Posted 04/01/2008 by Rui Malheiro in Especiais
 
 

Yakubu: de dispensado no Gil Vicente a goleador na Premier League

yakubu_everton_fulham_2007
yakubu_everton_fulham_2007

OPERAÇÃO YAKUBU. Foi a 13 de Agosto de 1999, exactamente uma semana antes da Liga 1999/2000 se iniciar, que o Gil Vicente apresentava como reforço para a nova temporada um jovem internacional nigeriano nos escalões de formação. De seu nome Yakubu Aiyegbeni, de apenas 16 anos. Álvaro Magalhães, na altura técnico dos gilistas, mostrava-se preocupado com a lesão longa de Diocliciano Tavares e pela inadaptação do reforço Xandi, um avançado extremamente franzino descoberto no modesto Lajeadense e indicado pelo empresário Manuel Barbosa, tendo pedido um novo homem de área. A Direcção do Gil Vicente procurou uma solução e encontrou-a no jovem Yakubu, que, apesar da sua juventude, já era titular do Julius Berger, clube da divisão maior do futebol nigeriano. As negociações, intermediada por Sylvanus, antigo internacional nigeriano que jogou no futebol português na década de oitenta, foram duras e prolongaram-se durante algumas semanas, pois o Gil Vicente não podia cobrir o valor do passe de Yakubu, tendo sido encontrada uma solução intermédia: um empréstimo por uma temporada. A operação foi levada tão a sério que, apesar da imprensa falar do interesse do clube em jovens africanos, o nome de Yakubu só foi conhecido quando foi apresentado. E não chegou sozinho: com Yakubu chegou também um jovem central nigeriano de nome Harry (Harrison Omokoh, central há vários anos a jogar na Ucrânia, onde chegou a representar o Dínamo Kiev).

DOIS GOLOS NA ESTREIA APÓS A TEMPESTADE. Depois da apresentação, na então renovada sala de imprensa do Estádio Adelino Ribeiro Novo, Yakubu e Harry seguiram para Braga, onde pernoitaram. No dia seguinte, o secretário-técnico Rochinha dirigiu-se ao hotel, a fim de transportar os jogadores a Barcelos onde iriam fazer os indispensáveis testes médicos. Contudo, e para espanto de Rochinha, Harry e Yakubu recusaram-se a acompanhá-lo e reclamaram os passaportes para regressarem, de imediato, à Nigéria. Segundo a edição do jornal “Record” de 15 de Agosto de 1999, os dirigentes gilistas queixavam-se de um envolvimento de um novo empresário, que terá aliciado os jogadores com uma proposta de um emblema luso de maior projecção que dobraria as propostas. Contudo, Sylvanus e Peter Rufai, que se preparava para reforçar a formação gilista, conseguiram dar a volta à situação, e colocaram Yakubu e o seu compatriota novamente na rota do emblema de Barcelos. E, na tarde de 16 de Agosto, Yakubu fez o primeiro treino pelo Gil Vicente, apontando dois golos: um de grande penalidade e outro de cabeça numa movimentação à ponta de lança que agradou de sobremaneira a Álvaro Magalhães, que não escondia a felicidade com o novo reforço. Yakubu, de poucas palavras e algo tímido, falou à imprensa no final do treino: “É sempre importante marcar golos, mesmo que num treino, pois é essa a minha missão”.

NOVA NOVELA. Já depois de João Magalhães, na altura presidente do Gil Vicente, ter revelado que o clube ia contrair um empréstimo bancário para pagar os 40 mil contos envolvidos na operação de compra dos passes dos dois jovens nigerianos, de forma a evitar problemas semelhantes aos de Drulovic, que abandonou, a meio da temporada 1993-94, o Gil Vicente à revelia do clube, pois os seus empresários venderam o seu passe ao FC Porto, iniciou-se uma nova “novela”: a da não chegada do certificado internacional de Yakubu e Harry, que falharam a recepção ao Campomaiorense (vitória 3-0) e deslocação ao Restelo (empate 1-1), para desespero dos dirigentes do Gil Vicente e de Álvaro Magalhães, que se viu obrigado a adaptar Guga ao posto de avançado-centro. Só que, a 30 de Agosto, João Magalhães mostrou-se cansado de esperas e decidiu dispensar Yakubu e Harry, acrescentando que os jogadores estavam proibidos a partir daí de treinar com o restante plantel.

