser gigante: arrumou a casa, distribuiu com serenidade e apontou bom golo. Destaque positivo também para André Almeida. Adaptado à esquerda, defendeu-se bem de Targino e apoiou imenso o ataque. Enorme disponibilidade e muito compromisso. Em suma, o Benfica não foi brilhante como noutras ocasiões mas resolveu bem o duelo contra um Olhanense defensivo, mas sem possibilidades de jogar de outra maneira. Cajuda não foi o mais inteligente do cemitério. E como tal o risco de fatalidade da sua equipa continua a ser bem grande.

2. James vestido de D.Sebastião e um protagonista inesperado. E, passados 3 meses de ter contraído lesão, fez-se luz: James Rodríguez voltou a mostrar a sua cara mais feliz num jogo do FC Porto. Marcou, criou jogo e quando apareceu no centro foi absolutamente preponderante a desbaratar a defensiva do Sporting de Braga. No entanto, o protagonista maior da noite foi um jovem pouco habituado, por certo, a ser capa de jornal: Kelvin. O miúdo que pedala perante os adversários sem parar foi o salvador de um jogo que se complicou muito para o FC Porto quando Alan decidiu sacar genial coelho da cartola. Kelvin, entrado ao minuto 77, atirou por duas vezes, praticamente de seguida, sem hipóteses para Quim. No 1º remate, aproveitou uma segunda bola para disparar, à entrada da área. O 2º tento foi um lance estudado, com o canto a cair mesmo a jeito para um potente disparo de pé direito. Uma noite de sonho para Kelvin. E um cheirinho a noite de sonho para James. 3 pontos que permitem ao FC Porto respirar na luta pelo Tri.

3. Sporting (re)nasceu um dia… Sob o signo de…Jesualdo Ferreira. Que grande trabalho tem realizado o veterano treinador transmontano. Esta semana foi verdadeiramente épica: duas vitórias arrancadas a ferros, em tempo de compensação, colocaram os leões na rota da Europa. Mais do que explicar os bons resultados através de um prisma simplista (como fez parte da imprensa, querendo associar o sucesso à presença do novo presidente no banco…), prefiro tirar conclusões à luz do que foram as exibições em Braga e em Alvalade, frente ao Moreirense. A equipa mostrou maior capacidade para criar perigo, fio de jogo e, sobretudo, foi eficaz. A entrada de André Martins trouxe outra clarividência à 2ª linha de meio-campo. Bruma e Capel continuam a desbaratar os laterais contrários. E há um Van Wolfswinkel, que parece mais motivado desde que foi vendido ao Norwich (4 golos e 1 assistências nestes 2 últimos jogos). Atrás, porém, continuam os problemas. Compreensíveis, digam-se. Ilori e Rojo não conseguem ainda formar, de todo, uma dupla sólida. Ambos passam ainda por um processo de crescimento enquanto defesas-centrais. Nas laterais, uma boa nova: Cédric. Autor de duas belíssimas exibições esta semana, o lateral-direito formado na cantera verde-e-branca vai ganhando confiança e mostrando qualidades. Ainda tem de melhorar a defender, mas continua a revelar grande capacidade ao nível dos apoios ofensivos (já o havia demonstrado na Académica, na temporada passada). Tem Miguel Lopes como concorrente, sendo que este jogou na esquerda frente ao Moreirense, face à ausência de Joãozinho. Boas opções, atrás e à frente. E atenção aos jogadores ressuscitados: além de André Martins, regressaram Schaars e o jovem Viola (que resolveu o desafio deste fim-de-semana). Variedade para atacar um final de época que pode compensar, em parte, a história terrível que se viveu até Jesualdo poisar no “banco” do clube leonino.

4. O adeus de Pedro Emanuel a Coimbra. Triste e soturno. As capas negras dos estudantes bem que podiam servir para esconder os rostos de desolação dos adeptos da Académica face aos resultados mais recentes. O despedimento de Pedro Emanuel parece-me um desfecho previsível, face à escassez de bons resultados e de boas exibições. E face, sobretudo, às invenções tácticas de Emanuel ao longo dos últimos tempos. A tentativa de encontrar a fórmula táctica ideal não correu nada bem. Houve variedade e não estabilidade e os jogadores ressentiram-se. Não falta qualidade ao plantel academista, parece-me óbvio. Também me parece que as culpas não podem ser assacadas à presença na Liga Europa. O problema esteve na falta de consistência táctica. Sobretudo aí. E essa falta de consistência leva a que a equipa se sinta insegura atrás e ataque de forma pouco objectiva e muito complicada. A intermitência da utilização do único médio criador de jogo (Cleyton) ou a irregularidade de rendimento de jogadores preponderantes (Wilson Eduardo, Edinho, Bruno China ou Reiner, por exemplo) são outras questões que ficam por explicar. Chega agora Sérgio Conceição. Homem da casa, com fama de disciplinador, embora tenha divergências desde há uns anos com o presidente da Académica (aparentemente sanadas, entretanto). Veremos se algo muda. Caso contrário, só uma eventual Liguilha poderá salvar a Académica de um desfecho absolutamente indesejável.

