Posted 14/02/2008 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Robin Friday: O melhor futebolista que jamais vimos jogar

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uando pediram a David Coles, responsável pelo World Sport Service da BBC, a sua lista de melhores futebolistas de sempre, o prestigiado jornalista britânico não hesitou em juntar o nome de Robin Friday a Bobby Moore, Bobby Charlton, George Best, Maradona, Rivelino, Pelé, Yashin, Beckenbauer e Cruyff. Sem qualquer jogo realizado na divisão maior do futebol inglês e sem passado a nível internacional, Friday é, no entanto, recordado pelos que o viram jogar como um avançado genial, de uma velocidade impressionante, técnica e grande capacidade de finalização. A sua história errante transformou-o também num ícone pop: os Super Furry Animals, conhecida banda galesa do indie-rock, escolheu uma foto sua, em atitude provocatória para um guarda-redes adversário, para a capa do single “The Man Don’t Give a Fuck”, canção dedicada ao jogador; e Paul “Guigsy” McGuinan, ex-baixista dos Oasis, banda que fundou com os irmãos Gallagher, é um dos responsáveis pela única biografia de Friday disponível no mercado, “The Greatest Footballist You Never Saw”.

Robin Friday Nascido a 27 de Julho de 1952 em Hammersmith, na região oeste da cidade de Londres, Robin cresceu numa família numerosa e num ambiente social tumultuoso, com inúmeras privações e rodeado de marginalidade. O seu talento futebolístico, no entanto, cedo se realçou, e incorporaria a equipa infantil do Queen’s Park Rangers, de onde rumaria ao Chelsea. Quando parecia iniciar uma trajectória capaz de o retirar do ambiente conturbado em que vivia, surpreendeu ao abandonar o Chelsea e a rumar ao modesto Walthamshow Avenue, onde ficaria pouco tempo, já que rumou ao Hayes, da 4ª Divisão, onde iniciou o seu percurso como sénior. Os motivos da sua escolha são o primeiro passo para justificar a sua história errante: é que o Hayes era o clube mais próximo de Hammersmith e ao lado da sede do clube havia um pub, que vendia a cerveja mais barata da região londrina. Os primeiros episódios de indisciplina não tardaram. O clube atravessava um período complicado a nível económico e o seu plantel era composto por trabalhadores do bairro, o que fazia com que os jogadores só se reunissem ao sábado. Os jogos começavam e o Hayes, muitas vezes, só tinha 10 elementos em campos. Faltava Friday, que, invariavelmente, se atrasava a beber o último copo de cerveja no pub vizinho ao estádio. Vestia o equipamento apressadamente, entrava em campo e resolvia as partidas, com golos fantásticos. Os adversários, inicialmente, não o levavam a sério: viam-no a tropeçar sozinho em campo e a correr sem sentido, mas, de repente, despertava e decidia as partidas. O tempo foi passando e a história repetia-se, noutros pubs, depois em bancos de jardim, onde adormecia alcoolizado, mas sempre misturada com golos, muitos golos, alguns apontados em elevado estado de embriaguez. Era uma força da natureza, que gostava de ter a bola nos pés e que só tinha olhos pela baliza adversária. Tudo lhe parecia fácil: provocador, ultrapassava os adversários com grande facilidade e lutava contra os seus próprios limites. O jogo terminava e diz-se que Friday, muitas vezes, nem passava pelo balneário: saia directamente do relvado para um bar, algumas vezes com a camisola do jogo ainda envergada.

