Posted 02/03/2011 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Terramoto friulani em Palermo

US Citta di Palermo v Udinese Calcio - Serie A
US Citta di Palermo v Udinese Calcio - Serie A

SUPER-UDINESE. Quatro golos de Alexis Sánchez e três de «Toto» Di Natale, actual melhor marcador da Serie A, valeram à Udinese um sensacional triunfo por 7-0 no terreno do Palermo, rival na luta pelos lugares europeus, o que viria a custar o despedimento do técnico Delio Rossi. Um olhar simplista pela ficha do jogo, em que se depara com o facto dos «Rosanero» terem terminado apenas com apenas 9 unidades, pode conduzir ao engano e retirar brilho a uma exibição, principalmente na primeira parte, verdadeiramente memorável, bem expressa nos 5 golos obtidos nos primeiros 45 minutos. Foi o 10º jogo consecutivo da Udinese sem perder na Serie A, o que lhe permitiu dar um salto do 10º lugar para o 5º, a apenas um ponto da «zona Champions», como também a 4ª partida consecutiva em que os «Friulani» não sofreram golos e a 4ª vitória consecutiva em jogos fora de casa, a segunda melhor série de resultados extramuros da história do clube em 40 presenças na divisão maior do futebol italiano.

 

Como joga a Udinese (3x5x2)

Udinese vs. Palermo (3x5x2)

Organizada num 3x5x2, a Udinese confirmou no Renzo Barbera a sua enorme elasticidade táctica: frente a um adversário que se apresentou num 4x3x2x1 centralizado, os comandados de Guidolin foram capazes de transformar um 5x4x1 em momento defensivo, capaz de garantir os equilíbrios e a superioridade numérica sobre o adversário, num 3x3x4 em momento ofensivo, tirando partido da impressionante disponibilidade física dos seus volantes laterais, elementos-chave na produção de desequilíbrios e que deixaram o Palermo muitas vezes exposto a situações de 4×4.

 

Chaves

– Bom estudo do adversário e enorme rigor táctico. Em situação defensiva, a equipa organizou-se, muitas vezes, num 5x4x1. Inteligente a interpretar o 4x3x2x1 centralizado do adversário, Guidolin nunca permitiu ao adversário ter superioridade na zona central, o que levou Sánchez a baixar para zonas próximas do médio defensivo adversário. Os dois centrais marcadores, sempre muito concentrados e prontos para se imporem em acções de antecipação, ocupavam-se do avançado adversário e do médio ofensivo que funcionava como segundo avançado, enquanto que um dos médios, normalmente Gökhan Inler, seguia as movimentações do outro médio criativo. Já os laterais ficavam, por norma, ocupados dos laterais adversários, ainda que sempre atentos a uma possível incursão pelo flanco de um dos médios interiores – estiveram muito estáticos – ou ofensivos – mais Pastore do que Ilicic – do adversário, sempre compensadas por Pinzi ou Asamoah.

– O posicionamento recuado de Alexis Sánchez em momento defensivo, permitia também à equipa ter uma solução mais próxima para uma saída para ataque rápido, algo que foi, várias vezes, explorado. Para além disso, a equipa procurou, em diversas situações, Di Natale: tanto através de lançamentos para as costas dos defesas centrais adversários, o que nem sempre resultou por imprecisões no passe, como em passes para ele direccionados, de forma a tirar partido da sua capacidade de temporização e das suas aberturas, principalmente para Alexis Sánchez e Armero. Foi, numa dessas situações, que resultou o 3º golo, um verdadeiro hino ao contra-ataque.

– Apesar da tendência para a exploração de ataques rápidos e contra-ataques, a Udinese também soube sair para ataque organizado com qualidade. Com base num futebol apoiado, mais à base de toques curtos, soube, quase sempre no momento certo, aproveitar a maior capacidade no passe médio de Asamoah e Zapata para servir os alas – principalmente Armero à esquerda, mas também Isla à direita, jogadores fundamentais num desdobramento ofensivo próximo de um 3x3x4 e na criação de lances de finalização, quase sempre através de cruzamentos. Na área, Di Natale e Sánchez, por vezes apoiados por Gökhan Inler, sempre prontos a ganhar posição aos defesas e a procurar a baliza adversária, beneficiaram de várias situações de 2×2 com os centrais adversários, bem mais lentos a atacar a bola. Curioso, em algumas situações, o recuo de Di Natale ou Sánchez, para um eventual remate de ressaca e, sobretudo, para fazer uma variação em direcção a um dos flancos em plena 4ª fase de construção.

– O arriscado 3x3x4 ofensivo implicava riscos do ponto de vista defensivo, já que a Udinese ficava demasiado exposta aos contra-ataques e ataques rápidos do adversário, que nunca sortiram efeito, fruto, muitas vezes, da pressão alta efectuada pelos «Friuliani», capazes de colocar 7 jogadores nos últimos 30 metros, o que dificultou tremendamente, mesmo de onze para onze, as saídas do Palermo para ataque.

– Bolas paradas ofensivas: os cantos, invariavelmente batidos por Di Natale, tanto à direita como à esquerda, foram outro dos factores de grande criação de perigo da Udinese e estiveram na origem do 2º golo. Extremamente importante a presença dos 3 centrais, todos fortes no jogo aéreo, e de Gökhan Inler, a que se juntava o sentido de oportunidade e capacidade de antecipação de Alexis Sánchez.

