Posted 16/04/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

De um Braga finalmente campeão a uma Juve belíssima passando por um dragão deprimido, um italiano louco ou uma cidade a ferver em golos.

De um Braga finalmente campeão a uma Juve belíssima passando por um dragão deprimido, um italiano louco ou uma cidade a ferver em golos.
De um Braga finalmente campeão a uma Juve belíssima passando por um dragão deprimido, um italiano louco ou uma cidade a ferver em golos.

1. O título que Braga já merecia. Indiscutível, para mim, a justiça da vitória bracarense na final da Taça da Liga, sobre um pálido e errático FC Porto. O título foi o corolário físico de um crescimento sustentado em termos futebolísticos, ao longo dos últimos 10 anos. O jogo foi pragmático na 1ª parte, embora com ligeiro ascendente azul-e-branco. No entanto, uma grande penalidade convertida por Alan no tempo de compensação (e consequente expulsão de Abdoulaye Ba) acabaram por ajudar o Braga a levar de vencida o 2º troféu realmente significativo da sua história. No 2º tempo, os dragões foram tentando atacar, mas de forma muito atabalhoada (muitas perdas de bola, com James e Moutinho em claro sub-rendimento), enquanto que os minhotos eram mais objectivos na saída para o ataque, pecando só na finalização (e de que maneira!). No final, porém, fica o registo para uma vitória justíssima de um clube cada vez mais assentado entre os grandes do nosso futebol.

2. O estado depressivo do Dragão. Há explicações difíceis no futebol. Perceber objectivamente o que vai acontecendo com o FC Porto actualmente pode não ser tarefa fácil. Explico-me: há evidências em termos futebolísticos, as quais já irei explicar, mas também me parece que há um problema na componente psicológica. Em termos futebolísticos, esta equipa parece estar a atravessar período claro de menor fulgor físico. Sobretudo entre jogadores que correram quilómetros esta época (Danilo ou Alex Sandro, por exemplo, já não têm, de longe, a mesma acutilância da fase mais forte da temporada) ou jogadores regressados de lesão (James só apareceu em grande no recente jogo da Liga frente ao Braga e Moutinho, desde a lesão, parece jogar com mais cautelas). A equipa ressente-se, porque a pressão para recuperar bola em zonas adiantadas já não repercute o mesmo efeito. O FC Porto tornou-se num doente em estado depressivo, que vai tomando comprimidos (posse de bola) para ir disfarçando a doença. No entanto, sabemos como os anti-depressivos, muitas vezes, têm um efeito perverso nos doentes. Neste caso, parece-me evidente. O FC Porto agarra-se à bola mas é muito pouco objectivo. Oportunidades escasseiam. Velocidade nas acções? Quase nenhuma. Erros individuais? Vão começando a ser cada vez mais. Perdas de bola, falhas de concentração defensiva, pouca acutilância…O Dragão está adormecido numa depressão que lhe pode custar tudo numa época. Vão-se salvando poucos jogadores em momento de forma brutal (Fernando ou Mangala, por exemplo). Culpas do treinador? Claro que as há, embora não seja o único. No entanto, insistir na medicação errada em vez de optar por um cuidadoso tratamento do foro psicológico pode acabar por matar o paciente

3. Benfica a caminho de ano de sonho? Fim-de-semana sem Liga, tempo de reflexões. Neste caso sobre um Benfica que parece bem encaminhado para um ano de incrível sucesso. Às suas portas, dois títulos nacionais e a possibilidade de regressar a uma final europeia. Em termos teóricos, parecem cenários altamente prováveis. Vem aí fase decisiva para o confirmar (jogos contra Sporting e Marítimo na Liga, intercalados pela decisiva meia-final da Liga Europa frente aos turcos do Fenerbahçe). O Benfica vem de dois empates com um sabor doce (apuramentos garantidos para o Jamor e meias da Liga Europa). Creio que não poderemos, ainda assim, encarar esta ausência de vitórias nos dois últimos jogos como sendo um período de menor fulgor encarnado. A equipa sentiu naturais dificuldades perante a pressão do Newcastle e só não chegou com a questão resolvida ao intervalo do jogo de St. James Park porque não foi eficaz. No jogo de ontem, frente ao Paços de Ferreira, o Benfica mandou tranquilamente e nem o tardio golo de Cícero (falha grave de Maxi Pereira) colocou em causa a passagem à final da Taça. Porém, fica o registo: dois golos sofridos após dois erros bem graves nos últimos encontros. Sinais de algum relaxamento, em especial no jogo de ontem. Jorge Jesus irá alertar os seus jogadores, seguramente. Até porque o sucesso se constrói, sobretudo, na maneira como se aprende com os erros.

