Posted 27/06/2011 by Rui Malheiro in Colunas
 
 

«Schwarz-Gelb»: os campeões da Bundesliga 2010/11

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C

ampeão alemão em 2010/11, o Borussia Dortmund realizou um campeonato admirável, combinando resultados e um elevado sentido táctico com um futebol harmonioso, cativante e sempre direccionado para a baliza adversária. Fortíssimos na primeira volta, os «Schwarz-Gelb»demonstraram competência a gerir a vantagem pontual na segunda volta, onde nem uma quebra os impediu de consumar a duas jornadas do fim da competição a conquista do título nacional.

O treinador Jürgen Klopp é, de forma indiscutível, a grande figura da temporada alemã, colhendo os frutos de um trabalho de três anos, muito bem estruturado e orientado para um rejuvenescimento profundo do grupo – 9 dos 13 jogadores mais utilizados são sub-23 –, apoiado na excelente relação com Michael Zorc, o inexcedível director desportivo, e na grande harmonia com os indefectíveis adeptos, persuadidos, desde as primeiras semanas de trabalho, pelo discurso cativante e perspicaz do técnico, mas também pela forma emotiva, entusiasmada e instintiva como aborda os jogos.

Fiel a um 4x2x3x1 dinâmico, capaz de se transformar, em momento defensivo, num 4x4x1x1, com o recuo dos dois médios-ala, ou, em momento ofensivo, num 4x1x4x1, graças aos desdobramentos de Nuri Sahin, Klopp recorreu, em algumas situações no decurso das segundas partes ao seu plano B, abdicando de uma das unidades de ataque para lançar mais um médio centro, de forma a garantir ainda uma maior gestão da posse da bola, muitas vezes feita em plena 3ª fase de construção, para além de lhe garantir um maior equilíbrio do ponto de vista defensivo.

 

Onze-Base (esquema táctico)

Borussia Dortmund: táctica 2010/11

 

Chaves

1. Estilo – O Borussia Dortmund foi uma equipa sempre fiel a uma ideia de jogo ofensivo. Apostou na posse e circulação de bola, num futebol baseado em passes curtos e médios, a toda a largura do terreno: atacou pelo centro, da mesma forma que explorou as duas alas. Mas não se limitou a jogar dessa forma: soube, várias vezes, tirar partido das transições rápidas defesa-ataque, como também aproveitar os lances de bola parada: directos ou indirectos.

2. Finalização – Uma das imagens de marca do Borussia Dortmund: a procura constante da baliza adversária, tanto a partir de lances de ataque organizado, ataque rápido ou lances de bola parada. Muita acutilância a criar oportunidades a partir do seu jogo exterior, aproveitando as assistências de alas e laterais, mas também qualidade para chegar à baliza adversária através de lances individuais ou na sequência de remates de fora da área: em bola corrida ou parada.

3. Confiança – Klopp encontrou o «onze base» e só realizou alterações muito pontuais, a maior parte delas na sequência de lesões e castigos. Soube retirar o máximo de cada jogador e que todos funcionassem em prol do colectivo, cada vez mais forte com as rotinas e o evoluir da temporada. Em vantagem no marcador, o Borussia Dortmund conseguiu, muitas vezes, segurar a vantagem e dilatá-la. E fê-lo, ao optar por não recuar e continuar a jogar no meio-campo do adversário.

 

Análise

– Capacidade para sair a jogar desde o sector defensivo, já que os dois centrais assumiam, sem complexos, a primeira fase de construção de jogo ofensivo. Hummels, tecnicamente mais evoluído, arrisca e consegue desequilibrar no um para um, como também revela grande facilidade no passe; Subotic utiliza, por norma, processos mais simples e opta, diversas vezes, pela realização de passes longos em direcção ao ataque.

