Posted 01/05/2013 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Rio Ave 1981/82. Os «Mourinhos» de trabalho, a fortaleza da Avenida e José (Mário) Mourinho.

José Mário ou Mourinho Júnior. Os «Mourinhos de trabalho»: a avenida do Rio Ave 1981/82.
José Mário ou Mourinho Júnior. Os «Mourinhos de trabalho»: a avenida do Rio Ave 1981/82.

D

epois de ter realizado, em 1979/80, uma estreia muito modesta na divisão maior do futebol português, o Rio Ave regressava, em 1981/82, ao Campeonato Nacional da 1ª Divisão. O protagonista da subida foi José Mourinho Félix, técnico que, durante a temporada anterior, substituíra Fernando Cabrita no comando do clube vila-condense. A história da substituição do treinador, no início do último terço da época 1980/1981, não deixa de ser curiosa: Cabrita estava a atingir o objectivo a que se propusera – o Rio Ave era 1º na 2ª Divisão Zona Norte – mas os adeptos estavam insatisfeitos com as exibições, com as opções do técnico e com a sua política de aquisições.

Um empate na deslocação ao terreno do Riopele (1-1), emblema que procurava escapar à despromoção, ditou o despedimento do técnico algarvio, que viria a ser, passados dois anos, seleccionador nacional. Mourinho Félix chegou, no final de fevereiro de 1981, a Vila do Conde e, apesar da má estreia (empate caseiro com o Fafe à 20ª jornada), conseguiu segurar a liderança e alcançar a almejada subida de divisão a uma jornada do fim da prova. Com o Campo da Avenida bem composto, um golo de (Baltemar) Brito, central brasileiro que viria a ser adjunto de José Mourinho na União de Leiria, no FC Porto e no Chelsea, garantiu o triunfo diante do Bragança (1-0).

«De um plantel desequilibradíssimo passamos para um plantel curto mas de muita qualidade».
(Duarte Sá)

De regresso à 1ª Divisão e com 22 mil contos (110 mil euros) de orçamento, o Rio Ave procurava não repetir os equívocos do exercício de estreia e garantir a manutenção. António Vilacova, então director de futebol, revelava pragmatismo: «Queremos evitar a repetição do que já nos aconteceu e não foi nada agradável. Estamos a preparar uma equipa que possa garantir a manutenção da equipa no lote dos grandes». Duarte Sá, o eterno «capitão» do Rio Ave, único clube que representou ao longo da sua carreira, explicou-nos as diferenças de abordagem às temporadas 1979/80 e 1981/82: «Mudou tudo. De um plantel desequilibradíssimo, com veteranos pouco motivados e alguns jogadores sem categoria, passamos para um plantel curto mas de muita qualidade. Faltava-nos um avançado de referência. Estou convencido que se o N’habola (grande goleador do Rio Ave entre 1982 e 1984, período em que apontou 32 golos em 60 jogos na 1ªDivisão) estivesse nessa equipa dávamos luta aos três grandes!».

 

CROMOS FUTEBOL MUNDIAL
 
  • Trindade

    Guarda-Redes. 25 anos. 30 jogos, 31 golos sofridos.

  • Alfredo

    Guarda-Redes. 19 anos. 1 jogo, 0 golos sofridos.

  • Alberto

    Guarda-Redes. 22 anos. 0 jogos.

  • Sérgio

    Lateral Direito. 22 anos. 26 jogos, 0 golos.

  • Figueiredo

    Defesa Central. 28 anos. 26 jogos, 2 golos. Marcou 2 golos na Taça de Portugal: melhor marcador do clube na competição.

  • Baltemar Brito

    Defesa Central/Libero. Brasileiro. 30 anos. 29 jogos, 2 golos.

  • Duarte

    Lateral Esquerdo/Defesa Central. Capitão. 29 anos. 30 jogos, 2 golos. Único totalista do plantel: 2700 minutos de utilização.

  • Dias

    Defesa Central. 22 anos. 8 jogos, 0 golos.

