Posted 24/05/2013 by David Barata in Convidados
 
 

Rivaldo. O moleque tergiversante.

Rivaldo. O moleque tergiversante.
Rivaldo. O moleque tergiversante.

“M

uitas vezes dei dinheiro para o menino pagar a passagem de ônibus de casa para o treino e o inverso”. As palavras são de Mário Santana, o primeiro técnico de Rivaldo, ainda hoje director das escolinhas do Santa Cruz, que não hesita: “Só pelo toque de bola, sabia que seria um craque.”

Aos 11 anos, o garoto já despontava entre os jogadores mais habilidosos do Gonzagão, o campo do Cruzeiro, equipa do Bairro. Incentivado pelo pai, Valdo entrou para as escolinhas do Santa Cruz e cedo conquistou o direito de ser chamado pelo nome inteiro: Rivaldo.

A morte prematura do pai, um ex-funcionário público, quase acabou com os projetos de (Ri)Valdo. “Ele pensou em abandonar o futebol para trabalhar e ajudar a família, como fazia a maioria dos rapazes do bairro”, recorda Ronaldo Avelino Farias, amigo de infância.

A mãe de Rivaldo, Marlúcia Salomão Borba, 52 anos, insistiu para que o filho continuasse. No Santa Cruz, ganhava pouco mais de 400 reais (cerca de 150 euros). Era tido como um jogador lento e indisciplinado do ponto de vista táctico. As críticas foram a senha para a mudança: a transferência para o Mogi Mirim, clube do interior de São Paulo com o qual firmou o primeiro contrato como profissional.

Rivaldo no «Carrossel Caipira» do Mogi Mirim.

Rivaldo no «Carrossel Caipira» do Mogi Mirim.

Ao lado de Válber e Leto, formou o ‘Carrossel Caipira’, inspirado na Holanda de 1974. O trio foi a revelação da Taça São Paulo em 1991 a ponto de chamar a atenção de Telê Santana. O técnico sugeriu aos dirigentes do São Paulo que fossem atrás do garoto franzino, de pernas arqueadas. Era Rivaldo Vítor Borba Ferreira.

Ainda assim, a falta de astúcia dos Tricolores fez com que perdessem aquele que viria a ser um dos maiores talentos que o futebol brasileiro acabava de criar. Na temporada seguinte, o Mogi Mirim vendeu Válber – a maior promessa entre os três – ao Corinthians. Na transacção, Rivaldo acabou cedido por empréstimo. “Eu e o Rivaldo fazíamos as jogadas, e o Válber os golos”, lembra Leto, hoje no São Caetano do Sul.

O comandante do ‘Carrossel Caipira’, o técnico Osvaldo Alvarez, cedo percebeu que tinha em mãos um diamante em bruto. “Apesar de tudo, era difícil prever que ele chegaria a melhor do Mundo”, confessou.

Rivaldo foi dispensado do Corinthians após o Paulistão 94.

Rivaldo foi dispensado do Corinthians após o Paulistão 94.

A estrela de Rivaldo tardava em brilhar no Corinthians. Muito irregular no primeiro semestre de 1993, viveu um bom período na segunda metade da temporada, o que lhe permitiu chegar ao Escrete. Iludido com a hipótese de representar o Brasil no Mundial de 1994, disputado nos Estados Unidos da América, acabou por não aguentar a ansiedade de chegar à Canarinha. Pouco aproveitado pelo técnico Mário Sérgio, que pretendia que o jogador trabalhasse do ponto de vista defensivo, ficou aquém das expectativas no Paulistão, o que levou o «Timão» a desistir de avançar para a contratação em definitivo. O futuro voltava a ser uma incógnita.

Rivaldo foi campeão Paulista, em 1996, pelo Palmeiras.

Rivaldo foi campeão Paulista, em 1996, pelo Palmeiras.

Eis que surge o Palmeiras que, em parceria com a Parmalat, decidiu avançar para a compra do passe do esquerdino desengonçado, a troco de 2,4 milhões de reais. No Parque Antártica, viveu o primeiro grande período da sua carreira, tornando-se no segundo melhor marcador, com 14 golos, do Brasileirão 1994, campeonato conquistado pelo Verdão, e ajudando o Palmeiras a sagrar-se, em 1996, campeão Paulista. Sob a batuta de Vanderlei Luxemburgo, o moleque tergiversante decidiu desabrochar. Foi a estação decisiva antes do salto para a Europa.

