Posted 16/05/2013 by Francisco Pinho Sousa in Colunas
 
 

De um clássico que virou o mundo do avesso a um génio “escondido” passando por pobres e ricos que ganharam a lotaria…

FC Porto 2-1 Benfica: Vítor Pereira e Jorge Jesus.
FC Porto 2-1 Benfica: Vítor Pereira e Jorge Jesus.

1. E tudo Kelvin mudou… Há 2 semanas dei conta de que o “33” estava a caminho da Luz. Era uma alusão à possibilidade cada vez mais forte de que o Benfica levantasse o 33º título da sua história. Porém, em duas jornadas, a classificação da Liga sofreu volte-face tão épico quanto surpreendente. Nada nos garante que o “33” não possa chegar à Luz (com tanta volta e reviravolta numa Liga louca e emocionante, já nem sei…), no entanto, neste momento o título está nas mãos de um Dragão que tem sido fiel a si mesmo, não desistindo, competindo ao máximo e tendo a recompensa à entrada para a última jornada. Um golo de Kelvin (se o FC Porto ultrapassar o Paços de Ferreira, no próximo fim-de-semana, este campeonato bem se pode passar a chamar Liga Kelvin), à entrada para o 2º minuto de compensação, levou o Estádio do Dragão ao êxtase e supôs mudança na tabela classificativa. O FC Porto passou para a 1ª posição muito por culpa do jovem da crista de galo. 2 golos ao Braga e o deste fim-de-semana, com curiosa assistência de Liedson, valeram mais 4 pontos, os tais que marcavam as diferenças entre Porto e Benfica até à jornada 28. Agora, com um ponto de vantagem, os dragões não têm em mente vacilar mas, atenção, porque a última jornada se joga na difícil e nobre casa onde mora o 3º classificado desta Liga. Um campeonato louco. De cima a baixo. Vai a caminho do prémio de “Campeonato português mais emocionante de sempre”.

2. Clássico morninho resolvido com toque de samba adolescente. Em termos de qualidade de jogo, este FC Porto-Benfica não foi, claramente, dos melhores nos tempos mais recentes. Teve emoção, um quê de incerteza e intensidade, mas não foi um jogo aberto, com muitas ocasiões e muitos golos. Aliás, se há jogo em que tivemos mais golos que ocasiões claras este é, definitivamente, um deles. O FC Porto, como habitual, procurou asfixiar o adversário, tentando dominar desde início. O Benfica baixou bem as linhas, aguentou compacto atrás e, num lance fortuito, colocou-se em vantagem: muita inteligência de Lima, apesar de tudo. Os dragões tinham bola mas pouco rompiam, por força da desinspiração de James Rodríguez e da falta de apoio próximo a Jackson Martínez. Entretanto, numa incursão de Varela pela esquerda, tudo mudou, em mais um golo fortuito (neste caso na própria baliza). Depois disto, fomos tendo um jogo sem muitas oportunidades, com mais iniciativa azul-e-branca e um Benfica, com um grande Enzo Pérez e um bom Matic no controlo das operações a meio-campo, a gerir bem o precioso empate. O Benfica tinha mesmo o jogo sob controlo quando se deu a genialidade de Kelvin. Um contra-ataque, uma assistência e um golo tão surpreendentes quanto precisos e que podem ter significado volte-face na edição 2012/2013 da Liga. Em suma, jogou-se futebol, sim senhor, mas não foi de grande casta…

3. Colombianos na reserva… Para mim este Clássico evidenciou uma situação: James Rodríguez e Jackson Martínez estão longe da melhor forma. Em especial o “10”, que desde a lesão raras vezes apareceu em plano decisivo. No entanto, também Jackson parece outro: menos explosivo, mais preso de movimentos e não tão acertado a ler os lances. Se bem que tenha a atenuante de ter defrontado forte dupla de centrais, além do facto de boa parte das bolas lhe chegarem por via de passe longo, não havendo tanta margem de manobra para o Cha Cha Cha. De facto, os colombianos do ataque portista destacaram-se pouco neste jogo decisivo. Se Jackson tem as tais atenuantes, James tentou ser o “10” do costume, mas colou-se demasiado à bola, insistiu em jogadas sem efeito e não foi o acelerador de jogo de que o FC Porto necessitava. Valeu um bom Varela que, de forma surpreendente, foi o melhor do trio atacante azul-e-branco. Quem diria há uns tempos, hein?