4. O ano de Cristiano. 2013 candidata-se seriamente a ser o ano de CR7. Este fim-de-semana, em Bilbau, juntou mais 2 golos a uma vasta lista (27 golos só desde Janeiro). Para muitos, vai a caminho de melhor jogador europeu da História. Pode parecer um conceito discutível mas, em termos individuais, acredito que possa lá chegar. Tem 28 anos, seguramente mais 6/7 anos ao mais alto nível, portanto pode chegar a conseguir essa distinção. A sua potência de remate, as arrancadas infernais, os golpes de cabeça utilizando o seu 1,86m tornam-no no jogador mais em forma do Mundo neste momento. Está nas meias da Champions e na final da Taça do Rei. Ganhando estes dois troféus (ou melhor, não os perdendo para Messi…) e conseguindo ajudar Portugal a resolver difícil encrenca rumo ao Brasil, seria uma injustiça tremenda se ele não conseguisse levar para casa a sua segunda Bola de Ouro.

5. Sevilha quente, num Betis-Sevilha feito Alemanha-França… Uma data inesquecível para todos os fãs de futebol (pelo menos aqueles que nasceram nos anos 70): 8 de Julho de 1982. Estádio Ramón Sanchez Pizjuán. Meia-final do Mundial espanhol, entre Alemanha e França. Já referenciei, num texto de há uns meses, esse mítico jogo. Aliás, é costume fazer-se essa comparação quando temos um empate a 3 num jogo de futebol. Ora, passados mais de 30 anos, na mesma cidade, tivemos mais um 3-3 emblemático. Neste caso, num jogo muito mais sentido por toda a comunidade sevilhana: o derby local Betis-Sevilha. Foi jogo em que Deus e o diabo passearam pelo relvado, tamanha agitação apaixonante o jogo conheceu. De um 3-0 a favor do Sevilha (fruto de meia-hora de futebol inesquecível, ardente e veloz, imagem fiel de uma cidade quente e romântica) até a um 3-3 final (resposta bética, aproveitando erros alheios, absolutamente notável!). Foi, de facto, um espectáculo excepcional. Quatro duques de vermelho (Reyes, Navas, Rakitic e Negredo), escudados por um fiel guerreiro francês (Kondogbia), tornaram a meia-hora inicial num dos momentos futebolisticamente mais prazenteiros de toda a época. Porém, ninguém contava que o outro guarda-de-honra vermelho (Medel) falhasse e assim a equipa verde-e-branca ganhou esperanças de poder vir a discutir o resultado. No 2º tempo, a artilharia bética foi potenciada ao máximo. Molina e Vadillo juntaram-se a Castro e fizeram a cabeça em água ao pobre esquadrão do Nervión. Fazio e novamente Medel foram vilões desta história romântica. E, assim, com um toque de força africana no final, os bravos Béticos conseguiram chegar a um impensável ponto, especialmente depois de início tão bruto dos sevilhistas. Que grande jogo foi este, retrato perfeito de um futebol espanhol apaixonante, vibrante, com golos, boas propostas de jogo e grandes intérpretes (jogadores) e comandantes (treinadores).