  • Caíca

    Lateral. 28 anos. 7 jogos, 0 golos.

  • Samuel

    Defesa Central. 23 anos. 2 jogos, 0 golos.

  • Passo

    Defesa/Médio. 20 anos. 0 jogos.

  • João Eusébio

    Defesa/Médio. 20 anos. 0 jogos.

  • José Manuel

    Médio Defensivo. 27 anos. 20 jogos, 0 golos.

  • Adérito

    Médio/Avançado. 26 anos. 26 jogos, 3 golos. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Paquito

    Médio/Extremo/Avançado. 21 anos. 30 jogos, 3 golos. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Quim

    Médio. 22 anos. 28 jogos, 1 golo. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Cabumba

    Médio/Médio Esquerdo. 25 anos. 29 jogos, 2 golos. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Wálter

    Médio. Brasileiro. 31 anos. 15 jogos, 0 golos.

  • Mário Reis

    Médio. 34 anos. 2 jogos, 0 golos. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Luís Saura

    Médio. 19 anos. 0 jogos. Realizou 1 jogo na Taça de Portugal.

  • José Mourinho

    Médio/Avançado. 19 anos. 0 jogos. Realizou 1 jogo na Taça de Portugal.

  • Pires

    Extremo/Avançado. 24 anos. 18 jogos, 4 golos.

  • Álvaro Soares

    Extremo/Avançado. 21 anos. 29 jogos, 5 golos. Marcou 1 golo na Taça de Portugal.

  • Alberto Dodat

    Avançado. Uruguaio. 27 anos. 11 jogos, 0 golos.

  • Eusébio Patriota

    Avançado. Brasileiro. 20 anos. 4 jogos, 1 golo.

  • Biro-Biro

    Avançado. Brasileiro. 27 anos. 0 jogos. Assinou contrato pelo Rio Ave, mas não chegou a ser inscrito.

  • Mourinho Félix

    Treinador. Liga: 30 jogos, 13 vitórias, 8 empates, 9 derrotas. 5º lugar final. Taça de Portugal: Eliminado, nos oitavos-de-final, pelo Ginásio Alcobaça (0-1, fora). Eliminou Cartaxo (3-2, fora), Salgueiros (2-1, fora) e Sacavenense (3-1, fora).

 


Mourinho Félix procedeu a uma reestruturação do plantel. Camegim e Tó Lima, os dois melhores marcadores da equipa no trajecto da subida, não entraram no novo plantel, assim como o central Feliz Soares ou o lateral direito Babalito, titulares indiscutíveis no exercício anterior. Sérgio, lateral direito, ex-Bragança, Caíca, lateral, ex-Portimonense, e Figueiredo, defesa-central, ex-Amora, reforçaram o sector defensivo. José Manuel, ex-Amarante, Cabumba, ex-Vitória de Setúbal, e o brasileiro Wálter, ex-Penafiel, com carreira construída no futebol português, eram as novidades para o meio-campo. O ataque receberia o versátil Adérito, ex-Bragança, convertido em médio, e uma dupla de brasileiros: o desconhecido Eusébio Patriota e o «flop» Biro-Biro, um sósia do jogador que, nesse período, brilhava no Corinthians.

Emilson Vasconcelos de Souza, o Biro-Biro, apresentava-se como ex-Atlético Mineiro e foi a estrela da abertura oficial da temporada: «Eu sou um ponta-de-lança que gosta de entrar na área com a bola, em corrida, e depois bater o goleiro. Modéstia à parte, tenho um bom domínio de bola. Jogo com os dois pés… se não jogasse eu caía. Vim para triunfar e marcar quantos golos eu puder, para minha satisfação e alegria dos torcedores». Avançado folclórico, que, afinal, saía de um percurso pouco brilhante no futebol venezuelano, não somaria qualquer minuto no Campeonato Nacional. Nem poderia ter somado. Apesar de ter assinado contrato com o Rio Ave, Emilson «Biro-Biro», que chegou a realizar alguns jogos particulares muito pouco convincentes, nunca foi inscrito, o que não o impediu de posar para a fotografia oficial da temporada.

