Posted 20/03/2013 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Raio X do futebol israelita. Onda amarela com marca catalã.

Raio X do futebol israelita. Onda amarela com marca catalã.
Raio X do futebol israelita. Onda amarela com marca catalã.

Parte do artigo publicado no jornal «O Jogo», na edição de 20 de março de 2013.

 

E

m época de reformulação do quadro competitivo, fruto da redução de 16 para 14 clubes, a Premier League israelita, competição criada, em 1999/00, para substituir a Liga Leumit, antiga designação do Campeonato Nacional da 1ªDivisão, iniciou, no último fim-de-semana, o Playoff decisivo, em que 6 clubes disputam o título e 8 procuram fugir aos dois lugares de descida.

O Maccabi Tel Aviv, clube com mais títulos nacionais conquistados (18), ainda que apenas um tenha sido na era Premier League, foi o conjunto mais consistente na fase regular e é claramente favorito à obtenção do troféu que lhe escapa há 10 anos. A 9 jornadas do fim da competição, gere uma vantagem de 10 pontos sobre o Maccabi Haifa, vencedor de 7 das 13 Premier League, e de 17 pontos sobre o Hapoel Tel Aviv, adversário europeu da Académica neste exercício. Já o Ironi Kiryat Shmona, surpreendente campeão israelita em 2011/12, ocupa a 4ª posição, a 2 pontos do Hapoel, e luta pelo apuramento para a Liga Europa.

6º classificado em 2011/12, o Maccabi Tel Aviv iniciou, no último verão, uma profunda remodelação da sua estrutura. Jordi Cruyff assumiu o cargo de manager e escolheu o espanhol Òscar García, seu antigo colega no Barcelona e no Espanyol, para treinador. Apresentado como um «técnico jovem, ambicioso e muito trabalhador», Òscar, que vinha a labutar nas camadas jovens do Barcelona e com Johan Cruyff na Seleção da Catalunha, colou-se à imagem de «afilhado de Guardiola», algo que gerou euforia entre os adeptos dos «Amarelos», que voltaram a transformar o estádio Bloomfield num verdadeiro caldeirão: 13 vitórias em 14 jogos. Muito eficaz no aproveitamento de bolas paradas ofensivas, o Maccabi parte de um 4x3x3, mas revela elasticidade em momento defensivo – 4x5x1 – e ofensivo – variantes em 4x2x3x1 e 4x1x3x2, conjugando o aproveitamento de transições ofensivas com futebol apoiado.

Com a dupla Jordi/Òscar chegaram reforços de peso, como o guardião nigeriano Enyeama (ex-Lille), o central espanhol Carlos García (ex-Almería) e os internacionais israelitas Tibi (defesa central) e Radi (médio ofensivo), aos quais se juntaram, já no «Mercado de Inverno», o central argentino Fideleff (ex-Nápoles), o médio ofensivo israelita Eran Zahavi (ex-Palermo) e o avançado sueco Prica (ex-Rosenborg), autor de 6 golos em 10 jogos. No entanto, a grande figura da equipa continua a ser Eliran Atar. Colocado, no verão de 2011, no radar do FC Porto, o versátil atacante soma 22 golos em 26 jogos e justifica, aos 26 anos, patamares competitivos mais elevados.

 

Portugal-Israel: a conexão.
Bruno Pinheiro foi contratado, em janeiro, pelo Maccabi Netanya.

Bruno Pinheiro foi contratado, em janeiro, pelo Maccabi Netanya.

 

M

iguel, lateral direito, ex-Valencia, chegou a ser dado como reforço, em fevereiro, do Maccabi Tel Aviv, mas a transferência não se consumou. São, assim, dois os representantes portugueses na Premier League israelita 2012/13. Tiago Costa, antigo jogador de Rio Ave, Leixões, Estoril, Vizela, Varzim e Benfica B, cumpre a sua 5ª experiência no exterior. Chegou, no final de janeiro, ao Hapoel Tel Aviv, atual 3º classificado, emblema que o contratou ao Olympiakos Nicósia, e tem jogado com regularidade. Bruno Pinheiro, jogador formado nas escolas do Boavista, foi contratado, em janeiro, pelo Maccabi Netanya, depois de uma passagem pouco feliz pelo Gil Vicente. É titular e procura ajudar os «Diamantes» a fugir à despromoção.

Jorge Teixeira: o jogador português de maior sucesso em Israel.

Jorge Teixeira.

Jorge Teixeira foi, até ao momento, o jogador português de maior sucesso em Israel. O central português, formado nas escolas do Sporting, relançou a sua carreira, em 2009/10, ao serviço do Maccabi Haifa. Disputou a fase de grupos da Liga dos Campeões e foi vice-campeão israelita, o que o levou ao FC Zurique, de onde rumou, em janeiro, aos italianos do Siena. Pelo futebol israelita, ainda que com menos sucesso, passaram jogadores como Adrien Silva, Ricardo Fernandes, Rui Lima, Luís Torres, Bernardo Vasconcelos, Zé Eduardo ou o luso-guineense Dionísio, agora conhecido por Niche.