6. Uma Sociedad que merece a Realeza. Entusiasmo puro. É esta a sensação que tenho quando vejo a Real Sociedad de Phillipe Montanier entrar num relvado para disputar mais um jogo da Liga espanhola. A proposta é sedutora: uma equipa que pressiona alto, gosta de ter bola, sabe o que fazer com ela e que, em termos ofensivos, tem um poder de criação e concretização notável. Este fim-de-semana, porém, vimos a Real num registo um bocadinho diferente. O cenário era perfeito: domingo de manhã soalheiro no bairro de Vallecas, em Madrid. Frente-a-frente, duas grandes equipas (daquelas que gostam de jogar com a melhor amiga nos pés) e dois grandes treinadores (Paco Jémez contra o já citado Phillipe Montanier). O jogo correu muito bem à Real Sociedad. Em dois lances idênticos (bola longa, aproveitando espaços no lado direito da defesa do Rayo, desmarcação de homem na esquerda e cruzamento para Agirretxe finalizar), a equipa basca colocou-se em vantagem. Isto tudo antes do minuto 20! Depois disso, foi gerir com calma e pragmatismo. O Rayo Vallecano pegou na bola, pôs Piti a comandar a distribuição de jogo, mas este novo registo da Real, mais pragmático e controlador sem bola, revelou-se igualmente eficaz. Mikel e Iñigo, dupla de centrais, fizeram um jogo de muita qualidade. Os laterais cumpriram, sobretudo De la Bella. Markel Bergara foi um gigante a equilibrar a equipa a meio-campo e a dar os passes de ruptura necessários. Na frente, o diabo em forma de trio ofensivo: os velozes e estupendamente tecnicistas Vela e Griezmann e o matador de serviço Agirretxe. Grande vitória, totalmente justificada. Valência e Málaga ficaram a 4 pontos na imensa luta pelo 4º lugar. Uma Sociedad de bom futebol que merece ser Real (e com esta realeza, falo da realeza futebolística, da Champions League…).

7. Imagens de Inglaterra: de um louco Di Canio à FA Cup passando pelo comeback king Arsenal. Um só ponto para falar de Inglaterra. Este fim-de-semana, dediquei muito tempo aos jogos da Good Old Albion. Vou tentar ser conciso (tarefa nada fácil…). Primeiro destaque vai para Di Canio. Uma daquelas personagens que tornam o futebol num desporto mais apaixonante. Vibrou, correu, festejou loucamente, qual jogador, sujou o impecável fato que trazia vestido, cumprimentou euforicamente todos os jogadores no final de importante gesta. Vencer um derby é um cenário que Di Canio respeita muito e com o qual vibra imenso (não esquecer que sempre viveu com muita paixão os derbies entra a sua Lazio e a Roma). Deu a primeira vitória ao Sunderland em 3 meses (e, digo deu, porque toda a equipa, responsável pelo feito, ganhou uma nova alma com a sua presença) e logo no duelo regional frente ao grande rival Newcastle! Todo este momento de loucura de Di Canio levou-me a pensar numa frase de Casimir Delavigne, autor francês do século XIX: Os loucos são espantosos nos seus momentos lúcidos. Sem dúvida. Em segunda instância, vem o tema FA Cup. Manchester City e Wigan apuraram-se para a final de 11 de Maio. Justamente, diga-se. O City despachou o Chelsea (que já não vence os citizens nesta competição há 98 anos!). Grande 1ª parte dos de Manchester, com um jogo magnificamente orquestrado pelo maestro Yaya Touré. No 2º tempo, houve reacção londrina mas o City soube merecer o sorriso final. Na outra meia-final, que opunha o Wigan ao mítico Milwall, equipa do Championship, vitória justíssima da formação de Roberto Martínez. No fundo, o corolário de uma época fantástica dos Lattics nesta competição. Terceiro e último ponto, o Arsenal. Ou, como descrevi no título, o comeback king (nome dado, por norma, às equipas que habitualmente operam reviravoltas). Este fim-de-semana, mais uma vitória importantíssima na luta pela Champions. O Arsenal ia sofrendo com o esquema defensivo do Norwich mas um penalti (bem marcado, diga-se), já à beira do fim, foi a primeira pedra rumo à construção de um grande resultado. Nessa altura, brilhou o que de melhor há nesta equipa: a frente ofensiva, composta por craques como Podolski, Walcott ou Giroud. Grande recuperação da equipa gunner, que somou 25 pontos dos últimos 30 possíveis. Notável!