Entre alguns juniores promovidos, como Alfredo, (João) Eusébio e Luís Saura, figurava também José Mário dos Santos Mourinho Félix, filho do treinador, antigo júnior do Belenenses. Aos 18 anos, reforçava o plantel do Rio Ave no ano académico de transição entre o ensino secundário e o superior. Uma questão inevitável. Como é que o plantel acolheu o filho do treinador? «O plantel recebeu-o muito bem. Era um grupo cinco estrelas. Ele integrou-se lindamente até porque naquele grupo qualquer um se integrava bem. Havia uma excepção mas não digo quem era», responde-nos Duarte Sá, que, em 1981, era o único jogador da 1ªDivisão com curso superior concluído. José Mário ou Mourinho Júnior treinava com o plantel principal e jogava, às quartas-feiras, pelas reservas dos verde e brancos, numa competição organizada pela Associação de Futebol do Porto. O multifacetado comunicador Álvaro Costa, então estudante universitário, lembra-se bem desses jogos: «Era um ponto de encontro da má língua. Reuniam-se amigos e formavam-se vários círculos de conversa. Eram momentos de grande diversão, até porque nós nos metíamos com os jogadores. Dizíamos se estavam gordos, com a “toura” ou esgazeados. Alguns eram mesmo os alvos preferenciais da ira popular. O José Mourinho passava despercebido. É como o Jorge Luis Borges faz entender… É o futuro que define o passado. O querer algo sem importância ou de importância relativa tornou-se um momento crucial».

Médio ofensivo, José Mário gostava de jogar com o «número 10» e destacava-se mais pela forma inteligente como lia o jogo do que pelos atributos de ordem técnica. «Estava longe de ser destituído, mas percebia-se que a cabeça pensava melhor do que os pés conseguiam executar. Inteligia o jogo, faltava-lhe ferramenta técnica que traduzisse a sua velocidade de raciocínio, o seu desenho táctico mental», recorda o jornalista e escritor João Malheiro, então estudante universitário, que conviveu com José Mourinho em Vila do Conde. Duarte Sá, colega de equipa, traça-nos o perfil do jovem José Mário: «O Mourinho que jogou no Rio Ave era um miúdo. Como jogador era habilidoso mas pouco agressivo e fisicamente frágil. Era um pensador do jogo. Ao nível do treino era um jogador como os outros. Naquela altura, creio que ele já achava, por influência do Pai, que o seu futuro seria como treinador. Encarava o jogo como pouco mais do que um entretenimento, mas estava no grupo com muita preocupação e muita atenção ao trabalho que a equipa fazia e ao sentido colectivo do jogo».. Sobre o seu papel, nessa altura, como analista de equipas adversárias, Duarte faz revelações curiosas: «A questão da observação dos adversários é uma novidade para mim. Nunca reparei que isso acontecesse, até porque tenho ideia que ele ainda não conduzia. Contudo, quando havia uma alteração da rotina e aparecia um exercício novo, nós dizíamos: isto não é do Pai, isto foi o Zé que decidiu experimentar e trazer este exercício para a preparação da equipa».

Em 2003, numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Mourinho recordou os tempos em que era José Mário: «Não posso dizer que não era um miúdo com talento. No meu grupo de amigos, era dos mais talentosos. Mas a via académica exigia-me responsabilidades, tive que fazer as minhas escolhas. Senti que não valia a pena arriscar porque as possibilidades de sucesso não eram grandes. Sabia das minhas limitações e das minhas qualidades. O meu skill não era melhor que o skill dos outros. As minhas qualidades físicas não eram de excepção; não era rápido, e a velocidade é fundamental para o futebol de alto nível. Aquilo que me fazia melhor do que os outros era a minha capacidade de ler, analisar equipas. A visão que tinha da situação. Eu conseguia ver coisas que os outros não conseguiam, inclusive adultos».