 

Eli Ohana

Eli Ohana

Apenas dois jogadores israelitas atuaram na Liga portuguesa. Eli Ohana, considerado o melhor jogador do seu País de todos os tempos, representou, em 1990/91, o Sporting de Braga. Vencedor, em 1988, da Taça das Taças e da Supertaça Europeia pelos belgas do Mechelen, onde foi colega de Preud’homme, somou 3 golos em 24 jogos no campeonato português. Alexander Zahavi, internacional sub-21 israelita, depois de ter representado as Seleções jovens portuguesas, realizou 1 jogo, na Liga 2011/12, pelo Vitória de Setúbal. Com uma carreira tergiversante, que o conduziu a passagens por Benfica, Arsenal, Barcelona e Sporting nos escalões de formação, começou este exercício no Olhanense, mas foi dispensado. Ilan Bakhar, em 2004/05, e Eli Zizov, em 2009/10, passaram pelo Sporting de Braga, só que não chegaram a estrear-se na Liga. Bakhar, suplente não utilizado em 4 jogos, chegou a jogar pela equipa B, enquanto Zizov, prematuramente rotulado de miúdo maravilha, atuou, depois de dar nas vistas na equipa júnior arsenalista, numa partida da Taça da Liga. Está, atualmente, no Maccabi Tel Aviv, sem qualquer minuto somado em 2012/13.

A conexão Portugal-Israel fica ainda marcada pelas transferências de jogadores estrangeiros. Nivaldo, ex-Maccabi Tel Aviv, chegou, no último verão, ao Rio Ave. Foi a transferência mais recente de um ciclo iniciado, na década de 90, com as transferências do nigeriano Okafor para o Farense e de Kandaurov para o Benfica, oriundos, respetivamente, do MS Ashdod e do Maccabi Haifa, e que se prolongaram, na década seguinte, com a aquisições de jogadores como Cadú da Silva, Mrdakovic ou Brítez. No sentido inverso, a curiosa transferência de Mayuka, avançado zambiano do Southampton, que, depois de ter treinado à experiência nos juniores do Sporting e de ter estado perto de assinar pelo FC Porto, rumou ao Maccabi Tel Aviv. Bibishkov, Joeano e Lira são três exemplos de jogadores que saíram da Académica para o futebol israelita, ainda que o caso de maior sucesso seja o do médio defensivo William, que, depois de passagens sem grande brilho por Académica, Fátima, Braga e Gil Vicente, cumpre a sua 6ª temporada em Israel.

 

Longe da afirmação internacional.
O

s maiores êxitos internacionais dos clubes israelitas foram conseguidos, na década de 70, quando disputavam as competições asiáticas. Maccabi Tel Aviv, em 1969 e 1971, e Hapoel Tel Aviv, em 1967, venceram a Taça dos Campeões. Incorporados, desde 1992/93, nas competições europeias de clubes, os casos de maior sucesso pertencem a Hapoel Tel Aviv (2001/02) e Maccabi Haifa (1998/99), clubes que chegaram aos quartos-de-final da Taça UEFA e da Taça das Taças. As quatro presenças de emblemas israelitas na fase de grupos da Liga dos Campeões – Maccabi Haifa (2), Maccabi Tel Aviv (1) e Hapoel Tel Aviv (1) – culminaram em eliminação.

 

Mercados Preferenciais.
A

s equipas israelitas podem ter no seu plantel 5 jogadores estrangeiros, aos quais se podem juntar atletas de origem judaica, convertidos ao judaísmo ou naturalizados. A busca de jovens talentos africanos é uma das grandes apostas dos clubes desde a década de 90. Houve vários casos de sucesso a nível interno, mas a maior parte dos jogadores acaba por falhar o salto para patamares competitivos mais elevados. Yakubu, avançado nigeriano que brilhou na Premier League inglesa, ou Mayuka, avançado zambiano que se destacou no Young Boys e rumou, em agosto, ao Southampton, são duas exceções à regra. Nosa Igiebor, nigeriano de 21 anos, reforço do Bétis, e o senegalês Moussa Konaté, 19 anos, contratado pelo FK Krasnodar, procuram seguir-lhes as pisadas. A Europa de Leste e a América do Sul são outros mercados muito explorados, mas aí a tendência passa por procurar jogadores mais maduros, muitos deles com trajetos errantes ou em final de carreira. Um sinal dessa opção foi dado, na década de 90, com a aquisição de vários antigos internacionais soviéticos, como Bal, Bessonov, Chanov, Kuznetsov ou Yaremchuk.