8. A luta pela Champions em França. Também em França a luta pelo último lugar de acesso à Liga dos Campeões está ao rubro. Lyon, Nice e Saint-Étienne parecem ser, de momento, os maiores candidatos, mas muita atenção à grande recuperação do Lille nesta 2ª volta. Este fim-de-semana, pude observar os jogos desse trio que ocupa as últimas posições europeias actualmente. O Lyon bateu o Toulouse por 3-1. Com Gourcuff de regresso às grandes exibições, a equipa de Rémi Garde vai mostrando força na luta por um lugar milionário. Mais uma grande exibição também dos médios Gonalons (mais defensivo) e Grenier (médio-ofensivo), dois dos jogadores mais interessantes desta equipa e da própria Ligue 1. Já o Nice teve problemas na 1ª parte. Apesar de ter muito mais posse de bola (chegou aos 75%!), a equipa da Côte d´Azur não foi eficaz. Na 2ª parte, porém, apareceram os golos. 3, no caso. Traoré, Digard e o goleador Cvitanich decidiram o encontro. Uma equipa muito interessante este Nice. Capaz de ter a bola e de criar perigo por fora, através do virtuosismo dos alas Jérémy Pied e Éric Bauthéac. No meio-campo, excelente trabalho do trio Anin-Digard-Traoré. Atrás, além do promissor lateral-esquerdo Kolodziejczak, vai despontando interessante central sérvio: Nicola Pejcinovic. Por último, o Saint-Étienne. Fiquei um pouco decepcionado com o nulo, sexta-feira, na deslocação a Valenciennes. Mais decepcionado, sobretudo, depois do início forte dos verts. Rapidamente a equipa pareceu, porém, conformada com o empate. Christophe Galtier, o treinador, é um daqueles técnicos que opta pelo pragmatismo fora de portas. Aubameyang, Hamouma e Mollo ainda mexeram com o jogos nos primeiros 25 minutos mas, de resto, foi quase sempre um longo bocejo. Honestamente, não creio que este Saint-Étienne chegue ao 3º lugar no fim do campeonato. O Olympique Lyonnais, pese embora a irregularidade recente, parece-me claramente o candidato mais forte. No entanto, atenção ao Nice, com uma bela proposta, jogadores a crescer e um treinador muito experiente, já campeão no Lyon (Claude Puel). E atenção redobrada ao Lille, que empatou este fim-de-semana contra o Marselha e que tem um plantel bastante competitivo!

9. PSV-Ajax. Foi um jogo muito bem disputado o clássico holandês. O Ajax venceu (3-2) e está cada vez mais próximo de revalidar o título nacional. A equipa de Amesterdão tem acabado as Ligas mais recentes com muita saúde. Esta não parece ser excepção. Com Eriksen (que até “ofereceu” um golo ao adversário) a comandar o jogo, o Ajax mandou quase sempre na bola e mereceu a conquista dos 3 pontos. Pela frente, um PSV, treinado pelo experiente Dick Advocaat e liderado a meio-campo por Strootman, que apostou em jogar no contra-ataque, tentando apanhar a equipa de Amesterdão desprevenida. Foi um jogo onde se viram os grandes defeitos das equipas holandesas: falhas posicionais a nível defensivo, erros individuais e fraca pressão a defender. Daí os clássicos do País das Tulipas terem sempre tantos golos. São bonitos, emocionantes, mas também denotam alguma falta de rigor.

10. Juventus a léguas de Milan e Nápoles. A jornada deste fim-de-semana da Série A deu a clara ideia de que a Juventus está, neste momento, num plano bastante superior ao da restante concorrência. O triunfo sem mácula frente à Lazio (2-0) foi mais uma prova dada nesse sentido. A maneira como a Juve pega no jogo, toma conta dele e o faz dele o que quer é notável. Meio-campo ao nível dos melhores, com Pirlo a pautar, Vidal a espalhar magia (e a facturar, ontem apontou 2 golos), Pogba a dar dimensão física e inteligência ao nível do passe e um Marchisio de qualidade em transições. Ontem, foram 4 por dentro e os laterais Lichtsteiner e Asamoah por fora. Na frente, jogou Vucinic mais solto. Mobilidade excepcional. O recuo dele no lance do golo (movimento comum do montenegrino), arrastando defesas, dando apoio e isolando Vidal foi excepcional. Atrás, um trio defensivo muito seguro (ontem com o reforço de Inverno, Federico Peluso no lugar de Chiellini). Uma grande equipa, sem dúvida. Visto o Milan-Nápoles do último domingo (bem disputado no primeiro tempo e quezilento no segundo) e o Lazio-Juve de ontem, fiquei com mais certezas acerca da justiça e clareza do título juventino. Se é que dúvidas havia ainda, antes desta jornada.

 
foto de abertura © EFE


Francisco Pinho Sousa