 

Análise

– Samir Handanovic, guarda-redes internacional esloveno, cumpre a sua 4ª época como titular indiscutível. Não se tratando de um exemplo de regularidade, atravessa uma excelente fase, o que é notório na sua confiança na abordagem aos lances. Apesar da sua elevada estatura e imponente presença física, demonstra reflexos rápidos e bons argumentos a nível da elasticidade e agilidade, o que faz com que se sinta mais confortável entre postes do que fora destes, principalmente quando obrigado a intervenções fora da pequena área. Muito comunicativo e com capacidade de comando, assume um papel fundamental na coordenação do sector defensivo. O colombiano Cristián Zapata é o líder do sector defensivo. Actua como defesa solto e a sua velocidade e disponibilidade física garantem-lhe um papel fundamental nas «dobras». É, igualmente, o defesa com maior capacidade de construção: seguro nas saídas curtas, arrisca, diversas vezes, passes médios e longos, o que lhe permite assumir um papel importante no lançamento de ataques rápidos e contra-ataques, como também, em ataque organizado, nas variações em direcções ao flanco. O marroquino Mehdi Benatia, contratado, no último defeso, ao Clermont, e o canhoto Maurizio Domizzi completam o «tridente» defensivo e assumem o papel de defesas marcadores. Utilizam, por norma, processos simples e práticos, patenteando bons argumentos a nível defensivo: não sendo particularmente rápidos, mostram bons argumentos a nível do desarme e da antecipação, tanto pelo chão como pelo ar.

Os dois alas: o chileno Maurício Isla e o colombiano Pablo Armero são elementos fundamentais na estratégia de Guidolin. Capazes de se transformarem de laterais em extremos, ao tirar partido da tremenda disponibilidade física que evidenciam, são determinantes na 3ª e 4ª fase de construção de jogo ofensivo da equipa e responsáveis por várias assistências para situações de finalização. Se Isla, um verdadeiro todocampista, capaz de desempenhar vários papeis na defesa e no meio-campo, dá uma maior consistência táctica e defensiva ao conjunto, Armero, menos consistente no plano defensivo, é, pela sua impressionante velocidade e capacidade de aceleração, mais determinante nos processos ofensivos. Uma excelente aposta da Udinese para 2010/11, o seu exercício de estreia no futebol europeu, depois de passagens pelo Palmeiras e América de Cali, emblema que o revelou. Ao centro, um «tridente» de enorme consistência táctica. O internacional suíço Gökhan Inler assume um papel mais central, mas funciona como um médio «box to box»: fundamental em acções de recuperação, ao tirar partido do seu poder de desarme e de antecipação, desdobra-se muito bem ofensivamente e aparece, com grande facilidade, em zona de finalização, de forma a tirar partido do seu forte remate de pé direito. Com capacidade de passe e visão de jogo, optou, neste jogo, mais por passes de risco reduzido: contudo, foi dos seus pés que saiu o passe de ruptura que está na origem da grande penalidade que originou o 7º golo. O experiente Giampiero Pinzi, de regresso, este exercício, ao clube, depois de duas épocas de empréstimo ao Chievo, é o menos expansivo, mas o seu papel não deixa de ser relevante: muito eficaz do ponto de vista posicional e táctico, sempre disponível para apoiar ou compensar as subidas de Isla, mostra também atributos interessantes no capítulo do passe, ainda que opte, quase sempre, por passes curtos. Já o jovem ganês Kwadwo Asamoah, a atravessar um excelente momento de forma e a confirmar o seu amadurecimento, o que o coloca como um dos mais entusiasmantes médios da Série A em 2010/11, assume, mesmo sem perder rigor táctico em momento defensivo, acções de maior risco, tanto a nível do passe, principalmente em direcção a Armero, como na produção de desequilíbrios no um para um, ao aliar velocidade e poder de aceleração a um bom poder de drible.

– Uma dupla de grande mobilidade e, acima de tudo, qualidade: Alexis Sánchez e «Toto» Di Natale, responsáveis por 32 dos 49 golos apontados pela Udinese, em 2010/11, na Serie A. Sánchez, a viver a sua melhor época desde que se transferiu, no Verão de 2007, para os «Friulani», já foi comparado pelo presidente Franco Soldati a Leo Messi: o internacional chileno, que, em Itália, se desenvolveu, de forma impressionante, no capítulo físico, apresenta um futebol explosivo e desequilibrador, tirando partido da sua velocidade, poder de aceleração, agilidade e capacidade de drible, a que conseguiu juntar uma evolução no momento da definição – tanto no remate, como no passe -, a que não é alheio o facto de se ter vindo a tornar num jogador menos individualista e mais objectivo. Já Di Natale continua a evidenciar a sua impressionante capacidade de finalização: 79 golos na Serie A ao longo dos últimos três anos e meio, a que junta argumentos no passe e no drible, o que o ajuda a promover desequilíbrios no um para um.

– Guidolin, a vencer, ao intervalo, por 5-0, optou por fazer descansar Zapata e lançar Andrea Coda, principal relevo para a zona central da defesa. Após o 6-0 e numa fase ainda muito prematura da segunda parte, foi a vez de Alexis Sánchez ser rendido pelo argentino Germán Denis, um avançado mais fixo. Já a vencer por 7-0 e com o adversário reduzido a 9 unidades, Guidolin conferiu a oportunidade do jovem médio Christian Battocchio se estrear na Serie A no lugar de Gökhan Inler.

 

UDINESE EM MOMENTO DEFENSIVO (BLOCO MÉDIO/BAIXO: 5x4x1)

 
Udinese: momento defensivo

Udinese: momento defensivo

UDINESE EM MOMENTO OFENSIVO (DESDOBRAMENTO EM 3x3x4)

 
Udinese: momento ofensivo

Udinese: momento ofensivo

 

MULTIMÉDIA: PALERMO 0-7 UDINESE

 

 

foto de abertura © Getty Images


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.