«A despeito da idade, o regime solar dizia mais com ele do que o lunar».
(João Malheiro)

A família Mourinho integrou-se bem na hospitaleira Vila do Conde e era presença assídua no popular restaurante Ramon. Mourinho Félix, a viver um grande momento na sua carreira, destacava-se pelo fino trato, simpatia e cordialidade. Sem qualquer vedetismo. José Mário acompanhava os seus progenitores, mas fazia várias incursões pelo Disco Bar, um café-pub perto do campo do Rio Ave, frequentado por jogadores do clube e pela juventude vila-condense, como nos conta João Malheiro: «Raro era o dia em que o José Mourinho não fazia uma incursão no Disco Bar. Era sempre à tarde que aparecia. A despeito da idade, o regime solar dizia mais com ele do que o lunar. Outra característica era a recusa peremptória ao consumo de bebidas alcoólicas, apanágio da maioria dos frequentadores. Fiel ao seu sumo de laranja, o Zé não demonstrava qualquer constrangimento. Deixava já a imagem de alguém resoluto, pouco propenso a modas, nada preocupado por adoptar uma postura minoritária ou quase inexistente. Olhado sempre com curiosidade ou não fosse filho de um treinador cada vez mais benquisto pela população local e em crescendo mediático a nível nacional, cimentava popularidade, mas sobretudo infundia respeito. Até o seu sotaque sulista sublinhava a diferença e fazia-lhe disparar a persuasão. Também as miúdas pareciam beber do seu charme com reforçado batimento juvenil».

«Era um parque de diversões da idade pré-digital. Era um micro Monumental de Nuñez, uma romaria popular e excêntrica. Um manicómio social…».
(Álvaro Costa)

O Campo da Avenida, pequeno pelado perto do centro de Vila do Conde, era uma autêntica fortaleza para os comandados de Mourinho Félix, onde somaram 25 pontos em 30 possíveis em 1981/82. O que tornava o micro-caldeirão vila-condense numa fortaleza? O jornalista João Paulo Meneses, também responsável pelo blogue Reis do Ave, encontra a resposta na Alma: «Sou dos que teimam em pensar que o Rio Ave é um Clube diferente; queremos ganhar, claro, mas não queremos perder a ligação a Vila do Conde, por exemplo. Nesse sentido, o Campo da Avenida era o que melhor se ajustava a essa ‘alma’. ‘Alma’ que se perdeu no novo Estádio e que, quem sabe, algum dia se recupere… com um novo estádio». Álvaro Costa rememora com emoção o lado místico do Campo da Avenida: «Era um parque de diversões da idade pré-digital. Fui morar para ali por causa do campo. O meu Pai tinha escolhido outra casa, mas ao visitar o apartamento da Baltazar do Couto, eu e o meu irmão Fernando fizemos uma birra e ali ficamos. Era Jorge Luis Borges, sem ainda o conhecer. Era um micro Monumental de Nuñez, uma romaria popular e excêntrica. Um manicómio social… As memórias são mais do que muitas. Estava lá na invasão de campo no jogo contra os Aliados de Lordelo, vivi a subida dos regionais até à 1ª Divisão. De equipas disfuncionais até à Liguilha, diante do União de Lamas e do Juventude de Évora, que deu a primeira subida…O Avenida é a minha infância adolescente!».

 

ANÁLISE TÁCTICA

Rio Ave 1981/82 (I)