4. O duelo Fernando/Matic. Foi uma batalha muito interessante de seguir. Dois dos médios-defensivos mais completos do futebol europeu na actualidade, frente-a-frente, no grande Clássico português. O duelo foi bonito e intenso, como se previa. Fernando destacou-se mais, na verdade. Verdadeiro polvo, este médio operário, além da recuperação de bola, foi essencial na maneira como subia e como criava opções de passe na 2ª linha. Nota-se que está mais corajoso e empreendedor, não ficando somente renegado às tarefas defensivas. Equilibrou a equipa e só uma lesão, à entrada para os últimos 20 minutos, o retirou definitivamente do campo de batalha. Quanto a Matic, aguentou o tempo todo e, apesar de não de ter sido tão soberbo como noutras ocasiões, revelou-se bastante importante, recuperando imensas bolas, mesmo em situação de desvantagem numérica. Foi mais faltoso do que noutros jogos, mas compreende-se, dado que no seu raio de acção se movimentavam mais homens do que é habitual. Um médio abrangente e que teve a seu lado um enorme Enzo Pérez (assim como Fernando teve por perto um Moutinho muito esclarecido…).

5. 50.000 habitantes, 2000 sócios = Champions League. O fenómeno Paços de Ferreira mostra-nos quão belo pode ser o futebol. Um clube com pouco mais de 2.000 sócios, de uma cidade com cerca de 50.000 habitantes acaba de se apurar para o play-off da Liga dos Campeões. Ou seja, na pior das hipóteses, irá ouvir pelo menos duas vezes o hino da Liga milionária. Além do hino, há a questão do prestígio e, sobretudo para uma equipa pequena como o Paços de Ferreira, a questão financeira. O objectivo milionário foi conseguido, este fim-de-semana, após o empate em Coimbra e o deslize do Braga em casa frente ao Nacional. No jogo de Coimbra, vimos um Paços menos agressivo, com menos bola e a sofrer perante um início autoritário e determinado dos Estudantes. Apesar das dificuldades, o Paços adaptou-se relativamente bem às condições, vestiu o “fato-macaco” e soube jogar de forma mais pragmática. Em termos individuais, destacaria os médios-ofensivos Josué e Vítor, com grande qualidade ao nível do passe e muito bons movimentos de ruptura na 2ª linha. Bom jogo também do central Ricardo (ganhou muitas vezes o duelo com Edinho) e do ala Manuel José, que fez o golo mais importante da história recente do Paços. A exibição pacense não teve o toque de classe de outros jogos mas teve bons momentos. Mérito a uma grande equipa e a um grande treinador: Paulo Fonseca. O técnico do Paços é, indiscutivelmente, uma das figuras da Liga 2012/2013. Jovem, adepto de uma filosofia de jogo positiva, transformou um plantel interessante de baixo custo numa equipa sensacional. Merece o céu!

6. Sir Bob Martínez, nova alteza-real da FA Cup. A época já estava a correr mal ao Manchester City. Perdeu o título, de forma clara, para o rival Manchester United e na Champions caiu redondo na fase de grupos. Restava a consolação da Taça. A mítica FA Cup, ambicionada por todos os clubes ingleses e tratada com enorme respeito (ao contrário do que acontece com as Taças de outros países…). Só que pela frente teve um adversário, claramente inferior em teoria, mas que foi um justíssimo vencedor: o Wigan do espanhol Roberto Martínez, outrora jogador mediano, que parece claramente prometido ao Olimpo dos treinadores. E digo isto porque o que tem feito com este clube pequeno ao nível dos últimos anos tem sido assinalável. Tem salvado sempre a equipa da descida (algo que já não acontecerá em 2012/13) e, esta temporada, conseguiu a proeza de levantar o troféu mais antigo do mundo em pleno estádio de Wembley. Bob Martínez, como é conhecido em Inglaterra, foi destemido e fez com que o seus jogadores jogassem com a mesma coragem. Ao longo dos 90 minutos, o Wigan foi praticamente sempre superior a um Manchester City macio e que parece ter encarado este jogo sem grande chama. Os Lattics foram vibrantes, sobretudo através de três homens, que jogam em zonas mais adiantadas e que têm sido as grandes figuras desta formação ao longo da época: o extremo McManaman, jogador explosivo, tecnicista e desequilibrador no um-para-um, o avançado móvel Arouna Koné, jogador batalhador, com técnica e capaz de jogar a toda a largura no ataque e o médio criativo Maloney, autor de uma segunda metade de época em grande nível. Destacam-se sobretudo estes três, mas há outros (Scharner, McCarthy, Jordi Gomez ou McArthur, por exemplo). Uma equipa sem grandes nomes mas com jogadores de nível Premier League. Pena a oscilação exibicional e de resultados ao longo da temporada, que fez com que a equipa tenha descido, na última terça-feira, ao Championship, mesmo num ano em que conseguiram uma soberba FA Cup.