 

Talento israelita para exportação.
L

ior Refaelov e Itay Shechter protagonizaram as duas transferências mais caras que envolveram futebolistas israelitas. Refaelov, médio ofensivo/ala, rumou, no verão de 2011, a troco de 2,5 milhões de euros, do Maccabi Haifa para os belgas do Club Brugge, impondo-se como unidade nuclear. A mesma verba permitiu a transferência do avançado Shechter, no verão de 2011, do Hapoel Tel Aviv para os alemães do Kaiserslautern. Apesar de não se ter destacado na Bundesliga, rumou, no final de agosto, ao Swansea City, onde tem sido pouco utilizado. Yossi Benayoun (Chelsea) e Tal Ben Haim (QPR), apesar de estarem numa fase menos luminosa, são dois exemplos de jogadores que construíram carreiras sólidas na Premier League inglesa, no seguimento do que acontecera com Ronny Rosenthal ou Eyal Berkovic. Já o veterano guardião Dudu Aouate cumpre a sua 10ª temporada na Liga espanhola, quase sempre como titular. Está no Maiorca, emblema que tem nas fileiras o seu compatriota Tomer Hemed, avançado que soma 8 golos em 2012/13. Destaque ainda para os bons desempenhos de Bebars Natcho (Rubin Kazan) e Beram Kayal (Celtic), que contrariam os falhanços de jogadores internacionais como Eran Zahavi, Gil Vermouth, Gal Alberman, Maor Buzaglo e, principalmente, Ben Sahar, avançado de 23 anos, um ex-menino prodígio que já passou, sem sucesso, pelo futebol inglês, holandês, espanhol, francês e alemão.

 

As estrelas da Liga.

 

 
  • Eliran Atar

    Eliran Atar (Maccabi Tel Aviv). 26 anos. Foi colocado, há dois anos, no radar do FC Porto. Melhor marcador da Liga 2012/13, com 22 golos em 26 jogos, tem sido decisivo na campanha triunfal do Maccabi Tel Aviv. Unidade móvel de ataque, capaz de jogar a «9» ou a explorar diagonais a partir de uns flancos, trata-se de um jogador tecnicamente evoluído e muito agressivo, que se destaca pela velocidade, agilidade, perspicácia na desmarcação e facilidade na finalização com os dois pés.

  • Maharan Radi

    Maharan Radi (Maccabi Tel Aviv). 30 anos. Atravessa a melhor fase da sua carreira, o que lhe valeu o regresso à Seleção. Contratado, no último verão, ao Bnei Saknin, junta 7 golos a 10 assistências em 2012/13. Médio ofensivo móvel, conjuga qualidade na leitura e condução de jogo com bons argumentos no passe e nos cruzamentos. Possui um remate forte, em bola corrida ou parada, de pé direito.

  • Omer Damari

    Omer Damari (Hapoel Tel Aviv). 23 anos. 54 golos nas últimas 4 épocas fazem dele o avançado da moda do futebol israelita. Unidade móvel de ataque, pode jogar como «9», segundo avançado ou a explorar diagonais a partir de uma das alas. Veloz e muito incisivo, desmarca-se com grande facilidade, patenteando sentido de oportunidade e capacidade de antecipação em zona de finalização. Define, preferencialmente, com o pé direito, mas também sabe tirar partido do pé esquerdo e do jogo aéreo.

  • Hen Ezra

    Hen Ezra (Maccabi Haifa). 24 anos. Contratado, no último verão, ao Maccabi Netanya, onde se afirmou como uma das figuras da pretérita temporada, tem assumido um papel crucial nos «Verdes». Médio ofensivo versátil, tende a atuar a partir de uma das alas, mas também pode ocupar uma posição central. Forte em ações de condução, ao aliar velocidade e qualidade de drible, patenteia argumentos nos passes de rutura e em finalizações, de dentro ou de fora da área, com o pé direito (o esquerdo não é cego), em que explora o seu bom poder de desmarcação.

  • Pedro Galván

    Pedro Galván (Bnei Yehuda). 27 anos. Com uma carreira sem expressão na Argentina, ao serviço de Gimnasia de La Plata e San Martín de San Juan, encontrou o espaço ideal para o seu futebol em Israel. Em 5 anos ao serviço do Bnei Yehuda, soma 65 golos em 152 jogos, o que o torna no grande ídolo dos adeptos dos «Leões». Típico enganche, com peso excessivo, transpira qualidade técnica, mesmo jogando a um ritmo baixo. Dotado de uma ótima visão de jogo e de qualidade de passe, destaca-se, igualmente, pelo sentido de baliza e capacidade de remate, em bola corrida e parada, principalmente em finalizações com o pé direito.

 


 

Jornal «O Jogo» – 20-03-2013

O JOGO | Onda amarela com marca catalã.

O JOGO | Onda amarela com marca catalã.

 
foto de abertura © Sharon Bukov

fotografias © news.walla.co.il; Uriel Sinai/Getty Images Europe; wikipedia.org; eliranatar.com; maccabi-tlv.co.il; sports.walla.co.il; sports.walla.co.il; bneiyehuda.co.il.


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.