Posted 29/04/2013 by Tiago Romeu in Convidados
 
 

Hoje, é o mister Nuno Calado quem faz o onze.

Nuno Calado: «Onze»
Nuno Calado: «Onze»

O

nze jogadores, onze canções. Nuno Calado, autor, há mais de 15 anos, do programa de culto Indiegente, da Antena 3, por onde passam as novidades do rock alternativo e independente, como também membro do colectivo No Dj’s e apresentador do programa Peep Show, da Speaky TV, aceitou o desafio e vestiu, pela primeira vez, a pele de treinador. Deliberadamente ao ataque, rapazes!

 

Michel Preud’homme

Este tumulto narrado por Don Vliet parece contrastar com a figura exacta, exímia e de quase infalibilidade do antigo guarda-redes e hoje treinador Michel Preud’homme. O contraste, porém, parece-nos apenas aparente: a ode do artista californiano fala literalmente de relâmpagos capturados com facilidade e da verdade gritada em paz. Uma poesia certamente coerente com alguém que conseguiu ser um símbolo nos três clubes que representou como jogador, assim como ganhador de títulos em todos os clubes que orientou como treinador.

Captain Beefheart – Electricity

 

 

Javier Zanetti

Filho del Docke, o porto de Buenos Aires, o todo-o-terreno interista ganha no frenesim de “60 Revolutions” um cântico que o une a Eugene Hütz, na diáspora, na constância irredutível e na origem operária de ambos. A braçadeira de Pupi Zanetti é o reconhecimento de um jogador que encarna a ideia original do clube que o acolheu há cerca de 16 anos. Menos histriónico mas igualmente desconcertante, recorre o terreno com o mesmo fulgor das 60 revoluções dos Gogol Bordello.

Gogol Bordello – 60 Revolutions

 

 

Ricardo Gomes

Oriundos de barricadas opostas de Rio, Ricardo Gomes teria sido um verosímil marcador do mítico avançado brasileiro que encabeçava esse onze estratosférico mostrado ao mundo por Jorge Ben em 1976: o alinhamento de África Brasil. Quem sabe se o facto de ter jogado boa parte da sua carreira ao lado de diversos avançados africanos, desde Vata a George Weah, não terá ajudado Ricardo Gomes a ser esse central cerebral, elegante mas contundente. Formado no Fluminense, teria sido o adversário perfeito para Umbabarauma, titular intemporal no imaginário flamenguista.

Jorge Ben – Umabarauma

 

 

Mozer

Complemento muito efectivo a Ricardo Gomes na defesa benfiquista durante menos tempo do que muitos adeptos teriam gostado, o também carioca José Carlos Mozer seguiu um percurso similar ao do seu companheiro de Selecção, assinando no princípio da década de 1990 por um grande francês, no caso o Marselha, regressando depois à Luz. Como o êxito explosivo dos RATM, a raiva e o ímpeto contra a autoridade rival na sua área levavam-no a instaurar um reinado sanguinário durante 90 minutos. Alterava a ordem e, também pelos resultados que obteve, marcou sempre uma era onde jogou.

Rage Against the Machine – Killing in the Name

 

 

Lothar Matthäus

Curiosa a dedicatória a Matthäus desta espécie de elegia canábica e de libertação ancestral cantada por Nina Hagen, trota-mundos transgressora e sempre perturbadora de Berlim Oriental cujo vínculo mais significativo ao futebol será porventura ter dado voz ao hino ao siderúrgico Union Berlin. A verdade é que, apesar do aparente contraste, a exactidão, sentido posicional e capacidade tanto de passe como de desarme de Lothar Matthäus impunham aos companheiros uma rara liberdade criativa, uma simplicidade tão eficaz como revolucionária. Talvez por isso conserve o maior número de internacionalizações da história da Mannschaft e uma declaração desconcertada de Maradona classificando-o como o mais complicado rival futebolístico que conheceu.