A fama e o reconhecimento devidos em nada mudaram o jeito discreto e tímido do craque, avesso a noitadas, forrós e pagodes. “Nunca vi profissional como Rivaldo”, chegou a dizer Simão Sabrosa, que viria a ser colega do astro canarinho no Barcelona, anos mais tarde.

Atrás de uma timidez quase gritante, e envolto em inúmeros dramas familiares, Rivaldo Vítor Borba Ferreira caminhou sozinho. Uma fé inabalável nas traquinices daquele pé esquerdo que segurava a bola como que um alicate e a vontade de vingar no traiçoeiro desporto-rei serviram de condão para o que ainda estava para vir.

E é já como jogador do Deportivo da Corunha – os galegos pagaram mais de 12 milhões de euros, na actual conversão – que, em 1996, participou nos Jogos Olímpicos de Atlanta como um dos três jogadores acima de 23 anos do elenco brasileiro, medalhado com o bronze final. Acabaria como um dos crucificados pela derrota, por golo de ouro, na meia-final diante da Nigéria (3-4), já que perdeu a bola que resultou no 3º golo dos africanos no último minuto do tempo regulamentar. Um erro que lhe valeu um ano sem vestir a camisola do Escrete.

 

Emigrar: a saída.

Rivaldo apontou 21 golos na primeira e única temporada ao serviço do Depor.

Rivaldo apontou 21 golos na primeira e única temporada ao serviço do Depor.

A

pesar de um ou outro momento marcante, o futebol de Rivaldo tardava em explodir. A Europa parecia ser a solução à vista de todos. Na Galiza, esperava-lhe, contudo, a missão de substituir o ídolo e seu compatriota Bebeto, de saída para o Flamengo. Mas, desta vez, Rivaldo não tremeu, apontando 21 golos na primeira e única temporada ao serviço do emblema galego, conduzindo o Depor ao terceiro lugar da Liga Espanhola.

Rivaldo chegou ao Barcelona no verão de 1997. Foi campeão espanhol em 1997/98 e 1998/99.

Rivaldo chegou ao Barcelona no verão de 1997. Foi campeão espanhol em 1997/98 e 1998/99.

Um ano volvido, o todo poderoso Barcelona acenou-lhe com um contrato de 6 milhões de euros anuais. Estava feita justiça. Rivaldo encontrava, finalmente, um clube à altura do seu talento. Um pedido expresso de Louis Van Gaal e… José Mourinho, adjunto do holandês sisudo. Os 22 milhões de euros que os catalães desembolsaram no substituto de Ronaldo, que, entretanto, se despediu a caminho do Inter Milão, foram rapidamente justificados.

Logo na primeira temporada, ao lado de Vítor Baía, Fernando Couto e Luís Figo, Rivaldo, autor de 19 golos, alcança aquilo que o seu antecessor não conseguira: o título espanhol, que regressava à Catalunha após três anos de jejum. Seguiu-se a Copa do Rei, na mesma temporada, e o caminho para o estrelato completamente escancarado. O regresso ao Escrete foi automático. Primeiro com a chamada para a Taça das Confederações (1997) e no ano seguinte, em França, o seu primeiro Mundial. A derrota na final, diante dos anfitriões gauleses, em nada manchou o bom desempenho do esquerdino (3 golos).

Rivaldo recebeu, em Camp Nou, a Bola de Ouro 1999.

Rivaldo recebeu em Camp Nou a Bola de Ouro 1999.

A temporada seguinte seria a da confirmação, aos olhos dos críticos, do seu enorme potencial. Após conquistar o segundo título de Campeão pelo Barcelona e logo no ano do centenário do clube, Rivaldo foi eleito o melhor jogador do Mundo pela FIFA, vencendo igualmente a Bola de Ouro da France Football. A época terminou com a conquista da Copa América pelo Brasil. Apesar da época de sonho, nunca existiu unanimidade na avaliação ao talento e desempenho de Rivaldo. Michel Platini criticava o seu excesso de individualismo. Tostão, o craque da Copa de 70, também apontava o dedo ao jeito vagabundo do então camisola 10 do Barça. “Ele não sabe tocar a bola de primeira e não consegue jogar sem olhar para a bola, como faziam os grandes craques da história do futebol. Ele é um excepcional jogador, mas não é um génio do futebol”, disse Tostão.