5. Boas intenções não chegam senhor Ministro… É inquestionável que o Beira Mar conheceu o período de maior fulgor exibicional a partir do momento em que Costinha assumiu o “banco” dos aveirenses. No entanto, as vitórias não têm acompanhado a equipa. Nem sequer os empates têm aparecido e bem sabemos como nesta luta ao ponto eles interessam (e de que maneira!). Este fim-de-semana, o Beira Mar perdeu por 2-1 em Guimarães. Normal, dirá quase toda a gente. No entanto, a posse de bola foi aveirense e a equipa até merecia o empate, pela maneira como terminou a carregar sobre o Vitória. Mas defensivamente continua a ter enormes descompensações, falhas de concentração que deitam tudo a perder. Diria que as intenções são boas mas a equipa acusou claramente a mudança de um sistema defensivista (com Ulisses Morais) para um sistema que assume o domínio do jogo (com Costinha). Cria mais e joga com mais qualidade nos últimos 30 metros mas no espaço defensivo sente-se mais insegura. No entanto, também acredito que uma vitória nos próximos jogos pode ressuscitar este Beira Mar, que até tem vários jogadores a grande nível (excelente forma do lateral-esquerdo Hélder Lopes, dos médios Nildo e Rúben Ribeiro e atenção ao jovem Saleh, por exemplo). O tempo urge e o Ministro tem de encontrar a chave para a abrir a porta da manutenção.

6. Uma “saladeira” demolidora. Pode parecer um título estranho para um texto acerca de uma equipa campeã. Não tanto, se pensarmos que a “saladeira” é o nome dado ao título da Bundesliga (porque tem a forma de um prato usado para servir salada…), neste caso garantido por uma equipa demolidora, uma máquina de futebol, candidata a um triplete impressionante. Falo, naturalmente, do Bayern Munique. Na mesma semana, quase arrumou a eliminatória com a Juventus na Liga dos Campeões e garantiu desde já a conquista do título alemão. Impressionantes os números: 24 vitórias, 3 empates e 1 derrota (em casa, frente ao Leverkusen). 79 golos marcados, 13 sofridos. Muito provavelmente irão bater o recorde de pontos numa época da Bundesliga. A vitória que deu o título, curiosamente, nem foi brilhante ou avassaladora. Bastou um golo de Schweinsteiger para que o título ficasse desde já garantido (embora o empate também bastasse). Schweinsteiger que continua a ser, juntamente com Lahm, um dos históricos da casa, autêntico porta-estandarte do sentimento bávaro. Foram precisamente eles que construíram o lance do golo, no passado sábado, em Frankfurt: Lahm cruzou (um clássico já, claramente o melhor lateral-direito do Mundo neste momento, pelo apoio ofensivo, capacidade de assistência e rigor defensivo) e Schweinsteiger tocou, brilhante, de calcanhar para o fundo das redes. Dois heróis construídos no berço de Munique. No entanto, há outros heróis a destacar: Mandzukic, goleador de todas as formas e feitios (época soberba); Ribéry, claramente a fazer das melhores épocas da carreira; Kroos, que se lesionou frente à Juventus, mas que vinha sendo um dos principais dinamizadores do jogo interior do Bayern; Alaba, lateral-locomotiva desta formação, jogador enorme no trabalho ofensivo e a progredir em termos defensivos; Müller, craque que arranca de fora para dentro e é fundamental na manobra de desestabilização das defesas contrárias. Sobretudo, estes 7 jogadores. No entanto, Javi Martínez, Dante, Boateng, Pizarro, Robben, Luiz Gustavo, Shaqiri ou Gómez também têm muito mérito (sem esquecer, claro, o grande keeper Manuel Neuer). Uma lista infindável de craques, num ano que pode vir a ser de sonho para o Bayern. Grande trabalho de Jupp Heynckes. Para o ano dará lugar a Pep Guardiola, numa mudança que suporá um boom mediático para a Bundesliga. Que sorte a do Bayern, que pode dar-se ao luxo de prescindir de um mestre como Heynckes para poder ter Guardiola…

