Posted 12/02/2008 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Sporting: quebrar o enguiço suíço

zurich196768
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ENGUIÇO SUIÇO. Sporting e Basileia disputam amanhã, em Alvalade, a primeira mão dos 16 avos de final da Taça UEFA. Será a primeira vez que os dois emblemas se cruzam no histórico das competições europeias, como também é a estreia da formação suíça, onde alinha o português Carlitos, diante de clubes portugueses. Ao invés, o Sporting defronta pela quinta vez equipas suíças nas provas da UEFA. E o saldo é negativo: os leões apenas uma vez seguiram em frente, diante do FC Zurique, na Taça das Taças, em 1973/74, contando já com três eliminações, repartidas por FC Zurique – 1967/68 na Taça das Cidades com Feira -, Neuchâtel Xamax – 1981/82 na Taça UEFA – e Grasshopper – 1992/93 na Taça UEFA. No entanto, o saldo de resultados até é equilibrado: 3 vitórias, 2 empates e 3 derrotas.

Carlitos: o português do Basileia

A REVELAÇÃO SUÍÇA NA ANTECÂMARA DO DESASTRE. Estimulado por um percurso de sete vitórias consecutivas na Liga portuguesa 1967/68, o Sporting, orientado por Fernando Caiado, deslocou-se a Zurique, na sua estreia diante de emblemas suíços nas competições europeias, extremamente motivado com a liderança isolada do campeonato português, depois de ter começado mal a temporada, andando algumas semanas no 5º posto da classificação. Na extinta Taça das Cidades com Feira, já deixara pelo caminho os belgas do Club Brugge (empate a zero na Bélgica ; vitória 2-1 em Alvalade, com “bis” de Lourenço) e os italianos da Fiorentina (nova vitória 2-1 em Alvalade, com golos de Lourenço e Peres, e empate a 1 em Itália, com golo de Peres), mas o adversário metia respeito: o FC Zurique, que tinha no avançado Christian Winiger o seu principal jogador, pois vinha a revelar-se como uma das figuras da competição, ao contribuir, de forma decisiva, para as eliminações de Barcelona e Nottingham Forest. No Letzigrund, o Sporting entrou mal e o FC Zurique vencia ao intervalo por 2-0, graças a golos de Winiger e Ernst Meyer. Na segunda parte, os leões reagiram e procuraram reduzir a diferença, mas seria a formação suíça, a um minuto do fim, a alcançar o 3-0, com um golo do lateral-direito Jürgen Neumann. Três dias antes da recepção ao Zurique, o Sporting perdia em Braga (1-3) e deixava-se apanhar pelo Benfica no comando da Liga. O público, pouco crente na recuperação da eliminatória, não compareceu em massa em Alvalade, onde a plateia não chegava a 20 mil espectadores. Caiado surpreendeu ao lançar no “onze” o jovem extremo Carlitos, ocupando o lugar de Fernando Peres, que já falhara o jogo na Suiça, onde fora rendido por Manuel Duarte. Foi Carlitos, que, aos 22 minutos, colocou o Sporting em vantagem e parecia relançar a eliminatória, mas a verdade é que o Zurique, com alguma sorte à mistura, acabou por segurar o 0-1, alcançando os quartos-de-final da competição. Esse resultado acabou por marcar o resto da temporada do Sporting na Liga, onde perderia o título, com quatro derrotas nas cinco últimas jornadas da prova.

 

FC Zurique - Sporting: 1967/68

Sporting - FC Zurique: 1967/68

 

