Posted 13/11/2011 by Caderneta da Bola in Especiais
 
 

Zito, ou a presença de todo o futebol na ausência de um canhoto.

Zito, ou a presença de todo o futebol na ausência de um canhoto
Zito, ou a presença de todo o futebol na ausência de um canhoto

“S

olta a bola mais cedo, Helmer”. Da equipa técnica, só o Quinas é que lhe chama Helmer e muito de vez em quando e agora só o Quinas é que ressoa dentro da sua cabeça, dentro do carro, debaixo da chuva, fora do Complexo do Senhor Comendador, fora dali. “Solta a bola mais cedo”. Passa em frente ao ginásio, esquerda, segue. Foge da Penha, do bairro da Oliveira do Castelo, foge ao lateral direito, ao longe o Paço dos Duques e o Castelo, desce a Carlos Malheiro Dias como quem desce o flanco esquerdo, ao longe o Paço como linha de fundo.

“O Fredrik está bem, e há o Edmilson, também, e o Ricardo, Helmer, sabes que o Jaime gosta do Ricardo, e o Vítor também” e o resto dos nomes, “e tu não tens estado por cá, Helmer, é complicado, e agora há o Branko e vem o N’Tsunda, o do Chaves, se colaborares, claro, se colaborares”, e no meio não há lugar, nem no meio nem na ponta nem em lado nenhum, nem no complexo do senhor comendador. Não há lugar na família Pimenta Machado, Helmer, continua a tarimbar com os dedos no tablier, desvia o olhar do Castelo, do Jaime, do Quinas, do Neno e do Freitas e mais atrás do Tito, do senhor Augusto a dizer que o Presidente viu ali no N’Tsunda um novo Basaúla, “tu sabes que há tradição, Zito”, o riso convulsivo do Valter Ferreira quatro anos antes, “tu não chegaste aqui agora, tu sabes”.

Vira à esquerda, começa a procurar lugar para estacionar, hoje é melhor não ir justamente até à porta do Dom Afonso Henriques. Recorda quando saltou para o campo em Alvalade, a multidão leonina galvanizada pela entrada de Juskowiack e o terror na cara de Taoufik, os gritos do Matias, o pedido de substituição após aquele golo, o terror os dentes cerrados de esperança, aquilo não era o Malveira, era o Vitória em Alvalade e um nome de guerra. E agora a guerra perdida, estacionar o carro e subir para o gabinete, estão à espera para fechar o acordo, à espera lá em cima, em Chaves, no Zaire.

Solta a bola mais cedo, Helmer e é como sair de um treino sabendo que amanhã é folga para sempre.

Todos à espera menos ele, “mas tu, Helmer, tens 26 anos, levanta-me essa cabeça, deixa-te de merdas”. Cruza o hall de entrada, cumprimenta aquele gajo meio desconfiado e nervoso do Comércio de Guimarães mas contraem-se as cordas vocais, não há som mas entre as têmporas o ruído é ensurdecedor, “a sério que ele me disse que esperava muito de ti, Zito”. E o resto é, para ele e para os demais, uma espessa neblina, das que inundam a cidade de esquecimento nas manhãs frias de Fevereiro.

“Solta a bola mais cedo, Helmer” e é como sair de um treino sabendo que amanhã é folga para sempre. Direcção a Fafe, a caminho de Chaves, os olhos vítreos como os faróis de nevoeiro, e esse manto branco, pesado e que não deixa confirmar a lenda que, quando se vai do Vitória um grande, latejam de raiva as veias da estátua de Dom Afonso Primeiro.

Revisitar a partida de Zito de Guimarães acaba por não ser mais do que narrar a parábola do futebol português. Essa partida de um grande sob a névoa, como num sebastianismo invertido, um microcosmos futebolístico feito de futuros reis que vão sem nunca regressar, ilustra de forma perturbante esta espécie de desporto pátrio em perpétua queda sem ascensão. E não é fácil encontrar um jogador do rectângulo luso que tenha ouvido tantas prelecções de tantos campeões como Helmer da Piedade. Um operário da bola cuja poética biográfica – como começou, como acabou, como nunca começou nem acabou realmente, por onde passou – represente de forma tão límpida esse paradoxo simbólico do lado mais romântico do futebol: às vezes, quanto mais perto da glória sem consagração, maior é o fracasso. E quanto maior o fracasso, maior a marca na memória, e daqui à grandeza.

