Posted 24/05/2013 by Rui Pedro Silva in Colunas
 
 

Um amor, eine Liebe.

Um amor, ein Liebe.
Um amor, ein Liebe.

S

ão os pormenores que nos fazem apaixonar. No final, ficamos contente com o todo, mas são as pequenas partes que dão outro encanto, que nos cativam, que nos fazem olhar naquela direcção com olhos embevecidos, recordando cada momento inicial como se fosse único, como se fosse o último. Nunca são racionais, não precisam de ser. O fenómeno do “apaixonar” faz-se como se fosse uma criança, sem razão e com entrada de cabeça. No caso do futebol alemão, era uma criança a dobrar. Tinha sete, oito anos.

Wattenscheid. Lê-se qualquer coisa como vátensháide. O meu pormenor era uma equipa com uma fonética que me levava para outras fronteiras. O Sporting, um nome diferente – estrangeiro -, fazia a diferença em Portugal, o Wattenscheid foi o que começou por fazer a diferença na Alemanha. Nos resumos semanais da RTP, era uma equipa que raramente ganhava, que desceu de divisão em 1994 e que nunca mais voltou. Não interessava, era o Wattenscheid. Sim, o Wattenscheid. Wattenscheid, sou capaz de dizer este nome vezes e vezes sem fim. Hoje, está para a Alemanha como o Alverca para Portugal. Longe, muito longe da ribalta.

O caminho estava aberto. A mesma fonética que me fez encantar pelo Wattenscheid abriu-me os olhos para outras equipas. A forma como se dizia Eintracht, a expressão de Borussia, a virilidade do Werder Bremen e do Dínamo Dresden. O alemão, uma língua tão diferente e na altura tão estranha, entrava definitivamente na minha mente.

A criatividade na escola começou a fazer o resto. Crescendo em Tires, ao lado de Manique, não era de estranhar que houvesse sempre um Bayern Manique. No campeonato, havia também o Borussia do Monte Lá de Baixo, equipa pela qual joguei no ano seguinte mas já com outro nome, um confuso Vingança dos Paralíticos (que memória, foi preciso escrever isto para me voltar a recordar desse momento). E depois, claro, o Borussia Do Outro Mundo.

O Borussia era realmente de outro mundo. Apareceu vindo do nada e conquistou-me. Aqui já não foi tanto a fonética, foi o equipamento. Aquele amarelo, berrante e talvez nada na moda para o que se fazia em Portugal, misturado com o preto com as letras a juntarem-se para se ler “Die Continentale” foi um ponto de passagem para um novo capítulo. E os jogadores? Que qualidade. Mais uma vez, o nome e a forma como se lia fazia muita diferença. O mauzão Jürgen Köhler, o maestro com cara de juvenil Andreas Möller, Stefan Reuter e Karl-Heinz Riedle. E sim, na fonética, o rei só podia ser René Tretschok, mesmo que a qualidade não acompanhasse.

A paixão ganhou racionalidade mas continuou a ser pelos olhos de uma criança que festejei o título contra a Juventus. Aquela equipa, aquele equipamento que comecei a replicar nos jogos de Sensible Soccer e ainda hoje na fantasy da UEFA, foi único. Foi o que ligou essa paixão pelo futebol à primeira grande paixão por uma rapariga que, apesar de nunca ter sido correspondida, teve um momento especial. Aquele em que, de forma despreocupada, me disse que tinha uma camisola do Dortmund (precisamente essa, do Ricken, usada por ele num jogo) esquecida lá em casa, que não lhe interessava. Foi a única coisa que recebi dela; hoje vejo-a como uma digna consolação.

A relação com a Alemanha e o futebol alemão teve altos e baixos mas manteve-se sempre. Numa casa onde sempre fui o único apaixonado por futebol, tive a sorte de ter a final do Mundial-1990 gravado em cassete. Vi-o vezes sem conta, apesar de ser menos espectacular do que o Holanda-União Soviética de dois anos antes. Maradona? Não compreendia a sua dimensão (arriscaria até dizer que fez um jogo fraco, desapoiado, mas tenho medo de estar a ser injusto), mas continuava a olhar para os nomes germânicos com outros olhos. Andreas Brehme, Lothar Matthäus, Rudi Voeller entraram, sem dificuldade nenhuma, no meu lote de jogadores favoritos.

Depois deles, vieram muitos mais. As equipas portuguesas cruzaram-se com alemãs, houve o Karlsruhe de Kahn, o Kaiserslautern, o Bayern de Klinsmann. E, de repente, tudo acalmou. Olhei para outros campeonatos e para outras equipas e só a DSF no cabo conseguia começar a fazer a diferença, especialmente com os torneios de pavilhão em sintético durante a interrupção competitiva.

O interesse pelo futebol alemão caiu um pouco, o pela fonética manteve-se. Aprendi alemão com um guia antes da viagem e segui a aprendizagem assim que pude no secundário. Com o futebol, houve um período morto, que renasceu ao dar os primeiros passos como jornalista, quando era responsável pelos resumos da jornada para um blog, o Livre Indirecto, do grande Da Rocha. Na altura, até enviei um e-mail à Sport TV (algo inédito para mim: nunca o tinha feito, nunca o voltei a fazer, fosse para que canal fosse) a sugerir que alargassem os conteúdos ao futebol alemão, especialmente num período em que o lote de portugueses estava a aumentar.

E chegamos a 2013. O meu alemão está mais enferrujado do que nunca, mas o interesse pelo futebol voltou a crescer bastante. Aliás, a própria importância da Bundesliga está no ponto mais alto de sempre. Esta semana, Bayern Munique e Borussia Dortmund vão decidir em Wembley, no “mesmo palco” onde Bierhoff ofereceu o título à Alemanha no Euro-1996, quem é o novo campeão europeu. É um momento importante, que pode ser de viragem, especialmente com a entrada prevista de Guardiola, com os olhos cada vez mais atentos dos adeptos de todo o mundo e com a probabilidade de a Sport TV acabar por dar mais destaque à Bundesliga com a perda de direitos da Liga Inglesa.

Amanhã, verei a final da Liga dos Campeões com muita atenção e claramente a torcer por uma equipa, como há muito não acontecia. Que me perdoem os amigos de Manique, mas espero uns festejos do outro mundo. É, temos uma história antiga.

 
foto de abertura © Spiegel


Rui Pedro Silva