Posted 28/07/2011 by José Pedro Teixeira in Colunas
 
 

«Peixe»: América reconquistada

santos_2011
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D

ata de Março de 1959 a apresentação de um projecto ambicioso para uma competição sul-americana de Elite. Votou-se, no dia 5 desse mês, a proposta apresentada por Chile e Brasil e, aí, nasceu a “Libertadores da América”. Curiosamente, a única Federação que se opôs foi a Uruguaia, que acabou por ver o seu representante de 1960, o Club Atlético Peñarol sagrar-se primeiro campeão de sempre da competição e, imagine-se, invicto.

O Santos chegara à Libertadores 2011 na condição de vencedor da Copa do Brasil 2010, competição em que se evidenciou Neymar, sendo o artilheiro máximo, com 11 golos apontados. Comandava, nessa altura, o timoneiro Dorival Júnior que, mesmo tendo vencido 2 competições numa temporada, viria a abandonar o clube em litígio com a super-estrela paulista, Neymar. Muricy Ramalho foi o sucessor natural, após arrecadar o Brasileirão 2010 com o Fluminense de Darío Conca e Deco. Depois de uma fase de grupos em que enfrentou a feroz oposição de Cerro Porteño e Colo Colo, bateu, sucessivamente, America, Once Caldas e, novamente, Cerro Porteño até atingir a final, frente aos primeiros vencedores da Libertadores.

Ao longo da competição, Muricy Ramalho apostou num 11 relativamente constante do meio campo para a frente, excepção feita à ausência de Ganso, por lesão, desde a 1ª mão dos quartos-de-final. A espinha dorsal ofensiva na 1ª mão da final foi precisamente a mesma que conduziu o Santos à glória na semi-final, com Danilo (reforço do FC Porto para 11/12), Arouca, Elano, Zé Eduardo “Love” e Neymar. No eixo mais recuado, Léo (ex-Benfica) e Edu Dracena (expulso na 2ª mão da semi-final) foram substituídos por Alex Sandro (aquisição do FC Porto 11/12) e Bruno Rodrigo (ex-Portuguesa), respectivamente. Na baliza, sempre o jovem Rafael.

Para a decisão no Pacaembu, Muricy apostou em 10 dos 11 jogadores que actuaram na vitória por 1-0 sobre o Cerro Porteño, a 25 de Maio. A ausência foi Pará, por opção técnica, substituído por Danilo, numa grande demonstração de confiança do treinador na polivalência do futuro azul-e-branco.

 

A Táctica

Peñarol 0-0 Santos (jogo 1)

 
Peñarol 0-0 Santos (jogo 1)

Peñarol 0-0 Santos (jogo 1) – Variação

 
Peñarol 0-0 Santos (jogo 1) - Variação

Santos 2-1 Peñarol (jogo 2)

 
Santos 2-1 Peñarol (jogo 2)

 

Chaves

1. Imprevisibilidade e Mobilidade – Acima de tudo, no sector ofensivo, através de Arouca, Elano, Ganso, Neymar e Zé Eduardo “Love”. Estes dois últimos, devem designar-se avançados, mas nunca pontas-de-lança. Tendem frequentemente a descair para as alas, num movimento cujo objectivo é esticar a linha defensiva adversária, aumentando os espaços entre os elementos. Tirando partido desta característica chave do meio-campo, os centro-campistas tendem a aparecer para finalizar, penetrando nos espaços abertos pela deslocação dos 2 avançados. (ver imagem).

2. Exploração ofensiva dos alas – Foi mais visível na 1ª mão, em que foi frequente ver o Santos actuar em 3x5x2 em algumas fases do jogo, com a subida de Alex Sandro para a extrema esquerda. Pará, com menos apetência ofensiva, não foi tão fulgurante nas subidas, algo que também pode ser explicado pela presença de Elano na ala respectiva. No 2º jogo, de forma mais contida, Léo e Danilo (encarregue, nesse jogo da ala direita da defesa), subiram com mais cautela mas, no fim de contas, com maior eficácia. Foi explorando esta chave que o Santos chegou ao 2-0, com finalização de Danilo. Com base na exploração dos alas, os paulistas, com frequência, alternaram entre 4x1x3x2 e 3x5x2. À natural aptidão para avançar no terreno de Alex Sandro junta-se também um sentido de baliza muito razoável para um ala e um pontapé forte, o que torna este ponto forte do Santos particularmente nocivo para os adversários. Com a saída do brasileiro para o Futebol Clube do Porto, o Peixe terá que procurar uma alternativa válida a Léo.