A ÚNICA PASSAGEM. Em Março de 1974, desta feita para a Taça das Taças, Sporting e FC Zurique voltaram a encontrar-se nas competições europeias. Um Sporting rejuvenescido, onde Marinho era o único resistente da eliminatória de 1968, defrontava um FC Zurique, que mesclava juventude com jogadores mais veteranos, como Grob, Pirmin Stierli, Kuhn ou Martinelli, sobreviventes do duplo-encontro da Taça das Cidades com Feira. Para chegar aos quartos-de-final da Taça das Taças, o Sporting deixara pelo caminho o Cardiff City – empate a zero no País de Gales, seguido de vitória por 2-1 em Alvalade, com golos de Yazalde e Fraguito – e o Sunderland, com um golo de Yazalde, nos minutos finais da partida de Roker Park, a permitir um 1-2, que tornou possível a passagem em Alvalade, onde os leões bateram o conjunto inglês por 2-0, graças a golos dos repetentes Yazalde e Fraguito. O FC Zurique, por sua vez, vinha de duas eliminatórias sofridas: passara o Anderlecht e o Malmö em eliminatórias que terminaram empatas, mas fez-se valer dos golos apontados fora, com o internacional jugoslavo Ilija Katic em plano de destaque. A primeira mão, disputada em Alvalade, mostrou um Sporting demolidor, impulsionado por mais de 40 mil adeptos. Depois de uma primeira parte sem golos, muito por culpa da exibição do guardião suíço Grob, os leões construíram um resultado pesado: 3-0, com golos de Nelson, Marinho e Yazalde, de grande penalidade. Confirmava-se o Sporting imparável nos jogos caseiros, que somava por vitórias todos os jogos disputados em casa em 1973/74, com o impressionante registo de 54 golos nos 12 jogos que disputara, até aí, em Alvalade para a Liga. No jogo da segunda mão, apesar da vantagem dilatada, Mário Lino, treinador do Sporting, não facilitou, isto apesar de estar numa fase decisiva para a Liga – acabava de defrontar o FC Porto (vitória 2-0) e seguiam-se a deslocação a Guimarães e a recepção ao Benfica. É certo, que um golo madrugador de René Botteron, também conhecido por “Bo Bo”, chegou a assustar, mas Baltazar, aos 18 minutos, empatou e desmoralizou os suíços, que necessitavam de três golos para seguir em frente. É certo que desperdiçaram algumas oportunidades, mas Marinho, Yazalde e Dinis também souberam colocar a cabeça dos defesas adversários em água. O Sporting cairia depois nas meias-finais, diante do poderoso Magdeburgo, que derrotaria o AC Milan na final da prova, mas sagrar-se-ia campeão nacional, apesar da estrondosa derrota por 3-5 em Alvalade, diante do Benfica.

 

Sporting - FC Zurique: 1973/74

FC Zurique - Sporting: 1973/74

A PRIMEIRA DERROTA DA ÉPOCA. Em 1981/82, o Sporting, que já deixara para trás o modesto Red Boys, do Luxemburgo, e o Southampton, após uma exibição épica em The Dell, cruzava-se nos oitavos-de-final da Taça UEFA com o Neuchâtel Xamax. Ultrapassadas as dúvidas iniciais sobre a qualidade do playboy inglês Malcolm Allison, que João Rocha escolhera para recolocar os leões no caminho do êxito, o Sporting chegava à primeira mão da eliminatória frente aos suíços altamente moralizado: sem derrotas na campanha europeia e na Liga, um surpreendente empate caseiro do FC Porto, de Hermann Stessl, frente ao Amora, permitia aos “leões” chegarem ao comando isolado da principal competição nacional. No entanto, e apesar do optimismo generalizado, Allison mostrou muito respeito pelo Neuchâtel, ciente do perigo dos suíços no contra-ataque, que já valera uma vitória em casa do Malmö (1-0) e dois golos na deslocação a Praga (derrota 3-2). Assim, o “onze” foi montado com várias cautelas defensivas, ficando as “despesas” ofensivas entregues ao “tridente” mágico formado por Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão, que não foi capaz de “derrubar” a resistência dos suíços, com o guardião Karl Engel, em noite inspirada. Na segunda mão, em que não pode contar com o goleador Jordão, “Big” Mal optou por uma estratégia mais ofensiva: lançou o jovem Freire no ataque e deu ao meio-campo maior poder ofensivo, com as presenças do veterano Marinho e de Nogueira. Um golo do médio Claude Andrey, actual treinador do Yverdon, acabaria por se revelar determinante, naquela que foi a primeira derrota da época do Sporting. Fora da Taça UEFA, os “leões” prosseguiram um caminho seguro no Campeonato e na Taça de Portugal, conquistando ambas as competições. Allison, contudo, não sobreviveria à tumultuosa pré-temporada de 1982/83, onde um escândalo com prostitutas, no estágio de pré-temporada dos “leões” realizado na Bulgária, precipitaria a sua saída.