Após anos de forja de estilo e substância entre várias latitudes, o baptismo de Helmer no escalão sénior e em competições oficiais indicia o que viria a ser, não só de si, mas dos futuros paradigmas do futebol interno.

Adiante. Os blues deste xaman, Rei Lagarto da linha lateral e Backdoor Man de meio da tabela, começaram no exacto dia em que morreu Jim Morrison. Esquivo e lânguido, entre a hibernação e a explosão animal, Zito nasce a 3 de Julho de 1971 na província angolana de Malanje, berço das palancas negras que mais tarde representaria com tanta galhardia como agridoçura. Após anos de forja de estilo e substância entre várias latitudes, o baptismo de Helmer no escalão sénior e em competições oficiais indicia o que viria a ser, não só de si, mas dos futuros paradigmas do futebol interno. Com 19 anos, talento e souplesse em bruto, Helmer começaria na Medideira a transfiguração em Zito ao lado de nomes cimeiros como o matemático lateral direito Tó Sá, futuro indiscutível em Setúbal e Coimbra, o incrível almadense Jorge Paixão, ou o brasileiro Helinho, em anos idos um dos preferidos do São Luís farense. Acrescente-se a estes, como não podia deixar de ser, o seu primeiro mentor na ala esquerda do ataque, Jorge Silva, totalista ou quase nesse grande projecto futebolístico liderado pelo já aqui mencionado Jorge Jesus, o Rinus Michels da Medideira, laboratório onde patenteou a defesa à zona e a grandiloquência dos campeões.

Sénior no escalão mas júnior na relação com a labor diária de um futebolista emergente, a saída de Zito na temporada seguinte, em 1991, de uma das equipas sensação numa 2ªB dominada pelo Olhanense de Edinho e Pedro Estrela, para um despromovido dessa mesma divisão, causou alguma surpresa. Essa surpresa e a frieza desses dados não fazem justiça à crua realidade: Zito incendiava a baía e assinava pelo Seixal, na primeira vez que jogaria de azul e grená na sua carreira. Do outro lado, de frente para uma Medideira que aplaudia um dos melhores momentos futebolísticos da história do Amora, Zito tentava colmatar a orfandade, entre outros, de Paulo Vida e o sueco Sunesson, desertores no vendaval da despromoção, e manter a salvo o barco seixalense na maré baixa da 3ª divisão. O sexto lugar no final de 1992 foi um pequeno passo para um colectivo que aspirava voltar ao escalão superior mas salto gigantesco para um esquerdino em ascensão, cujo potencial cativaria o Malveira, promovidos, esses sim, à zona centro da 2ªB. Dando sentido à expressão do passo atrás para poder dar dois adiante, Zito continuaria as boas exibições num Atlético da Malveira insuficiente, com pouco mais de metade dos pontos do omnipotente líder Académico de Viseu, de Zé de Angola e Besirovic.

Com 21 anos e um nome recorrente nos mentideros das divisões inferiores, o trabalho no oeste seduz os olheiros da cidade-berço e serve a Zito de trampolim para o Dom Afonso Henriques, chegando onde apenas 2 anos antes, despojo de um Amora ganhador, dificilmente teria imaginado. No Minho entra pela mão de outro líder cuja vitrine viria anos mais tarde a albergar o surpreendente palmarés de, entre outros, três Girabolas seguidos ou o record de maior número de Supertaças Angolanas da história da competição. Bernardino Pedroto, homem que viria a marcar de forma inquestionável o desporto do seu país, dava então a Zito a oportunidade de debutar na divisão maior do futebol português, e ainda para mais num elenco repleto de celebridades sujeitos erraticamente à glosa cadernética. A dupla zairense, o clã tunisino, o incombustível Dane e o combustível Zlatko Zahovic, o ardente Platini de Ljubliana, ou a futura estrela patrícia no mundial sub-20 qatarí Agostinho, epifenómeno ibérico já aqui referido e nessa época em plena explosão. Seria justamente o brilhantismo de Agostinho na ala esquerda do ataque vimaranense o principal obstáculo à emergência de Zito. Impedido pela acesa competição de jogar uma única vez sequer a titular e fechado no loop da substituição a vinte minutos dos noventa, acabaria por ser com uma mágoa resignada e uma réstia de esperança que aceitaria a inclusão na transferência do avançado mineiro Gilmar para os vimaranenses, rumando por empréstimo ao recém-ascendido Desportivo de Chaves.