– A principal preocupação de Klopp é que os laterais lhe ofereçam garantias do ponto de vista defensivo, mas o envolvimento de ambos no jogo ofensivo, mais pela qualidade do que pela quantidade das suas acções, foi uma das grandes armas do Borussia. Piszczek, um extremo de origem, e Schmelzer possuem características similares: desdobram-se ofensivamente através da velocidade e disponibilidade física, mostrando facilidade no passe curto e capacidade nos cruzamentos. Piszczek, ainda assim, revela-se mais acutilante e certeiro no último item, o que lhe permite realizar várias assistências para situações de finalização.

– A defesa revelou-se muito coesa, facto bem expresso nos 22 golos sofridos ao longo dos 34 jogos. Contudo, denotaram-se alguns problemas de coordenação nos momentos de saída para fora-de-jogo e na cobertura interior dos laterais do espaço aéreo defensivo. Piszczek patenteia também algumas dificuldades no um para um em espaços exteriores, até porque é bem menos eficaz no desarme do que Schmelzer.

Sven Bender foi o jogador decisivo nos equilíbrios defensivos. É certo que é muito mais do que um trinco, mas destacou-se, principalmente, pela grande capacidade de recuperação: fortíssimo no desarme e muito eficaz na antecipação, consegue conjugar uma enorme disponibilidade física com um óptimo posicionamento. Contudo, nunca se atrapalha com a bola nos pés: eficaz nos passes curtos e médios, poderá ganhar uma maior acutilância e precisão nos passes longos.

Nuri Sahin, o cérebro. Melhor jogador da Bundesliga 2010/11, o internacional turco assumiu um papel fulcral na coordenação do jogo ofensivo, partindo muitas vezes da 2ª fase de construção, tendo também registado uma franca evolução no capítulo defensivo, o que fez com que fosse o segundo jogador do Dortmund com melhor média de desarmes por jogo e o terceiro com melhor média de intercepções por jogo. Inteligente a definir os tempos, sabe tirar partido da sua boa visão de jogo e qualidade de passe – não só curto, mas também médio e longo –, o que lhe garantiu um papel crucial em ataque organizado – na posse e na circulação de bola, mas também, em zonas mais próximas da área, a realizar passes de ruptura – como no lançamento de ataques rápidos. Muito perigoso a penetrar na 3ª fase de construção, soube tirar partido, em diversas situações, do seu forte remate de pé esquerdo em conclusões de fora da área, acrescentando ainda a mais-valia de se tratar de um bom marcador de lances de bola parada: directos ou indirectos.

– Dois alas muito jovens, de grande versatilidade, inteligentes a nível táctico e tecnicamente evoluídos. Duas apostas certeiras de Klopp e que finalizam a temporada extremamente valorizados. Götze, 18 anos, mais ofensivo e desequilibrador, ao conjugar velocidade, poder de aceleração e capacidade de drible, consegue alternar jogadas à linha com movimentos em diagonal. Especialista no capítulo das assistências para situações de finalização, através de cruzamentos ou passes, mostra também argumentos no remate com o pé direito. Grosskreutz, 22 anos, impressiona pela enorme disponibilidade física e ampla percepção do jogo do ponto de vista táctico, o que lhe garante um vasto contributo a nível defensivo, tanto no apoio a Schmelzer, como a garantir equilíbrios em espaços interiores. Isso não o inibe de criar desequilíbrios do ponto de vista ofensivo, ao explorar a sua velocidade, mobilidade e argumentos a nível do drible, como também o seu remate de pé esquerdo e capacidade para realizar assistências para situações de finalização – aspecto onde poderá tornar-se ainda mais constante, se melhorar a eficácia nos cruzamentos.

– Contratado, no Verão de 2010, ao Cerezo Osaka por uns míseros 350 mil euros, poucos esperariam que o japonês Shinji Kagawa se tornasse, de forma tão rápida, numa unidade nuclear da formação de Klopp até ao momento da sua lesão. Capaz de actuar a toda a largura do meio-campo ofensivo, a sua versatilidade permitiu-lhe desempenhar funções de 2º avançado, médio ofensivo ou de ala conforme as necessidades da equipa. Extremamente veloz e ágil, como também dotado de uma capacidade de drible extremamente interessante, conjuga firmeza no passe curto – poderá ganhar uma maior acutilância nos passes de ruptura – com bons argumentos como finalizador, tirando partido, de dentro ou de fora da área, do seu forte remate com ambos os pés: o direito é o que melhor define.