Olhar para a bola e não jogar de cabeça erguida distanciam Rivaldo de monstros sagrados como Rivelino, Didi ou Johan Cruyff, mas não é suficiente para retirá-lo do panteão dos grandes nomes. Cruyff, o comandante da Laranja Mecânica de 1974, é admirador do futebol do brasileiro. “Rivaldo é um dos poucos jogadores da actualidade que dão prazer em ver jogar”, disse, há tempos, elogiando a sua postura: “Ele tem o talento sul-americano e o profissionalismo europeu.” Para a revista espanhola Don Balón, Rivaldo, enquanto jogador do Barcelona, foi comparado a um tenista que, mesmo não tendo vencido um dos torneios do Grand Slam (leia-se, Champions League), será sempre lembrado como um dos grandes talentos do futebol das duas últimas décadas. Canhoto como Rivelino e Maradona, Rivaldo só abandona a humildade quando se auto-define: “Sou mais habilidoso que um jogador destro”.

 

A reabilitação pela mão de… Scolari.

Rivaldo, Ronaldo e Cafú festejam a conquista do Mundial 2002.

Rivaldo, Ronaldo e Cafú festejam a conquista do Mundial 2002.

A

quele passe errado nos Jogos Olímpicos de Atlanta permaneceu na memória dos brasileiros durante anos a fio. O trajecto de Rivaldo na Selecção parecia assombrado pelo gesto técnico menos brilhante. A crucificação seguiu-se ano após ano. E nem o segundo lugar no Mundial de 1998 fez esquecer o bronze olímpico de 1996.

A chegada de Luiz Felipe Scolari ao comando técnico do Escrete foi a tábua de salvação para Rivaldo. O esquerdino foi aposta recorrente de Felipão, ajudando, em 2002, à conquista do Penta brasileiro no Mundial disputado na Coreia e no Japão.

Rivaldo assinou contrato por 3 anos com o AC Milan. Só jogaria ano e meio nos Rossoneri.

Rivaldo assinou contrato por 3 anos com o AC Milan. Só jogaria ano e meio nos Rossoneri.

Em junho de 2002, ainda antes do Mundial, o Barcelona dispensou Rivaldo do ano de contrato que ligava as partes, na sequência de algumas divergências com Van Gaal, que insistia em colocá-lo no corredor esquerdo. Choveram interessados mas foi o AC Milan a levar a melhor. Seguiu-se um contrato de três anos com o clube italiano e a oportunidade de alinhar ao lado de craques como Pirlo, Seedorf, Rui Costa ou Shevchenko. Com os Rossoneri, venceu uma Taça de Itália e a sua primeira Champions da carreira (2002/03), diante da Juventus, no desempate por grandes penalidades. No entanto, e tal como sucedeu em Barcelona, conflitos tácticos com o técnico Carlo Ancelotti, que tinha sido contra a sua chegada, ditaram mais um fim de ciclo. O protagonismo de Rui Costa, e mais tarde, de Kaká, também não ajudou.

O regresso ao Brasil pareceu a solução mais viável. Foi a bandeira da pré-temporada do Cruzeiro, recém-campeão brasileiro, mas as coisas não lhe correram de feição. Claramente desmotivado por algum do fracasso europeu e por uma despedida aquém das expectativas, chegou a Belo Horizonte, onde se reencontrou com o técnico Vanderlei Luxemburgo, com uma gritante falta de ritmo logo vaiada pelos exigentes adeptos locais, o que o levou a abandonar o Time Celeste antes do fim do Campeonato Mineiro.

 

A Ressurreição no País dos Deuses.

Rivaldo: a Ressurreição no País dos Deuses.

Rivaldo: a Ressurreição no País dos Deuses.

