Posted 11/06/2011 by Rui Malheiro in Playmaker
 
 

Toulon 2011: o melhor «onze»

colombia_toulon
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A

final da 39ª edição do Torneio de Esperanças de Toulon opôs a favorita França à surpreendente Colômbia, as duas Selecções mais consistentes e que protagonizam o melhor futebol ao longo da mítica competição. A vitória quase sorriu à França, que esteve em vantagem no marcador e desperdiçou boas oportunidades para dilatá-lo, mas um golo salvador, a cinco minutos do fim, do suplente utilizado Duvan Zapata, na sequência de um lance de bola parada, um dos pontos fortes dos «cafeteros», conduziu a decisão para o desempate por pontapés da marca de grande penalidade, onde a Colômbia se superiorizou perante o desacerto dos jogadores franceses: apenas o lateral-direito Duplus foi capaz de bater o guardião Bonilla.

Apostada em preparar o Mundial Sub-20, competição que disputará em casa, a Colômbia deixou uma excelente imagem em Toulon, ao contrário do que havia acontecido no Sul-Americano de Sub-20. A incorporação de James Rodríguez, eleito melhor jogador da competição, revelou-se decisiva no crescimento de uma selecção bem organizada do ponto de vista defensivo, mas com uma ideia de jogo claramente ofensiva e sempre virada para procurar a baliza adversária, alternando a utilização de um 4x2x3x1 com um 4x2x2x2, onde os médios ofensivos James e Cardona apareciam em espaços centrais, enquanto que os avançados «Manga» Escobar (ou «Tremzito» Valencia) e Muriel abriam sobre os flancos. Já a França, organizada entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2, apostou numa mescla entre jogadores Sub-21, já a pensar no apuramento para o próximo Europeu da categoria, e alguns pré-convocados para o Mundial Sub-20. Deixou também uma boa imagem, tanto do ponto de vista defensivo como ofensivo, projectando jogadores como Duplus, Sissoko ou Joseph-Monrose, este o melhor marcador da competição ao mostrar-se exímio a aproveitar os cruzamentos de Court, Knockaert ou Bourgeois, sinal de uma clara aposta dos franceses no jogo exterior.

Das restantes Selecções, notas positivas para Itália, 3ª classificada, e México, 4º classificado. Os mexicanos, deliberadamente ofensivos, apostaram num 3x4x1x2 desdobrável em 3x2x3x2, esquema de risco elevado, onde Ulises Dávila brilhou, enquanto que os italianos, organizados num 4x4x2 clássico, começaram mais cínicos, mas cresceram com o desenrolar da competição, ao ponto de tentaram superar a França nas meias-finais apostando num futebol ofensivo. Crescenzi, lateral esquerdo, Fabbrini, médio ala, e os avançados Gabbiadini e Palloschi foram os principais destaques ao longo da prova.

Se o futebol praticado por China e Costa do Marfim foi muito pobre e terrivelmente inconsistente, não surpreendendo o facto de contarem por derrotas todos os jogos que efectuaram, Portugal e Hungria mantiveram o apuramento para as meias-finais em aberto até aos instantes finais da 3ª jornada. No caso dos húngaros foi um prémio para as excelentes prestações do guarda-redes Gulácsi e para os bons apontamentos do possante avançado Futács. Já a selecção portuguesa foi a maior desilusão da competição, pela paupérrima qualidade do futebol apresentado, um sério alerta para a participação no Mundial Sub-20. Se é certo que existe qualidade individual em alguns jogadores, a falta de rotinas e de consistência colectiva foram demasiadas evidentes. O futebol directo para o possante Baldé, surpreendentemente suplente utilizado nos 3 jogos, acabou por ser a solução para a falta de ideias.