O Rio Ave partia de um 4x4x2 clássico, mas Mourinho Félix readaptava-o a um 3x5x2, de forma a fazer face ao 4x4x2 clássico, sistema utilizado por grande parte das equipas. Com isso, Duarte, lateral esquerdo, funcionava, muitas vezes, como central pela esquerda, enquanto que Figueiredo actuava como central pela direita. Brito, ligeiramente mais recuado, assumia o papel de libero. Sérgio, lateral direito, tinha mais liberdade para atacar, o que obrigava Cabumba, médio esquerdo, a desempenhar, em momento defensivo, as funções de lateral esquerdo. «A nossa equipa poderia parecer desequilibrada, mas foi uma das nossas armas. Atacávamos, preferencialmente, pelo flanco direito, tirando partido da ligação entre o Sérgio, o Paquito e o Pires», revela-nos Duarte. José Manuel desempenhava o papel de médio mais recuado, enquanto que Paquito, numa primeira fase, e Quim, actuavam como médios interiores. Na frente, uma dupla de ataque muito móvel e veloz formada por Pires e Álvaro Soares, o que tornava a equipa extremamente perigosa em contra-ataque, até porque partiam, várias vezes, dos flancos. «Em alguns jogos, principalmente em casa, experimentamos o 4x3x3, mas faltava-nos um avançado referência como viria a ser, nas duas épocas seguintes, o N’habola», conclui Duarte Sá. Se Biro-Biro nunca chegou a ser opção, o uruguaio Dodat (11 jogos/0 golos) e o brasileiro Eusébio Patriota (4 jogos/1 golo), as duas principais opções para a posição, nunca se conseguiram impor. Adérito, contratado ao Bragança, era avançado, mas acabou por ser transformado, com sucesso, em médio.

Rio Ave 1981/82 (II)

Pires atravessava um excelente momento de forma – golos decisivos nos triunfos caseiros diante de Benfica (1-0) e União de Leiria (2-0) – quando partiu uma perna, à 9ª jornada, nos minutos finais da partida frente aos leirienses. Estaria quase três meses ausente dos relvados. A fórmula de Mourinho Félix estava a resultar, facto bem expresso nos 9 pontos conquistados (4 vitórias e 1 empate) nas 5 jornadas anteriores. O problema, face à ausência de uma referência ofensiva, foi resolvido com alguma improvisação. Paquito, até aí médio interior, avançou para a posição de Pires, abrindo uma vaga no meio-campo. O brasileiro Wálter e o veterano (Mário) Reis surgiam como principais alternativas, mas o técnico apostou na conversão de Adérito de avançado em médio interior. «O Adérito, que era esperto, convenceu Mourinho Félix que seria a melhor opção para o meio-campo», recorda, entre sorrisos, o «capitão» Duarte. E acrescenta: «Continuamos a atacar, preferencialmente, pelo flanco direito, explorando agora a ligação entre o Sérgio, o Adérito e o Paquito. Aliás, o Adérito tinha uma característica que o distinguia: fazia óptimos passes de trivela do espaço interior para a ala direita».

Rio Ave 1981/82 (III)

19 de dezembro de 1981. O Rio Ave deslocou-se, em jogo a contar para a 3ª eliminatória da Taça de Portugal, ao terreno do Salgueiros, clube que lutava pela subida à divisão principal, num jogo apitado pelo internacional António Garrido, que, nesse fim-de-semana, recebera a notícia que faria parte do lote de árbitros eleitos para o Mundial 1982. Face à ausência de Pires e Cabumba, Mourinho Félix mudou o sistema táctico para 4x3x3. O brasileiro Eusébio Patriota, a actuar como avançado, era a principal novidade no «onze», onde Adérito já se fixara como médio interior. O início de jogo foi equilibrado. O Rio Ave adiantou-se no marcador, aos 34 minutos, por Figueiredo, central que deu sequência a uma defesa incompleta de Barradas, após cruzamento de Álvaro Soares. A partir daí, o Salgueiros assumiu maior domínio e procurou o empate, que chegaria, a 10 minutos do fim, através de uma grande penalidade apontada por Silva, a castigar falta de Sérgio sobre Manuel Fernandes. Seguiu-se o prolongamento…

Os 22 minutos de José (Mário) Mourinho.

