Posted 06/05/2013 by Rui Pedro Silva in Colunas
 
 

Geração de 85.

Mapa-Múndi | Geração de 85.
Mapa-Múndi | Geração de 85.

S

ou da geração de 1985. A de Ronaldo e Varela. Cresci numa época em que os computadores eram pesados e raros, os telemóveis inexistentes e os quatro canais de televisão (quando passaram a ser quatro) não tinham uma programação tão interessante que mantivessem crianças coladas ao ecrã. Consolas? Sim, lembro-me da Nintendo e sou capaz de apostar que a Mega Drive também apareceu por volta dessa altura. Mas eram caras, nem toda a gente tinha dinheiro para as ter e precisávamos de ser criativos no momento de passar o tempo.

Não sou saudosista mas gostei de ter crescido nessa época. Eu e os milhares de rapazes que viveram um dos últimos anos em que o futebol de rua ainda era reinante. Foram pequenas coisas que nos fizeram ver o futebol de outros olhos, crescer com outras expectativas, olhar para os jogadores com outros olhos. Ter uma bola também não era para todos mas havia sempre alguém que a tinha, que a levava para a escola, que a tratava como se fosse o bem mais precioso. E quando se furava estragava os intervalos todos do dia.

Como o futebol não era banalizado na televisão, jogávamos de maneira pura. Não nos passava pela cabeça cuspir para o chão só porque tínhamos visto o jogador. E atirar para o chão para simular uma falta? Impensável, isso. Só quem cresce a jogar nos sintéticos é que não sabe o que custavam esfolar joelhos e cotovelos no alcatrão ou na terra. De acordar a meio da noite com o pijama colado às crostas e de levar um raspanete dos pais, proibindo-nos de ir para a rua enquanto aquilo não passasse. Mas resistíamos, corríamos, suávamos, jogávamos.

Éramos criativos. Quando era pequeno, a minha baliza era um portão verde de ferro. Pequeno, mais alto de um lado do que no outro. O meu avô ficava na outra baliza, com canteiros a fazer de postes e o fio de estender a roupa a servir de barra. Quando cresci, as balizas mudaram. Eu fui para a dele, ele foi para a minha, mas agora também já contava aquele metro de parede ao lado do portão. Adaptava-me. Na altura o remate estrondoso não era necessariamente bom, partia janelas. A avó resmungava, o avô compreendia e reagia envergonhado.

E jogar na praceta com os amigos? Eram duas pedras, vinte metros e jogar até alguém chamar para o jantar. Mais uma vez, éramos criativos. Havia balizas mas os obstáculos eram piores do que hoje se pode imaginar. Porque havia sempre um velho resmungão que ameaçava furar a bola com a espingarda se lhe voltássemos a acertar no portão e fazer barulho. Da mesma forma que na escola os estores das salas de aula eram sempre terrivelmente próximos das balizas. Éramos mestres da criatividade porque tínhamos de garantir que o jogo se desenrolava sem despoletar qualquer um destes ataques de fúria: de professores, de vizinhos, de avós.

O futebol de rua, este futebol rebelde moldava-nos. Obrigava-nos a adquirir capacidades sem nos apercebermos disso. Ficávamos mais inteligentes e ao mesmo tempo irreverentes. Em jogos de dois para dois, ou mesmo de um para um, a finta era o adereço essencial, mesmo que fosse feita à base da velocidade. Hoje, vive-se numa cultura em que o colectivo formata as mentes e torna os jogadores autómatos.

Na altura, moldávamos uma personalidade única até aos oito anos, idade em que a maior parte dos clubes começava a escolher as crianças nos escalões de formação. Hoje, se for preciso, com quatro anos já há escolas de jogadores ávidas em receber a mensalidade e retirar o factor x que havia antigamente. E foi esta transição gradual que mudou o estereótipo do jogador português. Porque se eu posso dizer que sou da geração de Ronaldo e Varela, quem nasceu um ano depois está mais tentado a dizer João Moutinho e Miguel Veloso.

Os extremos desapareceram, os médios completos assumiram o domínio. Há Bruma? Há, sim, mas por cada Bruma surge um Zezinho, um João Mário e um André Gomes. Há dez anos, por um Hugo Viana, havia um Quaresma e um Ronaldo. A proporção inverteu-se e possivelmente será por isso que a nossa selecção pareça destinada a abdicar do crónico 4x3x3 para começar a aplicar o mais “moderno” 4x4x2.

O futebol de rua está a desaparecer e, com ele, as boas memórias de todos os que têm mais de 25 anos. A melhoria de condições nos clubes desportivos (longe vão os tempos em que o CAC fez furor em Lisboa com um dos primeiros sintéticos) teve também um efeito nefasto e o “laboratório” português tem-se limitado a repetir a mesma fórmula de incutir o colectivo, reprimindo a qualidade individual que possa existir.

Não sou o primeiro a falar da falta que o futebol de rua faz a Portugal (e não só, porque a tendência é mundial), não serei o último. Mas junto-me ao coro de treinadores e comentadores que já perceberam as consequências revolucionárias que a tendência provocará. De uma forma ou de outra, ficaremos cada vez mais longe da alcunha de “Brasil da Europa” e mais próximo da “Itália da Península Ibérica”. A qualidade individual permitia-nos ser brasileiros, a mentalidade portuguesa jamais nos deixará ser verdadeiramente italianos.


Rui Pedro Silva