 

Onze da Competição

 
Toulon 2011: o melhor onze

 

Péter Gulácsi (Hungria – Liverpool)

 
Péter Gulácsi21 anos – 1.92 – 3 jogos / 0 golos

300.000 € (avaliação transfermarkt)

Melhor guarda-redes de Toulon 2011, Gulácsi foi o principal responsável pela Selecção húngara disputar, até ao último minuto da fase de grupos, o apuramento para as meias-finais. Contratualmente ligado, há 4 anos, ao Liverpool, ainda não teve oportunidade para se estrear pela equipa principal. Muito alto e forte do ponto de vista físico, revela um óptimo posicionamento entre postes e um bom controlo espacial da baliza, tirando partido da sua elasticidade e reflexos. Fora dos postes, sente-se confortável nas saídas aéreas, principalmente dentro da pequena área, e é agressivo na abordagem aos lances de um para um com os avançados adversários. Muito importante nas saídas para ataque, o que o leva a assumir, diversas vezes, a primeira fase de construção de jogo ofensivo, possui um pontapé forte com o pé direito e mostra precisão nos lançamentos manuais longos.

Frédéric Duplus (França – Sochaux / Vannes)

 
Frédéric Duplus21 anos – 1.78 – 4 jogos / 1 golo

500.000 € (avaliação transfermarkt)

«Capitão» da Selecção francesa em Toulon 2011, o defesa do Sochaux – esteve emprestado, na segunda metade da temporada, ao Vannes, da Ligue 2 – foi eleito o 2º melhor jogador da competição. Lateral direito muito competente nos processos defensivos e dotado de um bom sentido posicional, o que lhe dá garantias na defesa de posições exteriores como interiores, trata-se de um jogador forte fisicamente, agressivo e pressionante, como também forte na antecipação e com bons argumentos no desarme, tanto pelo chão como pelo ar. Muito disponível do ponto de vista físico e veloz, o que lhe permite fazer o vaivém defesa-ataque, sabe assumir acções de condução pelo flanco e explorar a sua capacidade de desmarcação, patenteando argumentos interessantes no passe e nos cruzamentos, aspectos que poderá ainda refinar. Possui um remate forte de pé direito e o seu bom jogo aéreo garante-lhe a presença na área adversária para dar sequência a lances de bola parada.

Pedro Franco (Colômbia – Millonarios)

 
Pedro Franco20 anos – 1.82 – 5 jogos / 0 golos

300.000 € (avaliação transfermarkt)

Presença regular, desde os 17 anos, na equipa principal do Millonarios, trata-se de um médio centro convertido, com sucesso, em defesa central. Jogador destro muito competente nos processos defensivos, ao conciliar disponibilidade física e um bom sentido posicional, o que lhe permite cortar inúmeras linhas de passe, a eficácia para se impor em acções de antecipação, um dos pontos fortes do seu jogo, revela também bons argumentos no desarme e um bom domínio do futebol aéreo. A sua formação como médio confere-lhe grande qualidade nas saídas para ataque, já que mostra uma leitura inteligente de jogo e bons argumentos no passe, alternando passes curtos e médios em segurança com aberturas longas, como também capacidade para criar desequilíbrios no um para um, pois é tecnicamente evoluído, ainda que, em algumas situações, acabe por assumir acções de algum risco.

Nicolas Isimat-Mirin (França – Valenciennes)

 
Nicolas Isimat-Mirin19 anos – 1.87 – 5 jogos / 0 golos

400.000 € (avaliação transfermarkt)

Promovido, na fase final da última época, à equipa principal do Valenciennes, depois de se impor na formação secundária, os seus bons desempenhos valeram-lhe a estreia como internacional em Toulon 2011. Defesa central destro, utilizado, preferencialmente, pelo centro-esquerda, destaca-se pela disponibilidade e força física que emprega nas suas acções, o que lhe permite impor-se nos lances corpo a corpo, como também pela sua boa capacidade no jogo aéreo, tanto em momento defensivo como a dar sequência a lances de bola parada ofensivos. Agressivo e rápido a atacar a bola, consegue impor-se em acções de antecipação e de desarme, mas poderá definir melhor o tempo de entrada aos lances. Apesar de mostrar argumentos interessantes nas saídas para ataque, opta, habitualmente, por processos simples e práticos.