No prolongamento, a superioridade física do Rio Ave veio ao de cima, até porque o Salgueiros se desgastara bastante em busca do empate. Mourinho Félix, aos 87 minutos, já refrescara o meio-campo com a entrada do veterano (Mário) Reis, que substituiu José Manuel, o que obrigou Adérito a recuar para médio defensivo. Aos 98 minutos, o pouco inspirado Eusébio Patriota cedeu o lugar a José Mário Mourinho, que, assim, realizou a sua estreia no futebol sénior e o seu único jogo oficial ao serviço de uma equipa da 1ª Divisão. Reis, 8 minutos após a entrada de Mourinho, marcaria, de livre directo, o golo do triunfo vila-condense no Campo Engenheiro Vidal Pinheiro. No final do prélio, Mourinho Félix valorizou a exibição do adversário, sublinhando a justiça do resultado: «Vencemos uma boa equipa, que luta de dentes cerrados e, por norma, vende caro as suas derrotas. Entendo que o nosso triunfo é justo». Antes do final do diálogo com os jornalistas, falou ainda sobre a estreia de Mourinho júnior: «O meu filho é um jogador como qualquer outro. Entendi que devia entrar porque está em boa forma. Não tenho complexos».

 
A 1ª volta foi fantástica e os elogios da imprensa nacional multiplicavam-se: «Mourinhos de trabalho», «tomba-gigantes», «equipa bem preparada física e tacticamente» e «formação muito bem organizada defensivamente, autoritária no meio-campo e inteligente a explorar o contra-ataque» eram algumas das imagens de marca dos vila-condenses. O campeão Benfica, a protagonizar, sob o comando do húngaro Lajos Baroti, um início de campeonato algo irregular, foi o primeiro a cair. A 18 de outubro de 1981, num jogo observado por emissários do Bayern de Munique, futuro adversário dos «encarnados» na Taça dos Campeões Europeus, um golo de Pires valeu um precioso triunfo caseiro ao Rio Ave (1-0). «Lembro-me do espião do Bayern Munique dizer que ali ninguém ganhava, como também que para ele seria mais difícil defrontar o Rio Ave naquele campo do que o Benfica», recorda Álvaro Costa.

A 27 de dezembro de 1981, o Rio Ave, na luta pelo 2º lugar, deslocou-se ao Estádio das Antas, onde arrancou mais um triunfo (2-1). O único dos «verde e brancos» na casa do FC Porto em toda a história da Liga. Jacques, que viria a ser o melhor marcador do Campeonato, adiantou os portistas no marcador, mas Freitas, de forma infeliz, marcou o auto-golo que valeu o empate ao intervalo. Perto do fim, com os «dragões» desesperados em busca da vitória, o central Figueiredo, após um canto a favor do FC Porto, galgou cerca de 70 metros com a bola nos pés sem oposição e, já dentro da área, desferiu o remate que bateu Fonseca e aumentou a contestação em redor do técnico austríaco Herman Stessl. «Foi dos jogos que me deu mais prazer jogar e ganhar. Fizemos um jogo quase perfeito. No lance do 2-1 recordo-me que estava aflito, com medo que o Figueiredo passasse a bola ao Álvaro que ia a correr ao lado dele mas adiantado. Isto é, em fora de jogo. O que vale é que o Fonseca ficou quietinho na baliza à espera que o Figueiredo rematasse e fizesse golo», revela Duarte Sá, que, em 1979/80, empatara nas Antas (1-1), num jogo em que acumulou funções de treinador adjunto com as de jogador.

No fim-de-semana seguinte, o culminar da trilogia. Recepção ao líder Sporting, a 3 de janeiro de 1982, com honras de transmissão televisiva. O pelado resistiu muito bem à chuva e o Rio Ave, num jogo extremamente equilibrado, obrigou o Sporting a ceder o 5º ponto da época (empate 0-0). Seguiu-se, no Restelo, o jogo que encerrava a 1ª volta do campeonato. O Rio Ave a ocupar um brilhante 4º lugar, a apenas 5 pontos do Sporting, 3 do Benfica e 2 do FC Porto, arrancou mais um nulo precioso (0-0). Mourinho Félix, antiga glória do Belenenses, convocou José Mário para esse prélio. Assim, a 16 de Janeiro de 1982, (José Mário) Mourinho foi suplente não utilizado pela única vez num jogo do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, naquela que terá sido uma prenda antecipada de aniversário, pois o jovem jogador, dez dias depois, completaria o seu 19º aniversário.

