Posted 16/05/2013 by Rui Pedro Silva in Colunas
 
 

O dia seguinte.

O dia seguinte.
O dia seguinte.

T

rabalhar com o Rui Miguel Tovar é uma experiência única. Não por ser aquela pessoa que na redacção do Record não se sentava enquanto não cumprimentasse, um a um, cada jornalista (incluindo o então estagiário que eu era na altura), mas porque é o veículo perfeito para fazer viagens ao passado. A estatística pormenorizada – além da memória que a acompanha – tem-me ajudado a esclarecer as névoas que tenho do passado relativamente a frágeis memórias sobre jogos.

Há não muito tempo fomos à procura da primeira que temos de cada grande em Portugal. O primeiro jogo do FC Porto, o primeiro do Benfica, o primeiro do Sporting. De uma forma ou de outra, tudo ia dar às competições europeias.

Para uma criança a partir dos seis anos, esses momentos são capazes de se tornarem mais marcantes do que todos os outros. Porque estamos a jogar contra os “maus”, os estrangeiros, e porque uma vitória é também um ponto de afirmação da qualidade do futebol nacional. Pelo menos era assim na altura, muito mais do que agora em que o estrangeiro e o nacional tantas vezes se confunde.

Não me lembro da campanha do Sporting rumo às meias-finais em 1991 mas sei que estive em frente à televisão, acabado de tomar banho com a minha avó a secar-me o cabelo. Ao meu lado, o meu avô sofria. Não sabia e durante muito tempo não lhe dei grande importância, mas hoje sinto que foi por momentos como esse que construí a minha base futebolística. É também a primeira memória de um momento que, apesar de olhar, não estava a ver.

É curioso que 1991 seja o ano das minhas primeiras memórias claras. Antes disso, muito pouco existe. O meu pai garante-me que fui do FC Porto em 1987 depois da Taça Intercontinental mas tornei-me axadrezado pouco depois quando o Boavista derrotou os dragões – de certa forma, acho que o meu clube era decidido da mesma forma que hoje o boxe encontra os seus campeões. Das finais perdidas do Benfica em 1988 e 1990 nada ficou também. Foi em 1991, ano do título mundial de sub-21, que tudo começou. Foi precisamente quando a força de Portugal nas competições europeias começou a desvanecer-se que os jogos começaram a ficar gravados. A primeira final europeia que me lembro (a do título do Estrela Vermelha) é precisamente aquela que se sucedeu à última presença portuguesa.

A partir daí, tudo mudou. Talvez por sentir que Portugal era uma força fraca na Europa do futebol, talvez por ser uma criança com doses gigantes de ingenuidade, talvez por não conhecer ainda os venenos da rivalidade, talvez pelos bons exemplos que me rodeavam, era alguém que sofria e festejava cada sucesso. Benfica? O jogo no Highbury Park é inesquecível e saltam-me sempre à cabeça os nomes de Yuran e Isaías. FC Porto? Não só me lembro da goleada ao Werder Bremen, já mais tarde, como sei que estava na Póvoa de Varzim em férias. Sporting? Lembro-me mais das desilusões (de ouvir na rádio as derrotas no prolongamento com Dínamo Bucareste e Grasshoppers e do descalabro de Salzburgo) do que de bons momentos que, convenhamos, nesse período foram poucos.

O salto para o Boavista das camisolas esquisitas e do surpreendente Vitória Guimarães foi fácil. Se era português, era para festejar. Aqueles anos na escola eram difíceis e até as vitórias tangenciais de Benfica e Sporting eram motivo de gozo, mas as tréguas estavam sempre presentes nos jogos europeus, independentemente do nome.

Os anos passaram e isso também mudou. O futebol português foi fundo de um poço a que apenas o FC Porto resistia e perder nas primeiras eliminatórias com os Bastias, os Vikings, os Bolognas e os Halmstads até já nem podia ser considerado uma surpresa tão grande. E depois houve o Celta, que tornou o balneário de iniciados do Estoril num passeio da vergonha, com sportinguistas de um lado a não deixarem passar em claro cada golo espanhol quando muitos ainda não tinham sequer saído do banho e não acreditavam que estava em marcha um jogo tão desnivelado.

O futebol português regenerou-se. O novo milénio trouxe o FC Porto de Mourinho e Villas-Boas, o Sporting de Peseiro, o Sp. Braga de Domingos e agora o Benfica de Jorge Jesus. Hoje faço as contas e vejo que foi a nona final europeia de uma equipa portuguesa desde que nasci. E que no período antes, supostamente o mais glorioso, tivemos oito. É a consequência natural do esvaziamento gradual da qualidade da Liga Europa perante o aumento de vagas na Liga dos Campeões, mas não pode deixar de ser visto como um grande salto qualitativo. Se hoje só houvesse espaço para o campeão, até onde poderiam ir as equipas portuguesas? Mesmo com a Liga Europa a ser considerada por alguns uma segunda divisão europeia, parece estar talhada para as equipas portuguesas. Chamem-se FC Porto, Benfica, Sp. Braga ou Sporting.

Ontem, Portugal esteve dividido em três: os benfiquistas com a vontade natural de conquistarem o terceiro título europeu, os não-benfiquistas que gostam de ver equipas de Portugal alcançar grandes feitos lá fora e os não-benfiquistas que não se identificam com esse tipo de patriotismo.

Hoje, Portugal continua dividido. Porque a base da rivalidade continua a ser o dia seguinte. Não aquele que passa na televisão, mas o que passa nos escritórios, restaurantes, escolas e universidades de todo o país. O dia seguinte em que uns ouvem a festa que os outros fazem. Porque, no fundo, o que mais incomoda continua a ser a exaltação alheia. Porque os que estão contra o Benfica, têm também em mente os benfiquistas que encontram todos os dias, imaginam a sua conversa depois de um eventual triunfo e de como isso poderá condicionar o dia de trabalho. Porque quem é benfiquista, além do eventual sabor amargo de uma final perdida, saberá que será alvo de todas as provocações no dia seguinte.

É este o motor da rivalidade. É este o factor que me fez desligar da conversa futeboleira do dia seguinte, acreditando que se não o fizer aos outros, também não darei margem para que o façam a mim. O comportamento tira-me do elenco como personagem, mas mantém-me como figurante, já que é impossível fugir a isso numa redacção. No fundo, vai acontecer o que tiver de acontecer e no meu dia seguinte, apanho sempre a provocação: ou a dos que ganham ou a dos que fazem pouco dos que não ganharam.

Ontem à noite nem me importava de voltar ao passado, ver o jogo pelos olhos do Rui de sete anos e assistir a um novo confronto entre encarnados e londrinos. Aí teria a certeza que, acontecesse o que acontecesse, o dia seguinte seria mais tranquilo. E genuíno.

 
foto de abertura © AP Photo/Francisco Seco


Rui Pedro Silva