O RAPTO E A PENHORA. Na edição de 31 de Agosto de 1999 do jornal “Record”, o “caso” Yakubu e Harry mereceu amplo destaque, surgindo mais uma figura na novela – o guineense Cátio Balde, representante em Portugal do empresário nigeriano Sylvanus, que acrescentou novos dados ao enredo: “Os contratos estão assinados e tudo está legal. O Sylvanus regressa da Nigéria quarta-feira, onde se deslocou exclusivamente para desbloquear a situação, já com os documentos e agora eles querem dispensá-los. O Gil Vicente foi o escolhido devido às boas relações com o treinador Álvaro Magalhães, uma vez que havia vários clubes interessados. O Sylvanus quase teve de raptar o Yakubu para Portugal e, agora, foi obrigado a penhorar duas casas na Nigéria, no valor de um milhão de dólares, para o clube que detém o certificado internacional dar o documento. Ele chega amanhã, está tudo legal e já não querem os futebolistas”.

O ADEUS A BARCELOS. A aventura terminou a 2 de Setembro, data em que Sylvanus regressou a Portugal, desconhecendo-se se acompanhado dos certificados internacionais dos jogadores. O empresário ainda falou de um eventual interesse de União de Leiria e Marítimo no concurso de Harry e Yakubu, como também de um elemento ligado a um clube saudita. Yakubu, que em Barcelos cruzou-se com jogadores como Petit, Ricardo Nascimento, Auri, Fangueiro ou Guga, partiu amargurado, dizendo mesmo que o seu desejo era regressar o mais rapidamente possível à Nigéria, de forma a preparar da melhor forma possível uma eventual participação nos Jogos Olímpicos de 2000, que acabou por se concretizar. Na altura da despedida a Barcelos, os jogadores nigerianos queixaram-se ao jornal “Record”: “Esta situação não foi nada agradável e nunca pensámos que viesse a acontecer quando chegámos a Barcelos. Somos internacionais pelo nosso país e não merecemos este tratamento. Sentimo-nos superiores a isto tudo e ao clube”.

YAKUBU, PROFISSÃO: GOLEADOR. Depois da experiência negativa em Barcelos, Yakubu regressou à Nigéria, mas por pouco tempo. Foi contratado pelo Hapoel Kfar-Saba, clube que pretendia fugir à despromoção na divisão maior do futebol israelita. Marcou 6 golos em 23 jogos em 1999/00, mas que não foram suficientes para evitar a descida. A boa experiência em Israel valeu-lhe a estreia pela Selecção principal da Nigéria, como também a participação nos Jogos Olímpicos de 2000, onde marcou um golo espectacular às Honduras. Após as Olímpiadas voltou a Israel, mas para representar o Maccabi Haifa, onde após apontar 3 golos em 14 jogos, seguiu, por empréstimo, para o Dínamo Kiev, onde não se chegou a estrear. Regressou a Israel, onde viria a apontar 13 golos em 22 jogos pelo Maccabi Haifa em 2001/02, regressando à Selecção, figurando no lote de pré-seleccionados para o Mundial 2002, mas acabaria por ficar de fora dos eleitos, isto apesar de ter participado no último jogo treino antes da fase final. Continuou no Maccabi Haifa, que lhe deu a oportunidade de se estrear na Liga dos Campeões, em 2002/03: apontou 7 golos em 7 jogos – um “hat-trick” ao Olympiakos e um golo, de grande penalidade, ao Manchester United deram-lhe grande projecção -, a que juntou 8 golos em 13 jogos da Liga, tornando-se num dos frutos mais apetecidos do “Mercado” de Janeiro em 2003. Rumaria ao Portsmouth, que procurava a subida à Premier League, e não desiludiu: 7 golos em 14 jogos e a promoção ao principal Campeonato do futebol inglês. Nas duas épocas seguintes, já na Premier League, apontou 29 golos em 67 jogos, transferindo-se, no Verão de 2005, para o Middlesbrough, que investiu 7 milhões e meio de libras na sua aquisição. Em duas temporadas, marcou 25 golos em 71 jogos da Premier League, a que juntou 8 golos na FA Cup e 2 na Taça UEFA, tendo sido suplente utilizado na final da competição em 2005/06, que o Boro perdeu para o Sevilha (0-4). Esta época começou-a ainda no emblema de Riverside, mas a 29 de Agosto de 2007 foi apresentado como novo reforço do Everton, que investiu 11,25 milhões de libras na sua aquisição. É, até ao momento, o melhor marcador do clube na Premier League 2007/08, somando 9 golos em 15 jogos, tendo-se destacado ao apontar um “hat-trick” diante do Fulham, o clube a quem mais golos marcou desde que chegou a Inglaterra: 8 em 8 jogos.

 

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Rui Malheiro

 
analista de futebol, scout e autor. freelancer. escreveu Anuário do Futebol 2008/09 e Anuário do Futebol 2009/10.