7. Sturridge e Coutinho, reforços de ouro. O Liverpool acertou na mouche no Mercado de Inverno. Decidiu apostar no criativo Phillipe Coutinho, permanentemente relegado para o banco no Inter, e no avançado Daniel Sturridge, também ele uma segunda opção no Chelsea. Contratou-os e ambos têm proporcionado momentos muito bons desde Janeiro. Os reds já não chegarão à Europa mas ver esta dupla faz-nos acreditar que na próxima época o cenário poderá ser mais risonho. Numa altura em que o craque Suárez se encontra castigado, os dois reforços invernais assumem a despesa ofensiva. No jogo do último sábado, Sturridge brilhou intensamente com um hat-trick notável e mais um par de boas ocasiões desperdiçadas. Coutinho foi genial na maneira como colocou a bola para o chapéu que resultou no 3º golo de Sturridge e teve outros pormenores muito bons. O Liverpool venceu 3-1 no difícil terreno do Fulham e deu a nítida impressão de que, quando a máquina está afinada, consegue ser das equipas mais atractivas da Premier League. O problema é que a máquina está mais vezes emperrada do que acertada.

8. Brighton vs. Crystal Palace. Apesar de toda a azáfama em torno do Watford-Leicester (em especial do louco 2º jogo), acompanhei com maior atenção a meia-final do Championship entre Brighton e Crystal Palace. 1º jogo, sexta-feira, em Londres. 0-0 foi o resultado. Boa entrada do Brighton e resposta do Palace na 2ª parte, num jogo sem grandes oportunidades. Brilharam o lateral-direito Ward (Crystal Palace) e os médios Bridcutt e Hammond (Brighton). A estrela do Crystal Palace, Wilfried Zaha, apareceu pouco decidida. No entanto, no jogo de segunda-feira, em Brighton, tudo mudou. Depois de uma 1ª parte muito equilibrada e disputada, apesar do receio em abrir o jogo de parte a parte, assistimos a uma 2ª parte louca, em que o Brighton arriscou um pouco mais, abrindo-se para os contra-ataques letais de um Crystal Palace que contou com um Zaha super-inspirado (2 golos depois de um longo jejum), em velocidade e em termos de concretização em plena área. A entrada do ala Bolasie também se revelou decisiva para que o jogo mudasse a favor do Palace (grande lance antes do primeiro golo). De destacar ontem, ainda, a exibição do lateral-esquerdo Moxley (muito concentrado a defender) e dos médios Jedinak e Digkacoi. Um Crystal Palace que, contra as expectativas, se superiorizou a um Brighton quiçá um pouco sobrevalorizado. E agora venha a final, dia 27 de Maio. Palco: Wembley. Precisamente 2 dias depois da final da Champions, Watford e Crystal Palace jogam a última vaga de acesso à Premiership. Venha de lá essa disputa de craques. Vydra, Forestieri, Deeney, Chalobah, Zaha, Ward ou Bolasie no mesmo campo parece-me um cartaz bastante apelativo!

9. 19 anos depois, PSG campeão francês. Total mérito de Ancelotti na conquista do 3º título da história do Paris Saint-Germain. Tal como comentava outro dia no Twitter: o PSG pode ter grandes jogadores mas é preciso um treinador competente para conseguir obter sucesso com tamanha chuva de estrelas. Carlo Ancelotti soube capitalizar a seu favor o ego de Ibrahimovic, trabalhou muito bem o seu 4x4x2 (com variante 4x3x3) e fez explodir ainda jogadores como Lucas ou Verratti, ambos no seu primeiro ano ao mais alto nível. A vitória sobre um Lyon irregular (1-0, com golo de Ménez) veio oficializar aquilo que há muito vinha parecendo certo: a conquista da Ligue 1. Principais obreiros, para além de Ancelotti: Ibrahimovic, Thiago Silva, Matuidi, Lavezzi e Jallet. Está de volta o grande PSG!

10. Lucas Biglia. É aquele jogador de qualidade, que continua num campeonato menos consagrado, debaixo da mira de grandes clubes, mas que, por enquanto, não sai de lá. Continuo a ter a sensação de que Biglia tem futebol para mais que a Liga belga (com todo o respeito que ela me merece). Aos 27 anos, este internacional argentino, médio-centro, vai criando raízes no interessante mas não tão competitivo futebol belga. A sua qualidade de passe, visão de jogo, capacidade de organização e inteligência sobressaem quando observo um jogo do Anderlecht. Continua a ser um jogador sem grande velocidade mas a sua competitividade continua a ser tremenda. Ficava bem numa grande liga, de preferência num clube que jogue a Champions regularmente. Fala-se no Arsenal. De facto, seria interessante vê-lo no esquema de Wenger. Mas a questão que fica é a seguinte: para quando essa saída?

 
foto de abertura © sportige.com


Francisco Pinho Sousa