Héctor Quiñónes (Colômbia – Deportivo Cali)

 
Héctor Quiñónes19 anos – 1.78 – 5 jogos / 1 golo

— (avaliação transfermarkt)

Presença regular, durante o primeiro semestre do ano, na equipa principal do Deportivo Cali, as suas excelentes prestações em Toulon devem-lhe valer a presença no Mundial Sub-20. Lateral esquerdo de enorme disponibilidade física, o que lhe permite fazer todo o corredor, mostra competência nos processos defensivos, tanto na defesa de posições exteriores como interiores, tirando partido da sua capacidade de antecipação, pelo chão ou pelo ar – óptima impulsão -, mas também de argumentos muito interessantes no desarme. Muito perigoso nos desdobramentos ofensivos, sabe tirar partido da sua velocidade, agilidade e poder de aceleração para criar desequilíbrios, em acções com e sem bola, pelo flanco. Mais consistente no passe lateral do que nos cruzamentos, ainda acusa alguma precipitação em ambos os itens, mas não hesita em assumir o um para um e procurar movimentos em diagonal, de forma a tirar partido do seu forte remate com o pé esquerdo. É, também, um especialista na execução de lançamentos laterais longos.

Abdoulwahid Sissoko (França – Troyes)

 
Abdoulwahid Sissoko21 anos – 1.80 – 4 jogos / 0 golos

750.000 € (avaliação transfermarkt)

Titular do Troyes, clube da Ligue 2 que lutou pela manutenção no escalão, o franco-maliano assumiu-se como uma das principais figuras de Toulon 2011. Médio centro canhoto, sente-se mais cómodo quando lhe é concedida a liberdade para defender e atacar, mas também pode actuar, mais fixo, à frente da defesa. Competente do ponto de vista defensivo e com um óptimo sentido posicional, sabe tirar partido da sua força e disponibilidade física, como também da forma agressiva e pressionante como aborda os lances, para efectuar recuperações, a partir de acções de desarme ou de antecipação pelo chão ou pelo ar. Talhado para assumir acções de condução de jogo ofensivo, consegue acelerar o jogo e romper de trás para a frente ao conciliar velocidade e força a uma capacidade técnica interessante. Mostra também atributos interessantes a nível do passe, o que lhe permite fazer a bola circular, mas poderá tornar-se mais acutilante, já que opta, na maior das vezes, por passes curtos e médios em segurança.

Anthony Knockaert (França – Guingamp)

 
Anthony Knockaert19 anos – 1.72 – 5 jogos / 1 golo

200.000 € (avaliação transfermarkt)

Jogador do Guingamp, ajudou o clube, em 2010/11, a alcançar a promoção à Ligue 2, alternando o estatuto de titular com o de «joker» ofensivo. Médio ala/extremo canhoto, pode, no entanto, actuar sobre qualquer um dos flancos: em Toulon, jogou praticamente sempre à direita. Eléctrico, agitador e muito móvel, trata-se de um jogador capaz de assumir acções de condução e desequilibrador no um para um, já que é rápido, muito ágil e consegue promover acelerações no seu jogo, características a que consegue adicionar argumentos no drible. Capaz de proporcionar assistências para situações de finalização a partir de cruzamentos, em bola corrida ou parada, mostra-se também acutilante a explorar movimentos em diagonal para espaços interiores, procurando visar a baliza adversária em remates com o pé esquerdo. Ao seu jogo falta ainda uma maior consistência, já que tende a desaparecer em algumas fases, como também necessita de ganhar uma maior solidez do ponto de vista físico.

Edwin Cardona (Colômbia – Atlético Nacional)

 
Edwin Cardona18 anos – 1.82 – 5 jogos / 3 golos

300.000 € (avaliação transfermarkt)

Presença regular, desde os 16 anos, na equipa principal do Atlético Nacional, «Cardonita» surgiu em Toulon com peso a mais, mas rapidamente recuperou a forma e assumiu um papel preponderante para a vitória colombiana no Torneio. Médio ofensivo talhado para actuar em espaços centrais, trata-se de um jogador de talento inegável, ainda que peque por tender a individualizar, de forma excessiva, as suas acções, o que não o inibe de patentear bons argumentos na leitura de jogo e no capítulo do passe. Muito forte a assumir a condução de jogo ofensivo, ao tirar partido da sua grande capacidade técnica e força física, o que lhe permite criar desequilíbrios no um para um, mesmo não se destacando pela velocidade, aparece, com grande facilidade, em posições de finalização dentro ou fora da área, de forma a tirar partido do seu forte e colocado remate com ambos os pés: o direito é o que melhor define. É, igualmente, um especialista na execução de lances de bola parada: directos ou indirectos.

