Posted 02/05/2013 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Maestro #1. Carlos Daniel.

Carlos Daniel.
Carlos Daniel.

 

C

arlos Daniel, jornalista da RTP, concedeu-nos o privilégio de desfraldar o pano sobre o Maestro, espaço de grandes entrevistas do Futebol Mundial. Do templo dos sonhos ao presente atarefadíssimo, uma viagem que se prolongou no espaço e no tempo com denominadores comuns. O fazer sempre com paixão e profissionalismo aquilo que lhe dá prazer. O amor a uma causa: o Futebol.

 

Memória, emoção e sonhos

– Como começou a tua paixão pelo futebol?

– Começou pela mão do meu pai, quarenta anos de vida no futebol, guarda-redes do Paredes, depois treinador da formação durante décadas, sempre dirigente. Apaixonado também ele, por futebol, até hoje. Fizeram-lhe uma festa bonita há uns anos, os velhos pupilos, e deram o nome dele, do Zé Maria, à escola de guarda-redes do meu União.

– Quais são as tuas primeiras memórias? Qual é o primeiro jogo de que te recordas?

– Memórias? O velho Campo das Laranjeiras, o pelado alisado por uma rede arrastada por um tractor antes dos jogos, a música de Dino Meira, roufenha, nos altifalantes, o cheiro a bálsamo dos balneários, a magia da entrada das equipas em campo e das bandeiras do União, um adepto nervoso que gritava sempre “são como rolas”. A minha prenda de anos – digo sem corar, agora-, aí dos 6 e os 12 anos, era a equipa do Paredes – a equipa toda! – ir lá a casa depois do jantar para me cantar os parabéns. Passaram por lá o Vítor Oliveira, o (prof) Neca, o Joaquim Jorge, o Joaquim Teixeira, e tantos outros que apenas são célebres para mim. O primeiro jogo é talvez um Paredes-Covilhã, festivo, que ambas as equipas subiam de divisão. Entrei em campo com os meus ídolos, claro, equipado à Paredes da cabeça aos pés. Teria 5 ou 6 anitos.

– Quem foram os teus ídolos e quais foram as equipas que mais te marcaram?

– Os primeiros foram o Carlitos – ídolo lá de Paredes e meu amigo até hoje – e o Meireles, o meu primo Fernando, que ainda passou depois por Penafiel, Nacional da Madeira e Rio Ave. No futebol internacional adorava o Zico e mais tarde o Gullit. Por cá, deliciei-me na adolescência com Chalana e Futre. As equipas foram o primeiro Benfica de Eriksson e o Porto que começou por ser de Pedroto nos anos 80 – grandes duelos! -, no mundo, o Liverpool de Dalglish e Rush, primeiro, o Milan dos holandeses, depois, e sempre à frente de todas, o Brasil de 82.

– Outra das tuas paixões são os cromos, até porque os utilizavas para simular jogos. É verdade que fazias relatos e nem te escapava o pormenor de criar ambiente com claques em redor do estádio? Isso conduz-me a uma outra questão. É o reflexo que, para além dos protagonistas, guardavas memórias dos estádios, dos cheiros, dos sons, dos cânticos e das emoções?

– Tudo isso, ainda me lembro das cartolinas enormes onde colava todas as fotos que encontrava das claques de cada clube. A mais fantástica que tinha era talvez do inesquecível Verona de Bagnoli, esse mesmo de Briegel e Elkjaer-Larsen, incrível campeão por cima de todos os grandes de Itália em 85. A minha claque do Verona era meia equipa! Também gravava cânticos para cada clube com a ajuda dos meus irmãos, que soavam à entrada das equipas em campo. Paixão é isso, memórias de cheiros, sons, imagens. Ainda hoje não consigo explicar o fascínio que sentia quando subia os degraus de uma bancada e via o relvado mágico. Ainda sinto, por vezes.

– Hoje, como profissional de televisão e com a modernização do futebol, continuas a sentir a emoção em redor do jogo da mesma forma como nos primeiros jogos que viste? É algo que, por exemplo, te leva a ir a um estádio ou a escolher determinado jogo para ver quando estás em casa?

– Sim, guio-me pela paixão, pelas equipas que me encantam. Já dei por mim a torcer por clubes pelos quais nunca senti simpatia só pela qualidade do seu jogo. Nos últimos anos não consegui deixar de gostar do Barça, agora delicio-me com o Bayern e com um Dortmund que me encanta há três anos. Gosto do Tottenham e tenho um fraquinho pelo futebol positivo de Wenger mesmo se não ganha. E adoro o clima dos jogos no Brasil, mesmo se de táctica não se aprende nada. Aprecio mais o gesto que o golo, sou mais de encanto que de resultado. Romântico, talvez, mas é assim que se alimenta a paixão. E adoro os estádios que me lembram jogos. Uma vez em Barcelona, fiz que questão de ir ver as ruínas (tinha acabado de ser demolido) do velho Sarriá, onde se jogara o incrível e inesquecível Brasil-Itália de 82.

– Fazes parte de uma geração que cresceu com pouco futebol na televisão, que esperava ansiosamente pelo Domingo Desportivo e que tinha o culto dos relatos na rádio ao domingo à tarde. Quem foram os relatores e comentadores de futebol que mais te cativaram?

– Na televisão o Rui Tovar foi uma marca, pelo saber enciclopédico, mas acabei por conviver com quase todos. Na rádio sim, tinha ídolos, por causa dos relatos: António Pedro era um enorme relator, Óscar Coelho também e é um querido amigo que foi muito importante na minha carreira. Deliciava-me com a capacidade descritiva do David Borges, em tudo um exemplo para mim até hoje, e admirei depois muito o Costa Monteiro, o meu primeiro chefe a sério, pela rectidão, pela seriedade. Depois veio a geração de que fiz parte, durante uma dúzia de anos, e ainda produziu grandes relatores. Hoje, os melhores são dois grandes amigos, o Hélder Conduto e o João Ricardo Pateiro.