Grandes momentos como o seu primeiro golo com o Barcelona do Marão, numa tarde inesperadamente solarenga frente ao União de Leiria ou as duas vitórias frente ao Boavistão de Manuel José, a primeira das quais por 4 bolas a 1 no Bessa, com 20 minutos de absoluto terror e demolição dos axadrezados.

Apesar da época instável, própria de um colectivo em adaptação a um escalão exigente, o rendimento de Zito sobreviveu à intempérie transmontana e à substituição do artífice da subida António Jesus por Vítor Urbano e coalhou num excelente entendimento com um avançado que anos antes via como um rival imbatível nesse fortíssimo Olhanense da subida que vulgarizou o seu Amora: o brasileiro Edinho. Grandes momentos como o seu primeiro golo com o Barcelona do Marão, numa tarde inesperadamente solarenga frente ao União de Leiria ou as duas vitórias frente ao Boavistão de Manuel José, a primeira das quais por 4 bolas a 1 no Bessa, com 20 minutos de absoluto terror e demolição dos axadrezados.

No final dessa temporada, aspiraria legitimamente regressar à casa mãe e triunfar finalmente no clube que o resgatara das profundezas das competições inferiores mas encontraria uma singular circunstância que se viria a repetir época após época. Um dia da marmota mas com uma palanca negra encravada em 24 horas que se repetem perenemente, começando com a esperança desmedida e acabando com o guia de marcha. “Temos este e aquele, Helmer”, e o Zito embala a trouxa e marcha. Primeiro desafogando uma frente de ataque branca que incluía agora Capucho ou Vorkapik, rumo a um Paços de Ferreira de Segunda de Honra onde reencontraria António Jesus e César, defesa igualmente proscrito pelas hostes afonsinas, numa equipa com talento em homens como Telmo Pinto, o histórico Yulian ou o portentoso Dinda, centrocampista infatigável na tarefa de carregar o piano desde o fundo do poço.

Crescer no fio da navalha e a evoluir contra o jugo implacável da casuística do mercado e de uma estrutura para quem o talento e o futebol dandy é uma metástase, tão disseminada como nociva.

Nesse ano ficou às portas da subida mas novamente titular, viveu o mesmo momento do ano anterior e acabou por rumar novamente a sul, desta feita com a particularidade de ser chamado pelo treinador que, dois anos antes, achara que a lapidação do diamante implica regularidade e que essa a encontraria em Chaves. Falamos do Belenenses do mago Quinito, do regresso de Helmer ao escalão maior, de um jogador a atingir a maioridade futebolística e a encarnar a sina do talento futebolístico português: crescer no fio da navalha e a evoluir contra o jugo implacável da casuística do mercado e de uma estrutura para quem o talento e o futebol dandy é uma metástase, tão disseminada como nociva.

Era um Belenenses à imagem do seu mestre, impregne de carisma na defesa, fantasia e criatividade no meio – nao estivéssemos a falar nós de uma bicefalia Rogério e Rui Esteves – e de veneno no ataque, com o goleador do Atlas, Youssef Fertout, e Pedro Miguel, que já há alguns anos foi alvo de uma monografia neste vosso bloco de notas. Infelizmente, também o era de escassos resultados, não obstante a boa impressão novamente deixada por Zito, condimentada com alguns golos como os que marcou ao FC Porto e ao Sporting.

