Posted 24/07/2011 by Tiago Romeu in Convidados
 
 

O caminho dos campeões

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êxito, que modelo de clube de organização para gerá-lo e perpetuá-lo e, no fundo, a que nos referimos quando falamos dele. E o FC Barcelona como paradigma de vários tipos de êxito. É uma formulação possível do porquê de “El Sendero de los Campeones”, editado originalmente em Março deste ano em catalão com o título “El Camí dels Campions”, e escrito por Martí Perarnau, jornalista, produtor publicitário e analista futebolístico nascido em Barcelona em 1955.

Foi um ano diferente e altamente significativo, este da concepção e da escrita deste livro, em termos de sucessos e do que eles significam. Entre o Verão de 2010 e o de 2011, Espanha vence um Mundial com uma equipa, um estilo e uma eficácia em boa parte baseada no futebol blaugrana e no verão seguinte. A selecção de sub-21 ganha também o Europeu, novamente com vários jogadores e o próprio treinador Luis Milla iniciados e formados no futebol pelo clube catalão. Em competições de clubes, FC Barcelona ganha, em futebol sénior, a Liga BBVA, Taça do Rei, a Supercopa espanhola e a Liga de Campeões da UEFA. O FC Barcelona B acaba a Liga Adelante, segunda divisão espanhola, no 3º lugar, posto imediatamente antes da subida (à qual nunca teria direito, pelo regulamento) e com o melhor ataque, ex-aequo com o campeão Real Bétis, e com o melhor marcador, Jonathan Soriano.

Objectivamente, os denominadores comuns são os títulos obtidos, o estilo transversal a várias formações a presença de jogadores do Barcelona na espinha dorsal das equipas que o conseguem, e o passado formativo blaugrana na maioria destes casos. A relação entre o sucesso e o trabalho paulatino desde a base torna-se evidente e a busca constante de inovação e aperfeiçoamento ficou cristalizado também neste período, em que a estrutura abandona o antigo edifício da Masia, velha mansão senhorial ao lado do Camp Nou que servia de sede das camadas jovens e dormitório a alguns jogadores da formação, e instala-se na moderna Cidade Desportiva de Sant Joan Despí, novo quartel general de todo o futebol barcelonista.

Se a Masia, a marca que tutela a estrutura de futebol desde os 6 anos até aos seniores, está na base de todos estes resultados, da consagração do estilo e da substância, qual é a base cultural, teórica e prática da Masia?

A reflexão que motiva o livro é justamente esta: se a Masia, a marca que tutela a estrutura de futebol desde os 6 anos (com o FCBEscola) até aos seniores, está na base de todos estes resultados, da consagração do estilo e da substância, qual é a base cultural, teórica e prática da Masia? Esta monografia sobre as linhas mestras do projecto tem tanto de investigação como de homenagem. No completíssimo documento, em que a maioria dos principais protagonistas da do projecto, passados e presentes, são consultados e entrevistados, Martí Perarnau percorre esse caminho dos campeões que dá nome ao título, simplificando os elementos, destacando as qualidades necessárias e alertando para as dificuldades e dissonâncias entre algumas expectativas e realidades. E fá-lo de uma forma apaixonada, como seguidor lúcido do FC Barcelona mas também com a experiência de um atleta de alta competição, ele que foi saltador em altura nos Jogos Olímpicos de Moscovo e recordista espanhol da modalidade.

Enunciando a ideia que o modelo de jogo no campo e o modelo de gestão se confundem e se alimentam numa simbiose cujos resultados desportivos mas também sociais, Perarnau descarta a ideia de uma fórmula mágica como um atalho para a glória mas resume a receita do jogo, “técnica e talento, é simples”: jogar bem, conservar a posse da bola, associar-se, combinar, defender atacando e procurar sempre a baliza contrária. “Entender o jogo na expressão literal e completa do termo”. Afinal, trata-se, segundo o autor, de formar pessoas com valores, para além de futebolistas, e é neste sentido que prefere falar de uma multinacional da formação que de uma “cantera”. Colocar objectivos a este nível reformula justamente a noção de êxito e a afirmação de que “não há sucesso maior que formar um jogador para a primeira equipa, mais do que ganhar um título” ganha uma nova dimensão quando o seu autor é Pep Guardiola, aprendiz e mestre na disciplina e ganhador de títulos em todas as competições em que liderou o FC Barcelona na sua ainda curta trajectória nos bancos.

Estruturado em 5 grandes capítulos num registo entre a reportagem jornalística e o relatório técnico, o “Sendero de Campeones” é assim um livro de futebol mas também de pedagogia. Começa na Ideia, enumerando os princípios e a sua evolução, traçando uma genealogia assente em 3 grandes figuras – Laureano Ruiz, desde 1972, Cruyff e actualmente Guardiola – e na integração de todo o futebol, juvenil e sénior, num mesmo modelo de jogo e numa só metodologia de trabalho. Particularmente deliciosa é a parábola dos feijões secos, de Charly Rexach, outra das personagens centrais no jogo de luzes e sombras do modelo barcelonista: a ideia que, tal como num prato cheio de feijões amontoados, há que mover a equipa e o sistema de jogo, embalá-la e deixar que se coloque no lugar para que todos os elementos se acomodem e funcionem sem perturbações.