«Já tínhamos assegurado a manutenção, não queríamos correr o risco de ser campeões…».
(Duarte Sá)

A 2ª volta não foi tão brilhante como a primeira. O Rio Ave cedeu mais pontos, principalmente fora de casa, onde somou por derrotas todas as últimas 5 deslocações. Frente aos «grandes», o efeito surpresa desvaneceu-se: 3 jogos, 3 derrotas. O interesse de clubes em jogadores como José Manuel, Álvaro Soares ou Paquito, que assinariam pré-contratos, em dezembro, com Boavista (os dois primeiros) e Vitória de Guimarães (o terceiro), também não terá ajudado. O mesmo aconteceu com Mourinho Félix, desejado noutras paragens e com o seu nome a aparecer na lista de possíveis candidatos ao cargo de seleccionador nacional. Bem-humorado, o «capitão» Duarte explica-nos a quebra de produção: «A equipa começou a jogar de uma forma menos competitiva. Já tínhamos assegurado a manutenção, não queríamos correr o risco de ser campeões… Houve jogadores que fecharam a loja muito cedo».

José Mário, por sua vez, voltaria a entrar numa convocatória no jogo da 29ª jornada. Deslocação a Alvalade, para defrontar o Sporting, jogo que marcava a festa do título dos «leões» comandados pelo excêntrico inglês Malcolm Allison. O Rio Ave foi brindado com uma pesada goleada (1-7), que, no entanto, não apagou uma época brilhante, em que os vila-condenses alcançaram a sua melhor classificação de sempre: o 5º lugar.

«Pai, eu não vou para o banco. Não vai ser por minha causa que te vão arranjar problemas».
(José Mourinho)

Um episódio marcaria os momentos antes do jogo: Mourinho Félix, à partida, dera indicações que o seu filho José Mário seria o 17º jogador. Ou seja, o jogador que ficaria a ver o jogo da bancada. Só que, momentos antes da partida, José Maria Pinho, na altura presidente do Rio Ave, reparou que Mourinho filho estaria no banco dos suplentes, devido a uma lesão no aquecimento do central Figueiredo. Não ficou nada satisfeito com a situação e desceu até ao balneário, onde deu ordem a Mourinho Félix para que o jovem José Mário despisse imediatamente o equipamento. Mourinho pai mostrou relutância em aceitar a decisão presidencial e o balneário emudeceu. Até que Mourinho filho retirou a camisola e gritou: «Pai, eu não vou para o banco. Não vai ser por minha causa que te vão arranjar problemas». O silêncio tornou-se ainda mais ensurdecedor, mas o jovem de 19 anos vincava a sua forte personalidade. Na ficha oficial do jogo, o Rio Ave apresentava apenas 15 jogadores. O sonho da estreia na divisão maior de José Mourinho ficou, como jogador, eternamente adiado, isto apesar de ter rumado com Mourinho Félix, na temporada seguinte, ao Belenenses, que, entretanto, caíra na 2ªDivisão, ingressando no Instituto Superior de Educação Física.

No entanto, José Mourinho fez uma partida oficial pelo Rio Ave. Foi suplente utilizado, a 19 de dezembro de 1981, no jogo Salgueiros – Rio Ave, a contar para a Taça de Portugal, substituindo, aos 98 minutos, o brasileiro Eusébio Patriota. O Rio Ave venceu por 2-1, após prolongamento, com um golo de (Mário) Reis, aos 106 minutos, de livre directo, curiosamente o outro suplente utilizado nessa partida. Foi o único jogo oficial que realizou ao serviço de uma equipa da 1ª Divisão. No final da partida, o filho do treinador Mourinho Félix falou com a imprensa: «Entrei sem nervos, apesar de ter sido a primeira vez que defrontei jogadores seniores. Senti só receio pela equipa. Não por mim». Para além dos jogos de reservas, José Mário fez mais um jogo pela equipa principal do Rio Ave: foi suplente utilizado – rendeu Cabumba aos 81 minutos – na vitória (1-0) sobre o Famalicão em jogo a contar para as meias-finais do Torneio de Páscoa da Póvoa de Varzim. O Rio Ave venceu a competição, após vitória no desempate por pontapés da marca de grande penalidade (3-1), diante do anfitrião Varzim, com golos do capitão Duarte, Pires e Paquito. Curiosamente, o segundo troféu da temporada, já que, na pré-época, a formação vila-condense conquistara o Torneio de Verão da Póvoa de Varzim, sempre na casa do grande rival.