James Rodríguez (Colômbia – FC Porto)

 
James Rodríguez20 anos – 1.82 – 5 jogos / 2 golos

7.000.000 € (avaliação transfermarkt)

Eleito melhor jogador de Toulon 2011, James «Bam Bam» Rodríguez foi decisivo no triunfo da selecção colombiana na competição, ao juntar 2 golos – ambos de grande penalidade – a 4 assistências para finalizações vitoriosas. Unidade móvel de ligação entre o meio-campo ofensivo e o ataque, o jogador do FC Porto usufruiu de liberdade para aparecer à esquerda, à direita ou ao centro. Muito forte a assumir acções de condução de jogo, ainda que, em várias situações, se tenha excedido em acções individuais, promoveu muitos desequilíbrios no um para um, ao tirar partido da sua capacidade técnica e poder de drible, mostrando-se também temível a realizar passes de ruptura e cruzamentos – em bola corrida e parada -, o que lhe possibilitou proporcionar várias assistências para situações de finalização. A sua mobilidade e poder de desmarcação permitiram-lhe aparecer em zonas de remate, de forma a tirar partido do seu disparo com o pé esquerdo, mas destacou-se principalmente na execução de lances de bola parada: assumiu, com grande qualidade, a marcação de grandes penalidades, livres directos, livres laterais e pontapés de canto.

Ulises Dávila (México – Chivas Guadalajara)

 
Ulises Dávila20 anos – 1.74 – 5 jogos / 2 golos

300.000 € (avaliação transfermarkt)

Maior figura da Selecção mexicana em Toulon, «La Joya» Dávila confirmou os bons desempenhos realizados no apuramento para o Mundial Sub-20, conquistando os prémios de «Jogador revelação» e de «Melhor gesto técnico» do torneio, na sequência do magnifico golo que apontou à Hungria. Unidade móvel entre o meio-campo ofensivo e o ataque, mostra-se capaz de actuar como médio ofensivo, segundo avançado ou a partir das alas, onde procura, quase sempre, explorar as diagonais para espaços interiores. Eficaz a assumir acções de condução e capaz de produzir desequilíbrios no um para um, consegue aliar velocidade e grande agilidade a bons argumentos de ordem técnica e um bom poder de drible, não revelando receios em partir para cima dos adversários. Inteligente a ler o jogo, a sua capacidade de passe permite-lhe proporcionar vários passes de ruptura, mas também se destaca como finalizador: astuto a desmarcar-se e a romper de trás para a frente, possui um remate fácil e colocado com ambos os pés – o esquerdo é o que melhor define.

Steeven Joseph-Monrose (França – Lens)

 
Steeven Joseph-Monrose20 anos – 1.78 – 4 jogos / 5 golos

400.000 € (avaliação transfermarkt)

Melhor marcador de Toulon 2011 e uma das principais figuras da prova, foi pouco utilizado na equipa principal do Lens ao longo da última temporada, o que fez com que fosse opção regular na formação de reservas que disputa o 4º escalão (CFA) do futebol francês. Jogador com grande sentido colectivo e capaz de actuar como principal referência ofensiva, segundo avançado ou a partir de uma das alas, de forma a explorar os movimentos em diagonal, consegue aliar uma extrema mobilidade, velocidade e agilidade a poder físico e bons movimentos curtos sobre os adversários, o que lhe permite criar desequilíbrios. Extremamente perspicaz a desmarcar-se, aparece, com grande facilidade e sentido de oportunidade em zona de finalização, onde se consegue impor também pela agressividade com que ataca a bola e ganha posição aos defesas adversários, mostrando capacidade para definir através do jogo aéreo ou através de remates com o pé direito. No entanto, não se limita ao papel de finalizador e também proporciona várias assistências para situações de finalização, tanto a partir de passes como de cruzamentos.

 

foto de abertura © AFP


Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.