R

ecuperado de mais um desaire na já longa e periclitante carreira, e apostado em regressar ao mais alto nível, Rivaldo escolheu a Grécia para se reencontrar com a magia do seu futebol. Destino: Olympiakos. O porte inestético continuava a prevalecer mas os dois anos quase sem jogar deixaram marcas. Ainda assim, Rivaldo, já com 32 anos, deslumbrou o exigente Georgios Karaiskakis, com golos de levantar plateias inteiras. A velocidade de outrora já era uma miragem mas a rapidez de raciocínio e execução continuavam a habitar naquele irreverente pé esquerdo. Resultado? Um Campeonato e uma Taça da Grécia para juntar ao já imenso palmarés.

Apesar do sucesso precoce com as cores do Olympiakos, a sua fraca passagem pelo Cruzeiro e a pouca visibilidade do futebol grego no Brasil acabaram por lhe custar o lugar na Selecção. Deixou o clube, em Maio de 2007, alegando ordenados em atraso. Atento ao processo que envolveu a rescisão de contrato entre Rivaldo e o seu anterior clube, o AEK depressa se interessou pelos seus serviços. Ironia do destino, o título grego desse ano foi perdido nos tribunais para o… Olympiakos.

 

Aventura Uzbeque.

Rivaldo foi treinado por Zico e Scolari no Bunyodkor.

Rivaldo foi treinado por Zico e Scolari no Bunyodkor.

A

pós quatro temporadas no futebol grego, Rivaldo aceita o desafio de Zico, seu eterno suporte nos momentos mais delicados, e assina pelo Bunyodkor por três temporadas, equipa orientada precisamente pelo antigo astro brasileiro, a troco de dez milhões de euros. O namoro com a equipa uzbeque durou quase até final do vínculo, até porque seria ainda orientado por Scolari. No palmarés, juntou mais dois Campeonatos nacionais e uma Taça daquele país. A rescisão foi alcançada por mútuo acordo, acendendo-se uma esperança num eventual regresso ao Brasil.

Em novembro de 2010, Rivaldo anunciou que iria disputar o Paulistão 2011 pelo Mogi Mirim, clube do qual também era Presidente. No entanto, em Janeiro do ano seguinte, aceita o convite do São Paulo para jogar até final da época desportiva. Apesar dos bons desempenhos nos primeiros jogos, cedo Rivaldo desapareceu da equipa titular e não mais foi utilizado pelo técnico Paulo César Carpegiani. Seguiram-se duas chicotadas psicológicas: Milton Cruz e Adílson Baptista, técnicos com os quais Rivaldo ainda conseguiu reaparecer. Foi já com Emerson Leão, quarto técnico na mesma época, que o apagão se deu em definitivo.

Pairava no ar a hipótese do final da carreira. Mas Rivaldo respondeu presente a mais um desafio. Desta feita, o destino foi Angola. Em Dezembro de 2012, chega a acordo com o Kabuscorp, emblema do Girabola, a troco de 3,5 milhões de euros, tornando-se numa das maiores contratações da história do futebol africano.

Um ano depois, acede ao convite de Nairo Ferreira de Souza, presidente do São Caetano, e regressa ao Brasil, onde permanece, convivendo com os apupos normais de quem carrega o peso de ser Penta. Idade? 41 anos. Mas pelo talento, podia jogar mais 41.

Rivaldo em Angola.

Rivaldo em Angola.

Por isso, Rivaldo, digo-te eu, caso um dia consigas ler tudo o que acabo de escrever, que se puderes continuar a jogar, fá-lo para sempre. E se alguma vez te disserem que estás velho e acabado, não te preocupes. Tenho um lugar guardado para ti na minha equipa, nas futeboladas de sextas-feiras à noite, em Corroios. E lá, ao contrário do que pensavam alguns treinadores que abdicaram do teu futebol, poderás abusar dos golos de meio-campo, dos remates de ‘rabona’, das ‘cuecas’ que tu preferias chamar de canetas, dos dribles impossíveis e até das bicicletas como aquela que fizeste ao Valência, de fora da área, com o jogo empatado a 2 e a três minutos do final.

Loucura? Talvez. Mas os génios são mesmo assim. Venha quem vier.

 
foto de abertura © bbc.co.uk

fotografias © UOL; Globo; Alexandre Battibugli; Xose Castro; Mundo Deportivo; Sport/F. Zueras; FIFA; tistory.com; AFP PHOTO/Louisa Gouliamaki; pop.com.br; Twitter.


David Barata