O regresso a Guimarães para o derradeiro déjà-vu no final dessa época teria como protagonista Jaime Pacheco. O férreo treinador, hoje apóstolo da marcação ao homem na república popular chinesa, avesso ao carácter do desequilibrador, colocou-no no mercado e à margem das opções do grupo. Zito via este preâmbulo de alguns meses em plena maturidade e conhecido cada vez mais como Prince, outro pequeno génio de reconhecimento ambíguo, alcunha propalada por amigos como Evaldo, lateral guineense e outro desconsiderado de Guimarães. O calvário acabou nessa despedida já narrada, rumo a Chaves num mercado de inferno, que via novamente o palanca como moeda de troca de um ex-diamante negro de Robson, o leopardo Etienne N’Tsunda. Essa atribulado primeiro semestre de 1998 incluiu ainda uma presença numa Copa de Naçoes Africanas de má memória para os angolanos. Numa selecção liderada pelo intercontinental Professor Manuel Gonçalves Gomes, Neca, e numa equipa suportada por figuras como Fabrice Akwá ou Quinzinho, Zito viu o seu país ser trucidado na bola pela Costa do Marfim do venenoso Ibrahima Bakayoko e pelos finalistas vencidos África do Sul, onde despontava um sobrevivente do Soweto que viria mais tarde a ser também sobrevivente da noite de Vigo, um jovem Benny McCarthy.

Em Chaves, no mês de Março, fez os seus três jogos da época numa equipa estelar cujos intérpretes justificaram já um estudo aprofundado (recuperável algures nos arquivos de dois mil e três). O que provavelmente não imaginaria seria que esses seriam os seus últimos três jogos no escalão maior do futebol português, despedindo-se frente ao Salgueiros de Dito. Refira-se que em Chaves trabalharia também com outro treinador campeão em potência, Álvaro Magalhães, um domador de banco sanguíneo e irregular que ganharia a Segunda de Honra em Barcelos no ano seguinte e o Girabola 12 anos depois.

O ano seguinte seria novamente no Belenenses, para onde seguiria com Matute, companheiro seu na dianteira transmontana, e onde seria treinado novamente por dois campeões, o histórico Vítor Oliveira – por três vezes ganhador da Segunda de Honra – e, antes dele, Manuel Cajuda – que nunca ganhou nenhum título mas que adquire esse estatuto ao referir-se a si próprio como se tivesse ganho vários.

A excelente prestação no Belenenses valeria ao clube a promoção à divisão maior mas Zito, quiçá resignado ao apelo do norte ou talvez a não nadar contra correntes adversas, seguiria para a estabilidade do interessante projecto Espinho. O treinador, diga-se, era Carvalhal, um recém-promovido a treinador cujos dotes de leitura técnico-táctica lhe assegurariam a glória não só em Matosinhos, quando levou o Leixões ao título da 2ªB e à final da taça de Portugal, como em Setúbal, com a vitória na Taça da Liga.

Depois de Espinho, uma espiral descendente em direcção ao Paredes e, antes do fim, um último périplo frustrado no Operário.

Depois de Espinho, uma espiral descendente em direcção ao Paredes e, antes do fim, um último périplo frustrado no Operário, liderado no banco pelo ericeirense mas histórico do futebol insular Filipe Moreira e no relvado pelo seu conterrâneo de Malanje, o mago Osvaldo Pinto, internacional A pela selecção portuguesa na Skydome Cup canadiana sob o pseudónimo de Vado. Depois dos Açores, dar à costa em Gaia e acabar a carreira no Canelas aos trinta anos, marcando o seu último golo como profissional ao FC Porto, derrotados na outra margem do Douro com Bruno Vale na baliza e figuras da dimensão de um Ricardo Costa ou de um Hugo Almeida.

Aqui jaz, então, nas entranhas dos cursos de treinador de segundo nível e do anonimato quotidiano, levado cedo demais desta vida da bola incapaz de traduzir em número a sua poesia, apesar de moldado por inúmeros campeões. Estampado nas costas do equipamento, já seja o azul belenense, branco vimaranense ou o beige anónimo da empresa de segurança comercial onde agora encerra as memórias de uma vida de relvados, Zito leva o genoma do homo luso futebolensis. Éfige de toda uma cultura, síntese de um futuro que já vimos.

 

foto da abertura © compilação glórias do passado


Caderneta da Bola

 
Historiografia, narrativas e estatísticas de figuras e episódios lendários da bola, essa arte geométrica. COMPÊNDIO DO ESFÉRICO: O blog Caderneta da Bola é uma preciosidade. Os autores exibem uma erudição futebolística extraordinária, uma memória espantosa e um contagiante gosto pela petite histoire, tudo relatado num português voluptuoso. (Ricardo Araújo Pereira)