O livro, para além de pedagogia e de futebol, também é um livro de idiomas. De um em concreto, o idioma Barça

Esta parábola evidencia que o livro, para além de pedagogia e de futebol, também é um livro de idiomas. De um em concreto, o idioma Barça, descrito no segundo capítulo, sobre o Modelo. Fala-se de modelos tácticos, de “Barçafalantes”, de posições da casa, do 4 e do terceiro homem. Das expressões que passam de geração em geração ao longo das 2 mil horas estimadas de repetição de exercícios e de aplicação de metodologia que se estima que um jogador da formação aplica até chegar à primeira equipa. Fala-se de feijões secos num prato para explicar a necessidade de amadurecer com a paciência e a certeza de um trabalho bem feito. E não é por acaso que esta mesma parábola foi utilizada pelo próprio Martí Perarnau para descrever a primeira parte da última final da Liga dos Campeões contra o Manchester United, a da equipa blaugrana amontoada num prato nos primeiros quinze minutos, a embalar e embalando o adversário até recuperar as suas posições e funções originais e resultar.

O terceiro capítulo, o da Instituição, traz a perspectiva histórica, sobre a génese das infraestruturas físicas, técnicas e humanas. A dimensão prática do quotidiano, o modelo organizativo e a sua evolução desde a reabilitação da mansão na segunda metade da década de 70 até à transferência da máquina para a nova Cidade Desportiva. Volta a ganhar peso a dimensão pedagógica e outros elementos e factores que normalmente ficam na rectaguarda do escrutínio público, como a relação entre o rendimento desportivo e a vida familiar ou o rendimento escolar. O mesmo principio subjaz ao quarto capítulo, o da Captação, dedicado longa e detalhadamente à estrutura e aos processos de identificação e captação de talento e ao seu aperfeiçoamento ao longo dos tempos.

Particularmente interessante para compreender os dois mercados do FC Barcelona, o interno e o externo (assim como o porquê do primeiro tender a dar mais frutos que o segundo), é neste capítulo que as luzes e sombras se transformam também em sorte e azar

O último capítulo é justamente dedicado à Selecção, ao que encontram mais do que a quem procura, como no capítulo anterior. Particularmente interessante para compreender os dois mercados do FC Barcelona, o interno e o externo (assim como o porquê do primeiro tender a dar mais frutos que o segundo), é neste capítulo que as luzes e sombras se transformam também em sorte e azar. O factor da fortuna é bem presente tanto na trajectória de, por exemplo, Jorge Troiteiro, o verdadeiro alvo dos olheiros do FC Barcelona em Setembro de 1996, tão prometedor que se propuseram mesmo a aceitar no clube o seu melhor amigo como um mero acessório para a sua integração numa nova cidade. O melhor amigo um franzino, tímido e despercebido Andrés Iniesta. Ou o caso de Tristany Piqué, cujo prestígio e bons relatórios levaram um dos máximos responsáveis pelo futebol formativo do clube a Tarragona para observá-lo e confirmar a sua transferência. A insistência do responsável em não querer saber o número do jogador que ia sondar, para descobri-lo pelo seu futebol e sem preconceitos, o levou a contratar ali mesmo outro jogador que pensava ser Tristany mas que em realidade era um companheiro de equipa: Sergi Roberto, hoje internacional jovem por Espanha e já estreado na primeira equipa.

O epílogo é uma jóia para o leitor e um documento cujo potencial histórico é difícil de avaliar agora mas que será certamente interessante de voltar a ler daqui a poucas décadas: um guia com os 50 jogadores que, de segundo o autor, representam o melhor das camadas jovens do FC Barcelona. Inclui um relatório individual com trajectória, pontos fortes e a melhorar de cada um deles. Não deixa de ser curioso que, desde a primeira edição do livro, em Março deste ano, a lista vê-se agora reduzida a 45, numa progressão que se pode acompanhar no blog criado para suceder e actualizar o livro: De La Masia al Camp Nou.

Em suma, um esforço notável de compreender as chaves do êxito e de desdobrar este próprio conceito para além do palmarés. Acima de tudo um livro ágil, curioso e apaixonado escrito num momento extremamente oportuno, uma era futebolística na qual é fácil ficar-nos pelo deslumbramento e perder de vista as origens do que vemos e do que nos surpreende.

 

O Livro

El camí dels campions Senda de campeones
El camí dels campions | Martí Perarnau ou Senda de campeones | Marti Perarnau

 

foto de abertura © “El camí dels campions”


Tiago Romeu