Posted 03/03/2013 by David Barata in Convidados
 
 

Sócrates. O doutor da relva.

Sócrates
Sócrates

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história do futebol brasileiro está repleta de figuras marcantes. Cada uma com o seu pedaço de protagonismo. Umas maiores que outras. Dos colossos Pelé, Zico ou Garrincha, ao clímax do futebol esclarecido de Romário e Bebeto, passando pela imprevisibilidade do ‘Fenómeno’ Ronaldo ou o romantismo do jogo de Ronaldinho e Neymar, o Brasil continua a ser a grande fonte de talento do futebol Mundial.

Houve, porém, um outro que primou pela diferença. No trato com as gentes e com a bola, na (re)definição de objectivos e prioridades mas, sobretudo, na classe que transportava dentro e fora dos relvados. Dele podia esperar-se tudo. Líder da linguagem simples, pautava o seu jogo da mesma forma que trilhava o caminho para a vida: pausado, organizado e sem grandes correrias. A pressa era, para Sócrates, inimiga da perfeição.

De corpo esguio e fintas curtas, caracterizava-se pelo jogo de cabeça levantada e toques curtos. O segredo estava na qualidade. Raramente falhava um passe. E aquele calcanhar, era música para os ouvidos do adepto mais céptico.

Nasceu em Belém do Pará, no nordeste do Brasil, a 19 de Fevereiro de 1954 mas cresceu em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo. Cedo bebeu influências do Pai, responsável pelo escolha do seu nome, após a leitura de ‘A República’, de Platão. Marcado por fortes desventuras e por uma educação esclarecida, herda ainda uma intensa paixão pela liberdade que o acompanhou ao longo da vida. Para o bem e para o mal.

Admirador de Marx, converteu-se na imagem da revolução brasileira contra a ditadura, quando esta entrava nos seus últimos anos (durou entre 1964 e 1985). Ousou ser diferente quando todos queriam ser iguais. Dizia ter a receita certa, digna de Doutor. Era um paraense com nome grego e alma tupiniquim (grupo indígena brasileiro).

Por isso, liderou a Democracia Corinthiana. No início dos anos 80, deu voz aos jogadores do clube. Os mesmos que passaram a decidir, através do voto, as normas de organização e evolução de um gigante adormecido chamado Corinthians. Escolhiam o treinador, o horário dos treinos, participavam nas eleições do clube, culminando com a abolição das concentrações (estágios).

Queria fazer do Corinthians um pequeno exemplo para o Brasil. Por isso, infiltrou-se na política, envolveu-se nas “Diretas Já” (movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais directas no Brasil entre 1983-1984) e tentou ser diferente. Falhou e foi para Itália, idolatrado na chegada pelos adeptos da Fiorentina (1984-85). Voltou ao Brasil para vestir as cores do Flamengo. Passeou na Vila Belmiro e despediu-se onde tudo começou – no Botafogo, de Ribeirão Preto, em 1989.

 

Craque e doutor (A carreira)

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m 1974, com 20 anos, torna-se profissional de futebol com a camisola do Botafogo de Ribeirão Preto. Na mesma altura, ingressa na Faculdade de Medicina com a nota mais alta entre os candidatos. Termina o curso três anos depois. Sem falhas. Sem mácula. E de olho no ‘gramado’.

Em 1977, lidera o Botafogo à conquista da Taça Cidade de São Paulo, diante do São Paulo, em pleno Morumbi, terminando como melhor marcador da competição. Foi um pulo até que o Corinthians se encantasse pelo perfume do seu futebol. Na época seguinte, ruma a São Paulo, onde chega à consagração absoluta (1978-84). Com o diploma nas mãos, começou a dar aulas com a camisola alvi-e-negra. Juntamente com Casagrande e Palhinha, ajuda ao crescimento do ‘Timão’. Os títulos, porém, não abundam (fez 294 jogos, 168 golos e foi apenas três vezes campeão paulista, em 79, 82 e 83), e torna célebre a seguinte frase: “Ser campeão é um detalhe. Não se joga para ganhar mas para que não te esqueçam”.

Segue-se o ‘escrete’. Ao lado de jogadores como Zico, Júnior, Luizinho, Falcão, Toninho Cerezo e Éder, ajuda a formar uma das mais sedutoras selecções da história, que encantou no Mundial de 82, em Espanha, sob o comando de Telé Santana. Nascia o mito da melhor equipa de sempre. Durante a prova, a ‘Canarinha’ praticou um futebol de eleição, vencendo todos os jogos com mestria. Mas tudo o que é bom acaba depressa e a Itália de Paolo Rossi quis fazer-se ouvir, naquela tarde em Barcelona (jogo da 2ª fase de Grupos, equivalente aos actuais quartos-de-final). Apesar de ter realizado mais um jogo de grande categoria, o Brasil seria derrotado por 3-2, com um hat-trick do avançado transalpino, que até aí não tinha marcado qualquer golo. O Brasil falhava o ‘Tetra’ e o mito parecia querer cair por terra.

Sócrates saia sem vencer mas com elegância. “Má sorte, foi pior para o futebol. Foram os trinta dias mais perdidos da minha vida”, disse, após a eliminação aos pés da ‘Squadra Azzurra’.

Quatro anos depois, no México, ainda na ressaca do fracasso de 1982, o ‘escrete’ de Telé Santana, novamente com Sócrates e Zico, foi incapaz de vencer a França de Platini. Não bastava jogar bem e bonito. E o Brasil de Sócrates foi a prova disso mesmo.

 

O final trágico e os excessos que levaram à morte

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eixou os relvados em 1989. Cansado do futebol. Seguiram-se experiências na Televisão, Rádio e Imprensa, como comentador, radialista e cronista. Continuou a pautar a sua vida pelo espírito crítico que sempre caracterizou a sua carreira de futebolista. Nunca aceitou a rigidez táctica e a falta de criatividade do futebol moderno. Bebia para esquecer, até o que via outros fazerem.

Em agosto de 2011, foi internado após uma hemorragia digestiva alta. Recuperou, e aproveitou a situação para assumir a sua dependência com a bebida: “O álcool era um companheiro para viver essa loucura que é a sociedade de hoje”. Na madrugada de 4 de Dezembro do mesmo ano, e após uma alegada intoxicação alimentar, foi novamente internado. Acabaria por não resistir ao choque séptico (infecção generalizada causada por bactéria), que resultou no seu falecimento às 04h30, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Tinha 57 anos.

Numa daquelas coincidências que só a História tem o direito de reservar, o grande ídolo do Corinthians faleceu no dia em que o seu clube do coração conquistou o pentacampeonato.

Considerado o melhor jogador sul-americano em 1983, e eleito pela FIFA, em 2004, como um dos 125 melhores jogadores vivos da história, ‘Magrão’, irmão de outro grande craque canarinho, de nome Raí, deixa um sem número de recordações quanto à forma de estar e viver o desporto-rei.

Craque da cabeça aos pés, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, cidadão até no nome, era assim. Diferente mas especial. Como não haverá outro.

Porque na vida, tal como no futebol, “arte não é nem nunca será adjectivo”.

Obrigado Doutor.

 
foto de abertura © Gazeta Press

fotografias © i got cider in my ear; laboratoriopop.com.br


David Barata