3. O papel de Adriano – Muricy Ramalho apostou em Durval nas duas mãos, ao lado de Bruno Rodrigo na 1ª e Edu Dracena, o capitão, na 2ª. Em ambos os casos, os centrais contaram com o vital apoio do “volante” (termo local para “trinco”) Adriano para anular linhas de passe que iam surgindo à frente da linha defensiva e atrás da linha de centro-campistas. No 2º jogo, a participação tornou-se particularmente importante já que anulou (marcando, várias vezes, homem-a-homem) a entidade mais perigosa do ataque do Peñarol, Martinuccio, durante os 90 minutos.

 

Análise

– Em condições normais, a defesa do Santos assenta a sua estrutura numa linha clássica de 4 jogadores. Em termos de contribuição para a 1ª fase de construção, nenhum dos quatro se priva de o fazer, sendo que o mais comum é serem os defesas-laterais (doravante designados alas) a iniciarem os lances de ataque.

– Como já detalhado anteriormente, os centrais Durval e Bruno Rodrigo ou Edu Dracena contam, de forma consistente, com o vital apoio de Adriano, jogador-chave nos processos de reorganização defensiva, após perda da posse de bola. É um trinco com nível técnico suficientemente elevado para avançar no terreno com bola dominada, embora raramente o tenha feito frente ao Peñarol. Dadas as continuadas subidas dos alas, participa com afinco nos movimentos de compensação quer à direita, quer à esquerda, permitindo aos dois centrais maior concentração nas movimentações ofensivas dos avançados do Peñarol na sua área.

– Apesar de conseguirem assegurar os níveis básicos de participação ofensiva, os centrais do Santos são relativamente vulneráveis quando expostos a uma pressão alta da equipa adversária. Principalmente na 1ª mão, foram visíveis as dificuldades que Martinuccio e Olivera criaram quando pressionaram os centrais na sua zona de conforto. Algo que também não contribui para a segurança da defesa sob pressão é o facto de o guarda-redes Rafael, de 21 anos, eventualmente fruto da sua pouca experiência, ter algumas dificuldades na reposição em jogo (particularmente na 1ª mão, na qual, aos 63 minutos, já tinha colocado 3 bolas directamente para fora).

– É o sector mais diversificado e dinâmico do Santos. Consoante a presença ou ausência do maestro, Ganso, varia no seu formato. Dada a mobilidade e variabilidade deste sector, será mais útil fazer uma análise jogador – posicionamento – tarefas para melhor entendimento do funcionamento geral do miolo paulista.

Arouca é o pêndulo do meio-campo do Santos. Possante fisicamente e, não obstante, rápido. Move-se no tabuleiro de jogo encarnando frequentemente o papel de médio centro clássico, com equilibradas preocupações ofensivas e defensivas. Embora, ocasionalmente, possa ser visto no corredor direito, sente-se nitidamente mais confortável a pisar terrenos mais interiores. Este seu posicionamento aplica-se nas várias variações a que Muricy Ramalho recorre, quer no 4x4x2 losango, quer no 3x5x2 (visto várias vezes na 1ª mão), ou mesmo no 4x1x3x2 (formação predominante nos 2 jogos). Elano assume-se como flanqueador direito. Não é propriamente um extremo já que raras vezes corre ao longo do flanco direito para cruzar na linha de fundo. Tira proveito deste facto, pelo que surge com facilidade naquilo que designarei na secção ATAQUE como 2ª fase da transição ofensiva, para tentar finalizar de meia distância. Danilo, quando utilizado neste sector, retira alguma imprevisibilidade à equipa, mas concede-lhe mais consistência e maior ligação defesa-ataque. Pode actuar a médio esquerdo, mas não espelhando Elano, o que confere ao Santos uma assimetria táctica interessante nestas condições. A grande diferença para o companheiro da direita é a ainda maior tendência de “fechar” no meio, também fruto da maior apetência ofensiva de Alex Sandro comparativamente com Pará. Referência feita ao 1º jogo, naturalmente.