 

Sporting – Neuchâtel Xamax: 1981/82

Neuchâtel Xamax – Sporting: 1981/82

A NOITE DE ELBER E O PESADELO DE SÉRGIO. Quase 11 anos depois da eliminação diante do Neuchâtel, o Sporting, novamente orientado tecnicamente por um inglês (Bobby Robson), reencontrava-se com um emblema suíço na Taça UEFA: o Grasshopper, uma equipa jovem, mas que não tardou a tornar-se a base da selecção suíça que garantiu o apuramento para o Mundial 1994 – deixando Portugal de fora – e para o Europeu 1996, onde esteve sob o comando de Artur Jorge. Treinados pelo globetrotter holandês Leo Beenhaker, o Grasshopper contava nas suas fileiras com Zuberbhuler, Sforza, Vega, Bickel, Yakin e Alain Sutter, para além de um jovem avançado brasileiro, que se destacara no Mundial de Juniores de 1991, disputado em Portugal: Elber. Apesar de um mau início de campeonato com apenas 1 vitória – 4-3, em casa, ao Famalicão – nas 4 primeiras jornadas da Liga, o Sporting partia para Zurique sob uma nuvem de interrogações. Robson, contudo, não hesitou em repetir o “onze” que garantira um empate a zero em Braga dias antes, onde surpreendera a titularidade do eterno suplente Sérgio Louro em detrimento de Tomislav Ivkovic, protagonista de um péssimo início de época. Um golo de Alain Sutter, de grande penalidade, fazia antever o pior, mas o Sporting partiu para uma exibição de qualidade, com Balakov inspiradíssimo, coadjuvado pelo jovem Luís Figo. Foi o internacional búlgaro, ainda antes do intervalo, a marcar o empate, com Juskowiak, perto do fim da partida, a garantir a primeira vitória dos “leões” fora de portas em 1992/93, abrindo excelentes perspectivas para a segunda mão em Alvalade. A boa “onda” leonina prosseguiu na Liga, com uma goleada por 3-0 ao Sp. Espinho, num jogo que ficou marcado pelo regresso de Ivkovic à titularidade, que teve continuidade, em Faro, onde o Sporting empatou, na véspera da recepção aos suíços. Contudo, seria Sérgio o titular diante do Grasshopper, num jogo em que Robson optou por voltar ao “onze” que vencera em Zurique. A partida não começou bem para os leões, e Elber, na primeira parte, adiantou os suíços, com Pedro Barny e Valckx a sentirem imensas dificuldades em travar a velocidade e qualidade técnica do avançado brasileiro, com Sérgio a revelar-se muito inseguro na baliza. O Sporting desperdiçou várias oportunidades para repor a igualdade, mas à medida que os minutos passavam a intranquilidade aumentava. Beenhaker, destemido, lançava Joël Magnin e alargava a frente de ataque, e a substituição deu frutos, pois o recém-entrado fez o 0-2 a cinco minutos do fim, que parecia resolver a eliminatória. No entanto, um golo “salvador” de Cadete levava a eliminatória para prolongamento, onde o contra-ataque do Grasshopper colocou definitivamente a nu a desastrosa noite da defesa leonina, com Elber a marcar o seu segundo golo da noite e a conduzir a formação de Zurique à eliminatória seguinte. Robson ficou na “corda-bamba” e uma derrota diante do Gil Vicente, graças a um golo de Jaime Cerqueira, a dois minutos do fim da partida, na jornada seguinte da Liga, colocou-o num “limbo”, que só uma vitória caseira diante do Benfica de Ivic travou. Sérgio é que não voltaria a merecer a confiança de Robson, não surpreendendo a sua dispensa no final da temporada, colocando o fim a um ciclo de 11 anos em Alvalade – foi contratado, enquanto juvenil, ao Barreirense -, interrompido por três épocas de empréstimo ao Portimonense, onde chegou a dar nas vistas. Iniciava, aos 27 anos, um percurso descendente, com passagens por Académica, Maia, Paços de Ferreira, Machico, Portimonense, Lagoa (duas passagens), Esperança de Lagos e Desportivo de Beja, onde terminou a carreira, na 3ªDivisão, em 2001.

 

Grasshopper - Sporting: 1992/93

Sporting - Grasshopper: 1992/93

 


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.