– Não tenho grandes dúvidas que o Mundial 1982 e o Europeu 1984 te marcaram profundamente. O que guardas dessas competições internacionais? Quando revês o Brasil – Itália (1982) ou o Portugal – França (1984) ainda acreditas que o resultado pode ser outro?

– Quase, mas por vezes sinto que nos marcam mais por terem sido derrotas. Acredito aliás que se passa a gostar mais de um clube quando se perde, quando se sofre por ele. O Brasil de 82 era a “nossa selecção”, que ver Portugal chegar àqueles momentos parecia miragem. E, no entanto, dois anos depois, lá estava Portugal, entre os grandes da Europa, o que parecia impossível, e de repente até podia ganhar, estava a ganhar, à França em França e já no prolongamento. Vi perder a equipa mais poética da história, esse Brasil, e o meu primeiro grande Portugal, a poucos minutos do fim. Tenho a certeza que chorei, das duas vezes. Em 86, no México já só me irritei, e como já tinha mais um par de anos, bebi para esquecer numa festa na escola.

– Para além dos jornais desportivos portugueses, gostaste, desde cedo, de acompanhar o futebol internacional. Houve algum momento marcante que te levou a procurar conhecer mais sobre as equipas e jogadores estrangeiros? Onde é que, no início da década de 80, conseguias encontrar a Onze, a France Football e o Guerin Sportivo?

– O clic foi no Mundial de 82, com a primeira colecção de cromos estrangeiros. Já comprava as revistas, sobretudo a Onze, mais tarde a France Football e o Guerin, e já me interessava muito pelos jogadores que me surgiam como génios mas foi com o Naranjito que percebi que havia craques no mundo inteiro: Nehoda na Checoslováquia, Kipiani da União Soviética, Maradiaga nas Honduras, Abega dos Camarões. E até havia futebol no Kuwait e na Nova Zelândia. Os craques do Brasil eram a maior relíquia, mas Platini tinha crescido, Maradona juntava-se a Kempes, ia finalmente ver jogar Cubillas, e até Hrubesch, o alemão que marcava sempre golos de cabeça nos resumos do Domingo Desportivo. Tinha entrado no meu universo mágico. E nunca mais saí.

– É verdade que chegaste a criar um jornal desportivo? Ainda te recordas do nome e as temáticas que abordavas?

– Não, jornal não, fazia era campeonatos inteiros, e provas europeias, e anotava todos os resultados. E queria que os meus irmãos e amigos fizessem o mesmo, coitados. Eram provas paralelas, em que ganhava sempre que eu queria. Os meus pais, os meus avós estranhavam aquelas horas infindáveis a simular jogos e relatos, mas com o tempo acostumaram-se, e um dia perceberam que até tinha sido bem útil para a minha vida, o meu futuro. Mas nunca se opuseram, pelo contrário até achavam graça à minha pequena loucura pela bola.

– Cresceste a jogar futebol na rua e na escola. Quando regressas a Paredes sentes que os locais onde jogaste futebol estão vazios? Achas que às crianças e adolescentes de hoje falta o futebol de rua?

– Claro, deixou de haver crianças a correr atrás de uma bola, ou de patins, no velho ringue do Parque, e nos outros dois locais onde jogava todos os dias já não se pode jogar há muito tempo. Agora há relva sintética, há escolas, mas aprendia-se mais do jogo, da técnica, com uma bola torta, num piso por onde corria a água que o fazia acidentado ou num recreio da escola onde se driblavam árvores além de adversários. Quase todos os melhores jogadores do mundo, até hoje, cresceram em terrenos difíceis, em bairros degradados, onde não se aprendia futebol, descobria-se futebol, improvisando soluções. É essa a diferença, começar pela essência. Já reparaste que ninguém marca “ao homem” num jogo de crianças?

– Na tua adolescência começaste por jogar hóquei em patins, mas depois acabaste por optar pelo futebol no Paredes, onde chegaste a ser capitão de equipa. Já joguei futebol contra ti e era notório que tinhas um talento acima da média. Diria que, recorrendo a uma expressão futebolística que aprecias, poderias ter sido um excelente enganche. Eras melhor futebolista do que hoquista? Como é que o Carlos Daniel analista de futebol definiria o Carlos Daniel jogador de futebol?

– Sim, tinha mais jeito para o futebol que para o hóquei, embora estivesse na melhor fase de hoquista quando troquei mas o apelo do futebol era muito forte. Um pequeno problema cardíaco atrasou a minha chegada aos pelados (não se jogava em relvados) e nunca me deixou sonhar muito com a carreira que gostava de ter tido. Era muito feliz no campo, a jogar, nos treinos, nas viagens para os jogos, mas percebi depressa que fazia mais sentido investir nos estudos. Tinha algum talento, de facto, qualidade técnica, visão de jogo, podia ser esse segundo avançado ou – o que mais gostava, talvez por não ser muito rápido – o médio organizador, mais atrás. Lembro-me de um jogo treino contra técnicos e médicos do Sporting (Manuel Fernandes, Roger Spry) num estágio na Holanda, em 92. Perdemos – os jornalistas – mas, como diria o Futre “parti aquilo tudo”, fiz no mínimo uns 6 golos. A minha medalha é que no fim um deles veio ter comigo e disse-me: “Eh pá, tu jogas muito!”. Era o José Mourinho. Acho que nunca tinha contado esta história em público, mas é talvez a melhor dessa minha carreira, cujo final ainda tento adiar.

 


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.