Contudo, em 1972, a sua carreira, e sobretudo a sua vida, sofriam o primeiro grande revés. Robin Friday foi encontrado totalmente alcoolizado, com o estômago e os pulmões perfurados por um objecto metálico depois de ter chocado contra um portão. Conduzido de ambulância ao hospital, esteve seis horas na sala de operações, mas os médicos conseguiram-no salvar. Três meses depois, estava de regresso aos relvados. Seguiram-se mais golos e bebedeiras, que não impediram o Hayes de lhe oferecer o primeiro contrato como profissional de 750 libras. Em 1973, indiferente às histórias de mau profissionalismo, o Reading, então no terceiro escalão, apostou na sua aquisição. Apontou 46 golos em 121 jogos em três anos ao serviço do Reading, que lhe valem o estatuto de “Melhor jogador de sempre do Reading” e de “Melhor jogador do século XX” para os adeptos do clube. Em Março de 1976, diante do Tranmere Rovers, marcou um golo que é definido como um dos melhores da história do futebol inglês, numa finalização acrobática, após rotação de 180 graus, que levou Clive Thomas, o árbitro da partida, a colocar as mãos na cabeça de espanto, enquanto que a multidão festejava com o seu ídolo. Não se pense que o comportamento disciplinar de Friday mudou: é certo que não chegava atrasado aos jogos, mas foram inúmeros os seus actos de indisciplina, dos quais se destaca o seu desaparecimento no Verão de 1975, falhando a pré-época do Reading. Desesperou os dirigentes do clube, que não o conseguiam encontrar, e depois de algumas semanas de ansiedade, foi descoberto na comunidade hippie de Cornwall, onde se rendera à marijuana e às drogas duras. Desentendimentos com adversários e técnicos fizeram também parte do seu percurso: agrediu, ao pontapé, Mark Lawrenson, quando o futuro internacional irlandês e central do Liverpool, jogava no Preston North End ; e ficou célebre um diálogo com Maurice Evans, técnico do Reading, quando Friday lhe perguntou a idade. Evans, desconfiado, limitou-se a responder que tinha muitos anos e Friday retorquiu: “Eu tenho metade da sua idade, mas já vivi tanto que, com a minha idade, já vivi duas vezes mais do que o senhor”.

No Verão de 1976, o Cardiff City, da 2ªDivisão, apostou na sua aquisição. Pagou 30 mil libras ao Reading pelo seu passe, e a sua estreia foi auspiciosa: frente ao West Ham United, onde militava o mítico Bobby Moore, em final de carreira, apontou dois golos, para além de ter protagonizado algumas jogadas de grande espectáculo. Mas, a partir daí, afundar-se-ia aos poucos, realizando apenas 25 jogos pela equipa principal, que não impediram os adeptos do clube de considerá-lo o “Melhor jogador de sempre do Cardiff City”. Contudo, os seus problemas de alcoolismo agudizaram-se – à dependência de cerveja, juntou a de vodka e whisky – e afundou-se em drogas duras, ligando-se aos principais dealers de Cardiff, que não mais o largaram. Sairia do clube completamente derrotado pelas dependências, mas não sem antes protagonizar mais episódios caricatos: foi detido pela polícia por ter viajado de comboio sem bilhete na linha de Cardiff, e acabou por ser preso por desacato à autoridade, depois de ter beijado na boca um dos polícias que o detivera ; o episódio do beijo ao polícia não foi novidade, pois já o protagonizara, num jogo, após marcar um golo ; numa partida foi expulso, já que chateado com a agressividade excessiva de um defesa, decidiu baixar-lhe os calções e as cuecas ; e não satisfeito, após a expulsão, decidiu defecar à porta do balneário adversário.

Após deixar o Cardiff, Friday abandonou o futebol e prosseguiu a sua vida de excessos em Londres, onde para além da dependência do álcool e de drogas, foi-se deixando envolver pelo tráfico de drogas e acumulando dívidas de jogo. Apareceu morto num apartamento a 22 de Dezembro de 1990, vítima de uma overdose de heroína, que lhe provocou uma paragem cardíaca, poucos meses depois de ter completado 38 anos. Foi o último auto-golo do melhor futebolista que jamais vimos jogar.

 

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fotos © Axel Linter e readingfc.co.uk


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.