Ganso, que surgiu na 2ª mão depois de 45 dias afastado por lesão muscular, é o vértice mais adiantado do polígono centro-campista do Peixe. Jogador de um nível técnico elevadíssimo, com tremenda capacidade de definir jogadas a 1 – 2 toques. Importante, na medida em que é o elemento do plantel com maior apetência para explorar a situação predilecta de criação de oportunidades de golo de Muricy, os passes a rasgar a defesa, para explorar a velocidade de Neymar e “Love” que surgem nas costas desta. Tem ainda a capacidade para ir buscar jogo atrás, quando Arouca se encontra mais pressionado, ou mesmo à esquerda onde procurou várias combinações com Léo.

– Nos alvinegros é notória a ausência de uma referência ofensiva de área. Nem sempre a mobilidade do ataque pode ser vista como algo positivo, já que, inúmeras vezes, a equipa não consegue definir o último passe por ausência de uma entidade mais fixa no último reduto do campo. Até mesmo em lances de exploração da velocidade dos avançados (Neymar, no caso), procurando espaços atrás da defesa, o aproveitamento de cruzamentos deixa a desejar, como documenta a imagem, com a falta de um matador sistematicamente presente na zona evidenciada a vermelho. (ver imagem)

Zé Eduardo ocupa terrenos mais adiantados que Neymar e descai não raras vezes para a direita. É um elemento esforçado, com boa capacidade de construir do meio-campo para diante, recorrendo a passes tensos à altura da cintura ou rasteiros. Apesar de ser o jogador mais adiantado do Santos, não é um “matador”, nem um jogador de área. Possui uma capacidade de finalização mediana. Neymar é a definição de joga bonito. Avançado com manias de extremo, procura frequentemente explorar as costas do ala direito adversário e dos centrais. Com a bola no pé é absolutamente imprevisível, tendo uma capacidade notável no um para um. Finaliza bem e é detentor de um bom remate de meia distância. Apesar de todas as virtudes, quando pressionado de forma inteligente pode ser anulado de forma relativamente fácil. Necessita de pensar e executar mais rápido o seu jogo, particularmente se quiser procurar outros voos, nomeadamente, na Europa.

– Em termos de transição ofensiva, na sequência da exploração da velocidade dos jogadores adiante da defesa e condução do esférico até aos últimos 30 metros de terreno, são identificáveis 2 fases distintas: uma primeira em que o objectivo primário é aproveitar o balanço geral da subida em bloco para procurar espaços nas costas da defesa, quer por intermédio de “Love” e Neymar, quer por tabelas entre estes e o portador da bola que tenta surgir a queimar a linha de fora-de-jogo. Caso o adversário responda de forma coesa e não ceda espaços nas costas, o Santos explora a segunda fase da transição (pode, aqui ser já considerado o momento de organização ofensiva) que tem por base, quer a solicitação dos alas, com o objectivo de tirar o cruzamento para o centro da área, quer o aparecimento de Elano, Danilo ou mesmo Arouca em posição frontal, para o remate de média ou longa distância.

– Muricy Ramalho, ao longo da final da Libertadores, mostrou o seu lado mais conservador, ao optar por utilizar apenas 2 substituições, renunciando às habituais 3 previstas nos “manuais”.

– Apesar de contar com jogadores como Maikon Leite e Keirrison (ex-Benfica) que podiam, em algumas fases dos jogos, ter sido úteis para desorientar a sólida organização defensiva dos uruguaios, o timoneiro do Peixe utilizou Alan Patrick para refrescar o flanco direito e Bruno Aguiar (apenas 3 minutos) na 1ª mão; e Alex Sandro por Léo e Pará por Ganso, no Pacaembu.

– Neste capítulo, a equipa brasileira mostrou particular displicência ao longo das finais, reveladora da ausência de uma verdadeira força concretizadora de área que pudesse dar melhor seguimento aos cantos e livres ofensivos de Elano. O camisola 8 cobrou cerca de 95% dos lances de bola parada ofensivos da sua equipa. A única situação em que o Peixe possui uma assinalável capacidade de criar perigo, em termos de set pieces, é através dos remates directos de Elano e Neymar, em posição frontal ou ligeiramente descaídos para a esquerda do ataque alvinegro.

 

foto de abertura © www.semprepeixe.com.br


José Pedro Teixeira

 
Estudante de Medicina, Treinador-Adjunto do U. A. Povoense (sub-19), Colaborador da Wyscout.