«Foi o sonho mais bonito que percorreu os Rioavistas nos últimos 50 anos».
(João Paulo Meneses)

Álvaro Costa define a temporada 1981/82 como memorável e garante que ninguém ficou triste por ter escapado o lugar europeu: «Para nós, a ida à Europa era algo próximo a uma viagem para lá da cortina de ferro. Não foi uma desilusão ficarmos tão próximo da qualificação para a Taça UEFA, até porque não era algo que vivêssemos muito. Divertimo-nos mais com as alcunhas dos jogadores, como o Adérito “Sadat”, o Sérgio “Cafeteira”, o Cabumba, o Alfredo “Furras” ou o Brito “Gancheta”, que nunca entrava para o aquecimento. Depois, havia os pormenores em redor do jogo. O adepto mudo e a tabuleta, a entrada da equipa pela linha de fundo, as caxineiras a enviarem objectos para o terreno de jogo ou a gritarem “vais ao mar” para os jogadores da equipa adversária. Havia também quem esperasse pela derrota do Rio Ave para que se fizesse uma invasão de campo. Foi o mágico realismo, o saibro da areia, a hostilidade teatral, a expressão de rudeza da vida que vivíamos nesses tempos!». Para João Malheiro, a alma e a paixão acasalaram com o rigor e a eficácia: «O Rio Ave foi a grande sensação da temporada. Actuava com impressionante rigor táctico e tanta eficácia nos processos, ao ponto de ter surpreendido, subjugado mesmo, muitos adversários mais cotados. Com um suplemento de alma incomum legitimava a ideia de que era portadora de uma mística especial e até então desconhecida». «Foi a época do sonho. Se pensarmos que era a nossa segunda época na primeira divisão (e que a primeira tinha sido um desastre), não só não descer como ainda lutar até ao fim por um lugar europeu foi o sonho mais bonito que percorreu os Rioavistas nos últimos 50 anos», remata João Paulo Meneses.

 

José Mourinho: Especial Grande Área (RTP)

 

Rio Ave 1981/82. Mourinho Félix a apresentar Mourinho Júnior (RTP)

 

Mourinho Desconhecido (RTP)

 

Rio Ave 1981/82: Plantel

 Rio Ave 1981/82: Plantel

Rio Ave 1981/82

 José Mourinho: Rio Ave 1981/82

Rio Ave 1981/82

 José Mourinho: Rio Ave 1981/82

Rio Ave 1981/82

 José Mourinho: Rio Ave 1981/82

Belenenses – Rio Ave, 1981-82 (Informação Vilacondense)

 Belenenses - Rio Ave, Liga 1981-82 (Informação Vilacondense)

Salgueiros – Rio Ave, Taça de Portugal 1981-82 (Jornal de Notícias)

 Salgueiros - Rio Ave, Taça de Portugal 1981-82 (Jornal de Notícias)

Digitalização cedida por João Paulo Meneses.

José Mourinho entrevistado após o Salgueiros – Rio Ave (Jornal de Notícias)

 José Mourinho entrevistado após o Salgueiros - Rio Ave (Jornal de Notícias)

Digitalização cedida por João Paulo Meneses.

O miúdo sempre atrás (A Bola), 1982

 José Mourinho: O miúdo sempre atrás (A Bola)

Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.