Posted 19/01/2013 by Tiago Romeu in Especiais
 
 

“The pleasure, the privilege is mine”.

"The pleasure, the privilege is mine"
"The pleasure, the privilege is mine"

 

Past the pub that wrecks your body
And the church, all they want is your money
The Queen is dead, boys
And it’s so lonely on a limb
Life is very long, when you’re lonely

The Queen is Dead

 

Vivido com maior ou menor fervor, grassa entre muitos este sentimento de monarquia moribunda. Nos últimos anos, mas particularmente nesta época futebolística interminável, que só agora e inexplicavelmente chega a meio, a falta de alegria e de futebol tem sido a pior das solidões. O sportinguismo, herdeiro de uma mitologia de nobrezas e partido pela inevitável pluralidade de classe e culturas, hesita sobre o regicídio. Morra ou não a rainha, o luto é inevitável.

 

Frankly, Mr. Shankly, I’m a sickening wreck
I’ve got the twenty first century breathing down my neck
I must move fast, you understand me
I want to go down in celluloid history, Mr. Shankly

Frankly, Mr.Shankly

 

O internacional brasileiro, o centrocampista português do futuro, o fantasma pós-soviético do último terço, a todos bafeja no pescoço a felicidade de uma alternativa, longe desta equipa estagnada. Formados e fortalecidos à base de promessas e do crédito da academia, pedem compreensão e respeito por não olharem para trás quando partirem. O caminho para o êxito próprio é um passeio na fronteira entre o compromisso com o clube e a confiança no desconhecido; frequentemente uma escolha medida em euros.

 

I know it’s over
And it never really began
But in my heart it was so real

I know it’s over

 

Sá Pinto perdido em Székesfehérvár, no enterro de algo que acabou sem ter realmente chegado a começar. No Verão, a única opção parecia também a que tinha mais sentido e cada saída ao campo trazia mais terra para cobrir o caixão. É preciso ter coragem para ser gentil, para ser bom. Nas exéquias húngaras, culminou essa transformação mas acabou o jogo.

 

When you walk without ease
On these
Streets where you were raised
I had a really bad dream
It lasted twenty years, seven months, and twenty seven days
I never, I’m alone, and I
Never, ever oh, had no one ever

I never had no one ever

 

Conhecer tão bem as escadas, os torniquetes, os portões verdes, aquele não-lugar de terraço sobre o descampado, memorial ao antigo estádio. Ou sobre a segunda circular, lá em cima, descomunal face ao adepto errante, impossível de atravessar como os anos, meses, dias que dura a desilusão. Crescer nas ruas do clube e arrastar esta solidão, mas continuar a percorrê-las, confiantes, até ao fim do pesadelo.

 

A dreaded sunny day
So I meet you at the cemetry gates
Keats and Yeats are on your side
While Wilde is on mine

Cemetery gates

 

Tarde solarenga, infecta, e entramos juntos no Jamor. Tu com as odes a um futebol sensível e a insinuar rupturas com o passado, e nós entregues à beleza da equipa, a um retrato que veríamos envelhecer e definhar com o passar das horas. Cada ida ao Jamor é também um passeio pelas campas de caídos e elegias a glórias passadas, exercício de recordar e reviver. Nessa tarde, nessa ida ao cemitério, ficou algo enterrado que não voltaria a renascer.

 

Bigmouth strikes again
And I’ve got no right to take my place
With the Human race

Bigmouth strikes again

 

Muitas vozes na ronda, disparos incessantes de projectos, ideias e certezas na ebulição ruidosa do clube. Num festim de herdeiros por jus sanguini e jus soli, todos são demasiado importantes para não serem mártires. E entretanto, as paredes de vidro de um clube aberto, continuam a embaciar-se.

 

The boy with the thorn in his side
Behind the hatred there lies
A plundering desire for love
How can they see the Love in our eyes
And still they don’t believe us?

The boy with the thorn in his side

 

Odeia-se a si próprio quando falha e às vezes parece que falha por odiar-se. Só agora começa a recuperar um pouco o fôlego, a sacudir o incómodo com a cara bem alta quando vê a bola dentro da baliza. À procura desse amor das bancadas que nunca parece incondicional, ou totalmente correspondido, enquanto cresce, Ricky van Wolfswinkel. É duro o ofício de manter o desejo, mas vale a pena, absolutamente.

 

It was worthwhile living a laughable life
To set my eyes on the blistering sight
Of a Vicar in a tutu
He’s not strange
He just wants to live his life this way

Vicar in a tutu

 

O pavor ao ridículo, à exposição à humilhação, é outra metástase do fracasso desportivo. Quando acaba o jogo, começa o desafio que dura dias: marcação homem a homem à vergonha, goleadas na mesa do café e cada manchete amarga como um penalty falhado no último minuto. E no meio do pânico, da desconfiança, perde-se muito atrevimento. Há uma audácia à espera que se quebre a paralisia.

 

To die by your side
Well, the pleasure – the privilege is mine

There is a light that never goes out

 

Falamos do fim como uma prova de amor, deste vínculo quase matrimonial de tão quotidiano na saúde e na doença. Porque o clube é um privilégio e se há coisa que as séries de derrotas têm em comum com as grandes vitórias é a intensidade. Uma pulsão vital que, virada do avesso, redescobre o sportinguismo, essa luz ao fundo do túnel que parece sempre mais longo do que pensamos conseguir aguentar.

 

From the ice-age to the dole-age
There is but one concern
I have just discovered :
Some girls are bigger than others

Some girls are bigger than others

 

Há muitas medidas de grandeza e as mais importantes costumam parecer objectivas: os troféus, a altura, os quilómetros percorridos, os passes acertados, os preços preços preços dos jogadores e dos bilhetes e das camisolas, mais as viagens e a cerveja sem álcool, micrometáfora da bancada da bola moderna. Costumam parecer, dizíamos, mas lá no fundo sabemos, pelo menos alguns, que não são. O maior quer dizer melhor e o melhor é sempre o nosso.

 
 
foto de abertura © silverdisc.com


Tiago Romeu