Nina Hagen – African Reggae

 

 

Zinedine Zidane

Entre o Sahel dos rockers tuaregs e o Mediterrâneo de Zizou jaz um deserto, o tal que é cantado na errância melancólica de Cler Achel. Um dos maiores centrocampistas da história do jogo, catarse futebolística do colonialismo mediterrânico, Zinedine Zidane descobre-se neste tema como jogador paradoxal. Hipnótico, de controlo magnético, sempre basculante entre os extremos de frieza e fervura. Um elemento estranho mesmo na consagração, acabou por consumar uma carreira histórica, feita de triunfos mas sempre com a euforia como miragem.

Tinariwen – Cler Achel

 

 

Luís Figo

Três anos depois dos Táxi lançarem o êxito Chiclete, estreava-se Luís Figo nos iniciados d’Os Pastilhas. “Como tudo o que promete nesta vida”, Figo embala para uma carreira premiada de êxitos tanto colectivos, com várias ligas de clubes, a Liga dos Campeões e um Campeonato do Mundo de Sub-20, como individuais, erigindo-se como o maior símbolo do futebol português do final do século XX e princípio do seguinte. De brilho menos fugaz que o quarteto portuense, Figo partilhava, isso sim, a faísca e a desenvoltura num futebol “de consumo imediato” cujo êxito é inquestionável.

Táxi – Chiclete

 

 

Diego Maradona

Se Larchuma Football Club representa o clube genérico, sem nome, expressão substituível pelo que ocupa o peito de cada adepto de futebol que oiça o tema apoteótico de Mano Negra, Santa Maradona, pelo contrário, é ícone de uma religião concreta, com o seu nome e apelido, êxtases e exorcismos. “Priez pour moi”, essa prece a Diego, que na voz de Manu Chao confunde Maradona e futebol. Uma intuição difícil de discordar a respeito de dois conceitos que sempre representaram o expoente máximo um do outro. “Gran gusto Maradona”, e como no estádio, cantamos em coro.

Mano Negra – Santa Maradona

 

 

George Best

Talento futebolístico em sintonia com a revolução da cultura ocidental do pós-guerra. Talvez o Quinto Beatle em popularidade mas talvez mais parecido ainda com Marc Bolan na sua digressão pelos extremos, uma viagem de flanco a flanco, entre dribles, troféus, golos, sexo, álcool e vertigem. De Belfast ao coração do Império, George Best foi um dos primeiros heróis futebolísticos da cultura de massas, um brinquedo do século XXI para um futebol a meio caminho da arte e do entretenimento mediático. Um futebolista literalmente incrível, tão assombroso como divertido. Fiel ao jogo e a pouquíssimas outras coisas, “everybody says it’s just like rock’n’roll”.

T. Rex – 20th Century Boy

 

 

Eric Cantona

“I think it’s strange, he’s friend with Fu Manchu’s, and he thinks he knows you”. Esta frase dos norte-irlandeses Ash, a caminho do refrão, poderia referir-se a Eric Cantona: estranho e tão capaz de estabelecer amizade com um génio do mal como próximo, assombrosamente próximo, do adepto e do espectador. Neste caso, a canção remete para um caso tragicómico de proximidade, o golpe marcial que fez transcender para a cultura pop aquilo que Cantona já mostrava dentro do campo: genialidade, imprevisibilidade, eficácia e perigo, entre outras delícias.

Ash – Kung Fu

 

 

Jürgen Klinsmann

Formado em Estugarda, região berço de boa parte da indústria automóvel alemã, nos anos 70, Jürgen Klinsmann pilotou a dianteira de várias equipas dos principais campeonatos europeus e a sua própria Selecção, cruzando a meta da imortalidade ao sagrar-se campeão europeu e mundial com a sua Mannschaft. Com mais de 300 golos anotados e mais de 10 temporadas consecutivas sem baixar dos 10 golos, Klinsi foi durante largos anos o modelo mais fiável, resistente e elegante de todas as máquinas de área de fabrico germânico.

Kraftwerk – Autobahn

 

 


Tiago Romeu