Lucas Barrios, a «Pantera», foi pelo segundo ano consecutivo a referência ofensiva da equipa. Se é certo que lhe falta alguma capacidade para se envolver no futebol enleante do Dortmund, até porque a qualidade de passe está longe de ser uma das suas virtudes, trata-se de um finalizador nato, concluindo, com os dois pés – o direito é o que define melhor – ou através do jogo aéreo, iniciativas de ataque organizado ou de ataque rápido. Oportuno, inteligente a desmarcar-se e a ganhar posição aos defesas adversários, Barrios acrescenta ainda mobilidade, poder de aceleração e argumentos técnicos para desequilibrar no um para um, características que o tornam letal nos últimos 30 metros.

– A lesão de Kagawa em Janeiro, ao serviço da sua Selecção, e o seu afastamento até ao final da temporada, obrigou Klopp a encontrar uma alternativa para a posição de segundo avançado. A opção inicial passou pela deslocação de Götze para o espaço central, o que até produziu bons resultados, entrando o polaco Blaszczykowski para a ala direita. Só que o rendimento intermitente do jogador polaco acabou por conduzir à colocação do super-suplente Lewandowski nas costas de Barrios, fazendo regressar Götze ao flanco.

Lewandowski foi de uma extrema utilidade. «Joker» ofensivo na 1ª metade da temporada, apontou 4 dos seus 8 golos saído do banco. Com a lesão de Kagawa, acabou por conquistar o seu lugar no onze, mesmo partindo de posições mais recuadas em relação às que estava habituado. Se é certo que a equipa perdeu criatividade, explosão e capacidade de passe sem a presença do japonês, ganhou poder físico, agressividade e poder de finalização com o internacional polaco.

Antônio da Silva foi suplente utilizado em metade dos jogos da Bundesliga. O experiente médio brasileiro, com carreira construída no futebol alemão, foi um importante reforço na hora de refrescar e/ou reforçar o sector intermediário, principalmente, pela sua capacidade de passe e leitura de jogo, e, apesar das suas características ofensivas, pelo contributo que deu, tirando partido da sua experiência, a nível defensivo.

– Titular indiscutível nos 3 exercícios anteriores, Jakub Blaszczykowski, ou simplesmente Kuba, perdeu espaço com o crescimento e afirmação de Götze e Grosskreutz. No entanto, não deixou de ser útil no seu novo papel de suplente utilizado: pela sua capacidade para segurar e esconder a bola dos adversários, como também pelos seus argumentos para produzir desequilíbrios, ao combinar velocidade a um bom poder de drible.

– Praticamente 20% dos golos apontados pelo Borussia Dortmund – 13 dos 67 – na Bundesliga 2010/11 surgiram na sequência de lances de bola parada. Nuri Sahin, um canhoto, foi o principal responsável pela sua execução: fossem directos – apontou assim 2 dos seus 6 golos – ou indirectos. Götze, um destro, surgiu, em algumas situações, como alternativa na transformação de livres laterais e pontapés de cantos. Muito importante a presença dos defesas centrais na área adversária na sequência de lances de bola parada indirectos. Ambos revelavam tendência para atacar o 2º poste, ainda que Hummels – 5 golos – com maior capacidade de definição do que Subotic – apenas 1 golo. Lucas Barrios teve também um papel importante a dar sequência a esse tipo de lance, sobretudo ao desviar bolas, em antecipação, ao 1º poste. Um dos pontos fracos do Borussia Dortmund foi a falta de eficácia na transformação de grandes penalidades: 5 tentativas, 0 golos. Nuri Sahin, o principal marcador, falhou 3; as outras foram desperdiçadas por Lucas Barrios e Dédê.

 

foto de abertura © dpa


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.