7. As bolas paradas de Kiyotake. A japonização da Bundesliga tem-se tornado num dos fenómenos mais interessantes dos últimos tempos no futebol europeu. A aposta permanente em jovens promissores do país do Sol-Nascente tem valido negócios interessantes e o despertar das atenções sobre o principal campeonato alemão no país nipónico (importante, hoje em dia, atrair o mercado asiático!). Este fim-de-semana, mais um japonês esteve em destaque na jornada da Bundesliga: Hiroshi Kiyotake. Tem 23 anos, é internacional A e tem sido uma das peças fundamentais da excelente época do Nuremberga. No jogo do último domingo, em casa, frente ao Mainz, foi decisivo, na marcação de duas bolas paradas que resultaram em golo (curiosamente apontados pelo mesmo jogador, Nilsson). É um executante irrepreensível. O seu pé direito é uma clara mais-valia, não só neste tipo de situações, mas também em construção de jogo organizado. Leva já 11 assistências na Bundesliga 2012/2013. Pode actuar como médio-ofensivo central ou descaído numa das alas. Sigam-no e descubram os encantos técnicos do jogador japonês. Sorte para Alberto Zaccheroni (seleccionador japonês): ele não é o único assim!

8. Itália: do 4x3x3 da Fiore ao desastre do Inter. A Fiorentina de Montella é das equipas mais interessantes da época em Itália. Pelo estilo de jogo, pelo compromisso que tem com a bola e pela maneira como ataca posicional. A equipa começou o jogo deste fim-de-semana contra o Milan de novo em 4x3x3. Ainda assim, organizava-se muitas vezes em 3x5x2, em ataque posicional, e em 4x1x4x1, em situação defensiva. Muitas perdas de bola, uma das quais fatal (de Pizarro), iam deitando tudo a perder para a equipa de Vincenzo Montella. O futebol habitualmente fluído da Fiore não apareceu, por força da pressão posicional muito bem feita pelos jogadores do Milan. No entanto, mesmo jogando com 10 e com a saída, por lesão, de Jovetic, a equipa melhorou bastante na 2ª parte. O Milan ainda fez o 2-0 mas a resposta da equipa de Florença, com um trio composto por Rômulo, Cuadrado e Ljajic verdadeiramente endiabrado, foi espectacular. Mesmo jogando com menos um, a Fiorentina tomou a bola de assalto, circulou-a com critério, pôs Cuadrado e Ljajic a romper em diagonais e chegou ao empate, através de duas grandes penalidades, ganhas precisamente pelos extremos anteriormente referidos. Um choque autêntico para o Milan esta reacção. Muito coração e crença num futebol positivo levaram a Fiorentina ao triunfo. Já no Giuseppe Meazza, aconteceu um grande jogo que, no entanto, não foi estranho para quem conhece os comportamentos irregulares desta equipa do Inter. Terminou 4-3 para a Atalanta. Ao intervalo, o Inter mandava tranquilamente, jogando permanentemente em cima da equipa de Bergamo e não dando hipóteses de saída de bola aos forasteiros. Por ironia do destino, foi um jogador do Inter (Livaja), emprestado à Atalanta, que começou a encontrar espaços para criar desequilíbrios. Bonaventura aproveitou e empatou. Só que, de seguida, Ricky Álvarez bisou e colocou o Inter com uma confortável vantagem (3-1). Parecia quase tudo decidido. Porém, num jogo deste Inter não se podem tirar conclusões tão precipitadas. Denis, com um “hat-trick”, colocou a Atalanta na frente do marcador. O Inter descompensou em termos psicológicos após o 3-2 (grande penalidade muito duvidosa). É uma equipa pouco estável nesse capítulo. Para além disso, continua a ter um central, de seu nome Ranocchia, que complica atrás e à frente (o falhanço no minuto final figuraria em qualquer programa de comédia). Muitos erros, muita complicação e uma evidente necessidade de renovação, no plantel e, quiçá, no “banco”.

9. O génio de Ilicic. Foi um dos momentos do fim-de-semana. Minuto 5 da 2ª parte do Sampdoria-Palermo. 1-1 no marcador. Josip Ilicic, internacional esloveno, rompe pelo meio-campo da Samp, em zigue-zague, passando tudo e todos e facturando um golo de antologia. À la Messi ou à la Maradona (como preferirem). Execução brilhante de um jogador muito talentoso mas nem sempre em jogo. Junto a Miccoli, no renovado ataque do Palermo, tem brilhado nos últimos jogos. E eis que, de repente, os sicilianos, que pareciam já despromovidos, ganharam nova vida e estão mais perto da salvação. Como um golo do outro mundo pode ajudar a mudar a sorte das equipas…

10. Wilfried Bony a pedir o salto… Enorme a época do avançado costa-marfinense do Vitesse. Tem sido um recital de golos. Este fim-de-semana foram mais dois. De cabeça, de pé direito, tem sido uma das revelações da época nos campeonatos europeus. Leva 29 golos em 26 jogos na Eredivisie. Goleador puro, tem um sentido de baliza notável. Os gigantes da Europa já andam de olho nele. Provavelmente sairá para a Premier League no próximo Verão. Será justo se assim acontecer.

 
foto de abertura © Getty Images


Francisco Pinho Sousa